T R A N S E


Peça Teatral

          "Transe", é uma peça teatral em um só ato, do autor Ronald Radde.  Esta peça, foi escrita na década de 70, e conta a estória de 5 personagens que sofrem um acidente simultaneamente.  No decorrer deste fato, encontram-se em um lugar fechado, e não sabem como foram parar ali. Atmosfera de mistério... O drama se desenrola nesse clima surreal, desvendando os segredos de cada personagem. Apenas um deles parece conhecer um segredo que se recusa a revelar.

          Esta peça é muito interessante e intrigante ao espectador. Do começo ao fim, prende a atenção do espectador, ou do simples leitor.
OBSERVAÇÃO: Esta peça só poderá ser representada no todo ou em parte mediante autorização expressa da SOCIEDADE BRASILEIRA DE AUTORES TEATRAIS - SBAT.

          Cenário único: Rotunda ou parede negra, lisa, sem entradas ou saídas.  Afixado no lado direito, um telefone de parede.
Início:  -  Com o palco às escuras, sonoplastia entremeada com vários ruídos se confundindo, em seguimento: colisão de carro em alta velocidade, multidão, vozes, sirene de ambulância se afastando, murmúrios da multidão. 

          Ruídos de cirurgia em hospital com diálogo entre médico e assistente:
Doutor -- "Enfermeira, a tesoura!  O Bisturi!  Como está o pulso?"
Assistente -- "O pulso está muito fraco, doutor!  Muito fraco!  E a pressão!"
Doutor -- "Preparar para massagem no coração!  Massagem no coração!"

          Um grito: "PARE"  -  Corte rápido na sonoplastia, e pisca-pisca luminoso no palco onde três homens e duas mulheres vestindo túnicas brancas, compridas até os pés, estarão se rolando no chão, urrando como possessos como que sofrendo dores horríveis.  Aos poucos, vão cessando os gritos e todos param, permanecendo prostrados ao chão.

          O pisca-pisca cessa e a iluminação agora é tênue, podendo ser luz-negra.  Um dos personagens masculinos, Anselmo, tropegamente, demonstrando grande esforço, tenta erguer-se.  Sem entender o que se passa, sem saber o que é aquele local, dá alguns passos, cai, ergue-se novamente, balbuciando, ofegante, apavorado.

          ANSELMO  -  O que é isso aqui?  O que é isso?  Onde estou? (Vai tateando as paredes, sempre trôpego)  -  Meu Deus, o que é isso?  Quem me prendeu aqui? (Nota os demais estendidos no chão, imóveis.  Ajoelha-se ao lado de cada um balançando-os aos berros, tentando acorda-los). - Quem são vocês?  Quem são vocês?  Acordem!  Acordem!  Pelo amor de Deus, o que é isso aqui?  Acordem!

          (Os demais, após sacudidos, balbuciantes, trôpegos, vagarosamente, vão saindo do torpor, tentando se erguer e passando logo a se apavorar também com o ambiente, sem nada entender.  Somente Jonas, não demonstrará pavor. Será pelos demais tentada a fuga, trôpega, daquele ambiente, quando ainda tontos, tentarão correr, inexistindo porém saídas. Logo, estarão batendo com os punhos nas paredes aos gritos: "Abram!  Abram!"  Quem é que me prendeu aqui?  O que é isso?"

          -  Enquanto siio, Jonas, já de pé, apenas observa-os.  Os demais, instantaneamente, param de bater e de se debaterem e se olham com curiosidade e medo recíproco).

         ANSELMO  - Eu não entendo... Quem são vocês?  Vamos, respondam!  Quem são vocês?
          LUIZA  - Eu não sei, não entendo...
          NEIDE  - Eu não conheço ninguém aqui... eu não sei o que é isso!
          ADALBERTO  - Eu quero sair daqui. Eu...

          LUIZA  - Não!  Eu devo estar sonhando... sim!  Eu estou sonhando!  Isso não pode estar acontecendo!  Isso mesmo!  Isso é um pesadelo, um pesadelo!  Mas eu quero acordar!  Como é que eu vim parar aqui?  Isso é um pesadelo!
          NEIDE  - Isso mesmo!  É um pesadelo! Tem que ser um pesadelo!

