ROMANTISMO DO NOSSO TEMPO


Poema de Guilherme

Romantismo do nosso tempo...
Mal compreendido, talvez mal vivido...
Romantismo de um povo desenvolvido,
de um materialismo implantado,
de valores que embotam os sentidos...

Pensando bem,
que povo sem graça, que povo sofrido...
O dinheiro enlouquece, e a gente se esquece,
da própria razão.
A gente não entende a linguagem, do próprio coração...

Que povo é esse, que fala de amor,
um amor de papel, papel sem valor...
Que se envergonha, da pureza de tudo,
mas não sente pudor do seu corpo desnudo?

Os conceitos mudaram, e eu também mudei.
Mudei os hábitos do meu corpo sim,
e até já transplantei meu coração
por outro moderno, movido a extratos sensuais
de mulheres nuas, e outros complementos sexuais.

Mas, eu tive um cuidado especial,
e o meu coração autêntico eu guardei.
Esse coração continua pulsando abafado, no meu peito trancado
e a chave que o liberta me acompanha pelas ruas,
em minhas noites de aventuras.

Segredos ocultos, guardados no coração.
Nesse moderno romantismo
eu escondo um sentimento secreto,
com receio de torna-lo ridículo
ao idiotismo de um meio.

Romantismo do nosso tempo,
do nosso tempo tão mudado.
Hoje em dia já não se dá mais,
um bom dia, ou "Deus lhe pague",
mas com todo sentimento, sem aquele sorriso de fingimento.

Hoje em dia se dá sim, um aceno moderno,
como quem diz: - Vá para o inferno!
Hoje em dia não se dá mais, uma galinha de presente,
com aquela simplicidade de gente,
como se fazia antigamente.

Hoje em dia se dá sim, até muito mais,
porém, interesseiramente...
Eu vou logo dizendo, confesso,
eu não gosto do antigamente...

Porque, eu acho natural o progresso.
Mas, naquele tempo, onde tudo era escasso,
pelo menos havia sinceridade,
ou coisas do gênero, envoltas numa auréola de santidade.

Hoje em dia a moral e a dignidade
pertencem a uma instituição falida,
e a própria virtude anda se prostituindo
pelos bordéis da vida.

Os valores estão invertidos...
Hoje sou hipócrita, portanto sou digno...
Hoje, até o sacrossanto matrimônio
talvez seja uma arte do demônio.

Nós, que experimentamos de tudo, e para culposas frustrações afinal,
sempre temos uma desculpa mascarada,
e para ações ilícitas praticadas, um álibi perfeito e a justiça enganada.
Ah, homem vil que não sente vergonha, de trazer na face estampada,
a sua falsidade em forma de máscara que sorri.

Romantismo do nosso tempo, do nosso tempo transformado.
Transformado em que não sei...
Só sei que também construí um edifício
de concreto armado, repleto de valores falsos, de amores fabricados,
de beijos comprados, e pinturas artificiais.

Meu edifício tem ar refrigerado, bebo whiskies importados...
Enfim, eu moro nesse edifício de apartamentos,
onde cada vizinho ciumento
me chama de uma porção de coisas, inclusive de nojento.

Mas nojento é o falso perfume
que emana do mal que se pratica e não se assume...
Que adorna a gente insensata, moradores desse edifício luxuriento
de bela fachada, mas sem valor por dentro.

Eu moro nesse mesmo edifício,
com luxo e conforto, mas reclamando da vida,
preferindo às vezes estar morto,
ou então, preferindo uma simples palhoça, e ser talvez, um caipira da roça.

Mas não, não que eu não possa;
a hipocrisia que também tomou conta do meu ser
é mais forte que tudo,
e eu não tenho mais querer.

É neste mundo, que eu tenho que viver e vencer;
enganando e sendo enganado; convivendo com a crise atual,
engolindo esse combustível sujo, mas precioso,
que move e lubrifica este mundo desditoso...

Mundo desvirtuado, de valores falsificados,
do homem moralmente esclerosado...
Eu tenho que conviver com o romantismo do nosso tempo.
Será que tudo isso é bom?  Estarei errado? ...

Será que misturei tudo?
Romantismo do nosso tempo,
do nosso tempo mudado,
que me deixa perplexo e me deixa mudo...
Reflexões de Guilherme Köhn

(Guilherme Köhn)

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