          JONAS  (Fazendo com que a atenção de todos se voltem em sua direção, já que está um pouco afastado)  -  Desculpe-me madame, mas não é um pesadelo! Não estamos sonhando!
          ADALBERTO  - E quem é você, que só fica quieto nesse canto?  Não faz nada?
          JONAS  - Estou fazendo: estou dizendo que é impossível que cinco pessoas tenham o mesmo sonho e ao mesmo tempo!

          ADALBERTO  - E quem é você?
          JONAS  - É uma boa ideia nos apresentarmos.  Quem sabe se não devemos fazer as apresentações, para que nos conheçamos melhor?  Meu nome é Jonas. 
(Os personagens ainda estão trôpegos, devendo inclusive, demonstrar uma certa amnésia, ao se pronunciarem.  No momento das apresentações, a iluminação deverá ser reforçada, marcando a identificação de cada um)

          LUIZA  - Meu nome... meu nome é... Meu nome é Luiza!
          NEIDE  - E eu... eu sou... Neide!
          ADALBERTO  - Eu sou... eu sou Adalberto!  Isso!  Adalberto, e sou... funcionário público!
          ANSELMO  - Eu me chamo... me chamo Anselmo e sou farmaceutico!
          JONAS  - Ótimo!  Agora que já estamos apresentados, senhora Neide...

          NEIDE  - Senhorita... sou solteira...
          JONAS  - Pois não, senhorita Neide, senhora (?) Luiza, senhores Adalberto e Anselmo.  Muito bem!  Agora me digam:  Já pensaram que diabo possa ser isso aqui?  E o que estamos fazendo aqui?
(Todos ao mesmo tempo:  "Eu penso mas não entendo!  - Eu não sei! Não consigo! Estou desesperada!").

          JONAS  - Nós precisamos manter a calma e procurar uma explicação!  Não adianta nos desesperarmos!
          ANSELMO  (Adiantando-se em pânico)  - Mas nós temos que fazer alguma coisa!  Não podemos ficar aqui assim!  Nós temos que sair., que fazer alguma coisa!  Não podemos ficar!  Não podemos!  (Estaca e deixa escapar, logo pondo as mãos à boca:) - Minha mãe? Onde está minha mãe que não está comigo?

          (Anselmo afasta-se do grupo, seguido pelo olhar de Jonas).
LUIZA  - Eu não me lembro nada!  Estou com a cabeça girando!
ADALBERTO  - Escutem: eu creio que o primeiro passo é... é tentarmos nos lembrar como viemos parar aqui, alguém se lembra?

          LUIZA  - Não lembro nada!  Nada!
          NEIDE  - Não consigo!
          ANSELMO  - Nada! Não lembro nada!  (E nota as túnicas que todos vestem),  - E que roupas horriveis são estas?  Quem nos vestiu assim?

          LUIZA  - Isso me sufoca!
          NEIDE  - Quem nos vestiu assim? Que roupas horríveis são essas? E eu estou nua!  Só com essas roupas horríveis, mais nada!
(Os demais, com exceção de Jonas, com um gesto de pudor, demonstram também a constatação de nudez sob as túnicas) 

          ADALBERTO  - Eu acho... eu acho que nós devíamos nos dividir em grupos, e através de perguntas, tentarmos mutuamente nos ajudar!
          NEIDE  - Sim!  Nós faremos perguntas e quem sabe, alguém se lembre de algo!  Não podemos estar todos com amnésia!

          ANSELMO  (Que demonstra aos poucos, especialmente quando pressionado e com medo, sua pederastia, que tenta esconder com esforço:)  - Mas a identificação, não pode ser em grupo!  Deverá ser individual!  Porque senão, todo mundo falando, a gente se atrapalha.!
          NEIDE  - Então faríamos um interrogatório de todos nós?

          LUIZA  - Claro, quem sabe se assim? ...
          JONAS  - E quem vai ser interrogado primeiro?  (Lacônico)  - Eu proponho que seja a senhorita Neide!
          NEIDE  - Por que eu?

          JONAS  - Porque a senhorita é uma das pessoas que mais lembra coisas aqui!  Recordou-se que era solteira, como o senhor Adalberto lembrou-se que é funcionário público e o senhor Anselmo é farmacêutico!  E a senhora Luiza?  Lembra-se se é casada, ou alguma coisa assim?

          LUIZA  (esforçando-se para lembrar)  -  Casada?  Casada?  Sim... estou lembrando ... estou lembrando... Casada... Sim!  Fui casada!  Eu sou ... sou desquitada!  Isso!  Sou desquitada!
          ADAKBERTI  - Estão vendo como o método funciona?  A gente "puxa" as perguntas, e as lembranças vão aflorando aos poucos!

          NEIDE  - Como vê, senhor Jonas, não é só eu que lembro das coisas!
          JONAS  (Escondendo sua preocupação dos demais, como que pensando em voz alta)  -  Será que estamos sofrendo somente um esquecimento parcial? ...
          ADALBERTO  - Permita-me que diga que acho algo estranho no senhor, senhor Jonas!

          JONAS - Tratemo-nos por você, por favor!  Certos tratamentos são ridículos nesta hora!  Nem sabemos onde estamos, ou com quem estamos!
          ADALBERTO  - Era isso precisamente o que eu ia falar!  Numa hora de pânico e você é o único que parece ter a cabeça no lugar!  Você sabe alguma coisa?
          ANSELMO  - Isso mesmo!  O senhor sabe alguma coisa?

          JONAS  - Senhor? ...
          ANSELMO  - Está bem, está bem!  Sabe alguma coisa?
          JONAS  - É que eu sei controlar as minhas emoções.  Somente isso!
          NEIDE  (Para os demais)  - Eu acho que ele sabe alguma coisa!  Por isso estã tão calmo!  Foi o último a erguer-se e o único que não fez nada!  E também foi o último a falar!

          JONAS  - Eu às vezes gosto de ficar calado!
          NEIDE  - Mas eu acho que...
          ADALBERTO (interrompendo a discussão)  - Escutem:  eu creio que não devemos nos exasperar, discutir!  Vamos organizar o interrogatório!  Assim estaremos ganhando tempo e nos ajudando mutuamente!

          ANSELMO  - Sim, como se fosse psicanálise!  Eu me lembro, já fiz psicanálise!  Eu fiz psicanálise com op doutor... doutor?  Não lembro... mas eu fui tantas vezes lá!  Como é o nome do doutor... eu preciso lembrar...Minha cabeça está vazia, tonta!  Eu quero ser interrogado!  Façam-me perguntas!

          JONAS  - Muito bem!  Agora, quem interrogará quem?
          ANSELMO  - Eu quero ser o primeiro a ser interrogado, se vocês não se importam!
          NEIDE  - Eu também! Não aguento mais! Se isso resolver, se me fizer lembrar, eu quero ser a primeira!  Pelo amor de Deus, por que estou aqui?

          ADALBERTO  - Eu também!
          LUIZA  - Eu quero ser a primeira!
          ANSELMO  - Eu quero ser o primeiro!
          JONAS  - Tenham calma!

          ADALBERTO  - Creio que todos gostariam de ser o primeiro!  De maneira, que eu proponho que se faça um sorteio!
          JONAS  - Mas antes, temos que decidir quem fará as perguntas!
          ANSELMO  - Para mim, pode ser qualquer um.  Qualquer um! ...

          JONAS  - Então, serei eu o interrogador.  Eu farei as perguntas!
          ADALBERTO  - Bem, sendo assim... eu acho que a Neide dee ser a primeira!  Parece ser a mais abalada, no momento.  (Concordam.  Nessa altura todos já estão mais firmes, bem menos tropegos.  Continuam apavorados com a situação, sem nunca deixar de demonstrar sua aflição, com exceção de Jonas que está à vontade.  Neide está um pouco separada, aflitíssima.  Jonas, seguido pelos demais, aproxima-se, para o interrogatório).

          JONAS  - Escutem:  para ganharmos tempo, as perguntas que forem feitas à Neide, tomem-nas como se fossem feitas a todos vocês e tentem responde-las intimamente!
          ANSELMO  - Sim, mas faça as perguntas!
          JONAS  (Para Neide, que estará se esforçando para responder)  - Seu nome é Neide de que?
          NEIDE  - Eu não sei... não sei!  Se tivesse a minha bolsa com os documentos!

          JONAS  - Mas sua bolsa não está consigo! Você terá que se lembrar!  O nome de seu pai, da sua mãe?
          NEIDE  - Não sei... parecem ser...
          JONAS  - O que fazia antes?  Sua profissão?

          NEIDE  - Profissão?  Isso estou lembrando... Profissão... sala com crianças... Sim!  Estou lembrando!  Sou professora!  Isso!  Sou professora!  Agora está ficando mais claro, a escola, crianças...
          JONAS  - Neide, responda-me: você é virgem?
          NEIDE  - Mas isso não vem ao caso!  Eu...

          JONAS  - Responda!  Você é virgem? É virgem?
          NEIDE  - Está bem!  Não sou!  Não sou!  Mas isso não vem ao caso!
          JONAS  - Ridículo!  Só fiz esta pergunta para...
          NEIDE  - Está bem! Já disse que não sou!

          JONAS (Pressionando)  - Muito bem!  E quem foi o primeiro?  O nome dele, lembra-se?  Quantos foram?
          NEIDE  - Eu só tive um homem!  Só um! Seu nome era... era Carlos.  Eu lembro: Carlos...
          JONAS  - E por que ele não casou?  Ele era casado?  Vamos, responda!
          NEIDE  - Pare! Não me pergunte mais!  Eu já lembro de tudo agora!  Já lembro!

          JONAS  - Então o que aconteceu antes de vir parar aqui?
          NEIDE  - Isso eu não lembro... Não consigo...
          ANSELMO (interrompendo)  - Jonas, pare com isso! Creio que todos já nos sentimos aptos agora!  Eu também já recordo quase tudo!  Só não lembro como vim parar aqui!

          ADALBERTO  - Eu também.  É como se minha vida tivesse chegado a um ponto e parado ali!
          ANSELMO  - Mas nós tinhamos que dar um jeito de sair daqui!
          JONAS  - Por que você quer interromper os interrogatórios, Anselmo?  Tem medo de ser interrogado?

          ANSELMO  - Medo? Por que teria medo?  Eu acho ridículo nós estarmos perdendo tempo, sem fazer nada para sair daqui!
          JONAS (Sádico)  - Diga-me, Anselmo: qual foi o primeiro homem para você?  Qual foi, hein?
          ANSELMO  - Pare!  Eu acho ridículo tudo isso! (E para os demais)  - Vocês também não concordam que o melhor que temos a fazer é tentarmos sair daqui?

          ADALBERTO  - Mas como?  As paredes são compactas, não há entradas ou saídas!
          ANSELMO  - Mas nós temos ar, aqui dentro!  Por onde entra o ar?  Vamos fazer barulho, gritar, até que alguém apareça para nos dar uma explicação!  Aqui tem ar, senão, estaríamos todos mortos, nesse cubículo!
          JONAS (Sarcástico)  - Mortos!  E quem nos garante que não estejamos mortos, senhores?  E que esta não seja a nossa sepultura comum?

          NEIDE  - Não!  Nós estamos nos movendo!  Aqui tem luz!  Nós estamos vivos!  Vivos!
          JONAS  - Vivos!  Num cubículo, como ratos!
          ADALBERTO  - Está bem determinada a sua situação, aqui dentro, Jonas!  Eu estou admirando o seu senso de humor!  (Irônico e indignado).

          JONAS  - Está bem, está bem!  Então estamos vivos!  Então quem sabe se isso aqui não é o corredor da morte e se daqui não seremos levados à câmara de gás, para pagarmos assim pelos nossos crimes?
          ANSELMO  - Pare Jonas! Aqui ninguém praticou crime algum!  Eu pelo menos...

          JONAS  - Ou uma prisão perpétua?  Isso mesmo!  Uma prisão perpétua onde ficaremos encerrados até a  morte!  Ou quem sabe... quem sabe fomos aprisionados por lunáticos ou marcianos e estamos vivendo numa nave espacial?  Ou quem sabe, quem sabe... deixa  ver...
          NEIDE  - Não!  Isso é um pesadelo!  Tem que ser um pesadelo!
          JONAS  - Não vê o quanto estamos acordados?  Insiste ainda em pedadelos?

          NEIDE  - Eu não quero ver nada!  Isto é um sonho!  Um sonho!  E quando a manhã chegar, eu acordarei e darei risadas disso tudo!  E quando a manhã chegar, continuarei com minha vida, na escola, a dar aulas... eu continuarei com a minha vida!
          JONAS  - E a sua vida é tão boa assim, para que a deseje continuar?
          NEIDE  - Isso não lhe interessa!

          ADALBERTO  - Creio que devemos nos acalmar e raciocinar!  Discussões não nos levarão a nada!
          JONAS  - E parece que você não gosta muito de discutir, não é Adalberto?
          ADALBERTO  - Nunca gostei.

          JONAS  - Não será porque você é um funcionário publico?  A comodidade e uma posição tranquila na Repartição:  nunca discutir com os chefes e nunca ter rusgas ou brigas com os colegas, pois um dia, qualquer um deles poderá ser o chefe!
          ANSELMO  - Você está se excedendo, Jonas!  Se precisa nos agredir para descarregar seus nervos...

          JONAS  - E você, Anselmo, porque você é puto?
          ANSELMO  - Jonas!  O que é que você sabe?  Pare!
          JONAS  - Basta olhar para você, Anselmo!  Você é pederasta!  Basta ve-lo e aos seus gestos!
          ANSELMO  - Pare!  O que é que sabe de mim?  Não sabe nada!  Nada!
          JONAS  - Sua mãe!  Basta ouvi-lo um pouco!  Qualquer um aqui falaria de mulher, de filhos.  Você não: sua mãe!

          ANSELMO  - Você continua agredindo, Jonas, continua agredindo!
          LUIZA (Gritando)  - Por que ao invés de estarem discutindo, não procural fazer alguma coisa?  Por que não fazem elguma coisa?
          JONAS  - Fazer o que?  Derrubar as paredes com as mãos?

          ANSELMO  - Então vamos gritar! Nós temos que fazer algo!  Vamos gritar até que alguém apareça e nos diga o que é isso!  (Anselmo investe contra a parede, gritando.  Adalberto, Luiza e Neide imitam-no.  Gritam, batem, até cansarem.  Enquanto batem e gritam, Jonas ri, sadicamente.  Anselmo nota-o e investe contra ele, tentando agredi-lo, no que é impedido por Adalberto).

          ANSELMO  - Não fale mais, seu sujo, seu mórbido!  Eu estou desconfiado desse sujeito! Desde o princípio!  Ele tem algo a ver com isso tudo!
          JONAS  - Agora quem está agredindo é você...
          ANSELMO  - Agrido mesmo!  Eu também sei agredir!  Você foi o único que não ajudou em nada!

          NEIDE  - E foi o único que não falou de si, até agora!
          LUIZA  - Desconhecemos a sua identidade, o que faz.  O mesmo não acontece conosco!
          JONAS  - Eu já disse que falo pouco!  E disse também que sei controlar as minhas emoções.  E depois, eu tenho o meu ponto de vista sobre o que seja isso aqui.

          ANSELMO (Sempre contido por Adalberto)  - Sim?  E qual é?
          JONAS  - Eu julgo o que possa ser, por mim!  Apenas não tenho certeza ainda, pelas companhias que me cercam!  Talvez em pouco eu possa ter certeza.  Basta conhece-los um pouquinho melhor!

          ANSELMO  - Como assim?  Explique-se!
          JONAS (Sádico)  - Escutem:  vocês ainda não se lembram da última coisa que aconteceu antes de acordarem e se virem aqui?  Não lembram de nada?  Ainda não conseguiram?
          NEIDE  - Eu só penso nisso, mas..
          ADALBERTO  - E eu...

          ANSELMO  - E você se lembra?  Lembra?
          JONAS  - Eu já disse que preciso ter certeza!  Ainda não a tenho!
          NEIDE  - Mas até agora, você não falou o que faz, quem é; nada!
          JONAS  - Não se preocupe, que não sou Lúcifer, senhorita!

          ANSELMO  - E quem é então?
          JONAS (sarcastico)  - Quem sabe... deixa ver... Quem sabe eu seja o verdugo, o carrasco supremo e estou aqui para leva-los ao patíbulo!  Ao fim de tudo!  E nesta condição, eu proponho que nos matemos a todos!  Um por um!  Por temer o que possa vir!  Por temer a morte horrivel que talvez nos espere dentro dessas paredes!

          ANSELMO  - Pare!  Você não respondeu quem é!  Você é um louco!  Isso mesmo!  Um louco!
          JONAS  - Porque eu propus a morte de todos nós?  Por isso sou louco?  Pois sou então um louco, mas continuo pregando o suicídio em massa!  Assim, não sofreremos mais a dúvida. Assim...
          ANSELMO  - Pare, imbecil!  Quer nos enlouquecer a todos?

          JONAS  - E quem nos garante que não estejamos todos loucos, senhores?  Que isso aqui não seja um hospital para dementes? Estas túnicas nos cobrindo!... (Nesse preciso momento, como no início, pisca-pisca luminoso sobre o palco, onde todos, com exceção de Jonas, que ficará sem entender o que está ocorrendo, estarão rolando no chão, aos gritos.  Também como no início, cessando o pisca-pisca, com a iluminação tênue, os personagens, com exceção de Jonas, atordoados, perplexos, tentarão se firmar, balbuciando, angustiados.  Estão num esforço mental para lembrarem o que aconteceu.  Jonas, por isso, está aflitíssimo, separado do grupo a todos os pronunciamentos). 
 
          ADALBERTO (Trôpego, enquanto os outros gemem e balbuciam)  - O que foi que me aconteceu?  Foi horrivel!  Eu tive uma alucinação! Eu...
          NEIDE  - O que foi isso?  Que dor!  Minha cabeça parece que vai estourar!
          LUIZA  - Aquela sirene!  Aquela sirene!  Me levando, me levando!

          ANSELMO  - Minha mãe!  Eu quero a minha mãe!  Eu tenho vontade de vomitar! Me sinto mal!
          ADALBERTO  - Estranho... agora tudo está pássando!  Mas eu não entendo!  Todos nós?
          LUIZA (Ofegante)  - Escutem: raciocinemos!  Todos sentimos algo nesse momento, não?

          (Nesse momento, a luz volta a ser normal.  Clara.  Jonas, notando que os demais estão a ponto de uma conclusão, está aflito, esfregando as mãos.  A cada um que fala, mais aumenta a sua preocupação).
          NEIDE  - Foi horrivel!  Eu me senti morrendo! ...

          ADALBERTO (Com a mão sobre o peito) - A dor no peito!  Eu sofro do coração! Sou cardíaco!  Eu acho que tive... Eu acho que tive um enfarte!  Mas está passando, está passando...
          LUIZA  - Escutem-me:  quer dizer que antes de virmos parar aqui, todos sentimos, todos sofremos algo grave?  Eu me lembro: a colisão, a batida!  O carro a toda velocidade... a batida!  Depois, a sirene me levando, me levando, me levando... Mas isso aqui?

          NEIDE  - Não!  Não podemos estar todos mortos!  Se todos sofremos algo grave antes, talvez no mesmo dia, na mesma hora, sei lá, se todos sofremos algo grave antes, isso aqui deve ser... pode ser... o isolamento de um hospital!  Isso mesmo!  O isolamento de um hospital!  Fomos salvos e estamos no isolamento!  Isso mesmo!  Eu estou viva!  Olhem para mim!  Estou viva, não estou?  Digam-me:estou viva?

          (Nesse momento, apesar da aflição, Jonas está a ponto de encontrar um meio de intervir).
          ADALBERTO  - Estranho... Creio que estamos vivos.  Eu acho que todos estamos vivos, mas...
          JONAS  (intervindo violentamente)  - Pare de falar creio isso, creio aquilo, acho isso, acho aquilo!

          ADALBERTO  - Cada um fala conforme a sua educação!
          JONAS  - Mas você não precisa achar nada aqui!  Achar é frustração!  Crer é frustração!  Sejam autênticos!  Essa pode ser a nossa última hora!
          ADALBERTO  - E pensei que você não se enervasse! ...

          JONAS  - Está bem!  Creio que me perturbei um pouco.
          NEIDE  - Vamos raciocinar:  Jonas, o que aconteceu a você antes disso aqui?
          JONAS  - Nada!  Não aconteceu absolutamente nada!
          NEIDE  - Você não quer falar, Jonas!  Por que?  Não quer auxiliar em nada e acabará sendo isolado do Grupo!

          JONAS  - Grupo (rindo)!  Um grupo!  Um grupo que não sabe o que é, nem para onde vai!  Um Grupo!  (Risadas).
          LUIZA (Investindo contra a parede)  - Eu não aguento mais!
          ANSELMO  - Nem eu!  (E investe também contra a parede, batendo com os punhos.  Jonas continua rindo).

          ANSELMO  - Abram!  Abram!  Eu quero sair!  Eu quero sair!  (Ajoelha-se rente à parede de fundo, escondendo o rosto com as mãos).  - Eu quero a minha mãe!  Ela cuida de mim! Onde está minha mãe?
          NEIDE (Aproximando-se e tocando os ombros de Anselmo)  - Calma!  Eu sou sua mãe!  Eu cuido de você!  Calma!

          ANSELMO (Esquivando-se do toque de Neide, correndo para o outro lado e ajoelhando-se, de frente para a plateia)  - Não!  Eu quero a minha mãe!  Eu quero a minha mãe!  Minha mãe! (chora)
          JONAS (Correndo até Anselmo)  - Pederasta!  Pare!  Pederasta!! Puto!
          NEIDE  - Jonas!  Por favor!  (E para Anselmo, que chora baixinho, com o rosto escondido entre as mãos, ajoelhado)  - Calma!  Eu cuido de você!  Eu sou sua mãe!  Eu cuido de você! Acalme-se por favor!

          LUIZA (Gritando)  - Parem!  Parem!  (E cai em pranto, no outro lado)  (Jonas ri sadicamente.  Adalberto, no centro dos acontecimentos é tomado pelo pânico.  Repentinamente, corre, como se tentasse fugir daquilo tudo e estaca ante Anselmo e Neide.  Volta-se para o outro lado e esbarra com Jonas às risadas.  Tenta correr para o fundo e esbarra com a parede.  Volta-se então, completamente tomado pelo pânico e fora de si, deixando escapar as palavras, como um debiloide;)

          ADALBERTO  - Não pode estar me acontecendo tudo isso!  Não pode!  Eu... eu tenho uma vida tão pacata!  Como é que foi me acontecer tudo isso?  Sabem:  eu trabalho e vou para casa.  De casa para o trabalho!  Eu, meu trabalho, minha casa... Tereza!...
          JONAS  - Quem é Tereza, Adalberto?  Quem é Tereza?

          ADALBERTO  - Tereza!  Tereza!... Por que foi fazer isso comigo?  Minha mulher!  Eu sempre a tratei bem.  Tereza!  Eu a amo!  Aamo!  Lembre-se da nossa filha, Tereza!  Da nossa filha! (Risada sem nexo)  - Mas, mas eu a perdoo.  Tereza!  Perdôo sim!  Mas pense em nossa filha!  Na minha filha!  Por que me trata tão mal assim? ...(Esconde o rosto com as mãos e caindo em si, voltando-se para o fundo do palco.  Jonas vibra com aquelas revelações).

          JONAS  - O que está faltando aqui?  Temos um pederasta, uma solteirona deflorada, uma desquitada, o que mais?  O que falta aqui?
          LUIZA (Refazendo-se)  - Falta você se explicar!
          NEIDE  - Isso mesmo!  Cada vez eu acho mais que você tem algo a ver com isso tudo!

          JONAS  - Não tenho nada a ver com isso tudo, já falei!  (Cínico)  -  Ocorre que talvez  eu seja o mais conformado e aceite o que vier.  Sou mais prático, digamos, mais realista.
          NEIDE  - Se é assim, se não liga para nada, é porque a sua vida não vale nada!
          JONAS  - E a de alguém aqui, vale alguma coisa?

          LUIZA  - Ninguém pode julgar os outros por si, Jonas!
          JONAS (Para Luiza)  - E você?  Por que se desquitou e afinal por que está aqui?
          LUIZA  - Era o que eu gostaria de saber!
          JONAS  - Mas só falta você para que eu me convença o que seja isso aqui!  Você e Neide!

          LUIZA  - E o que você está pensando?
          NEIDE  - Sim.  O que?  (Nesse momento, Anselmo, que se refizera um pouco, cai de joelhos, se pondo a rezar:)
          ANSELMO  - Meu Deus do Céu, me ajuda, por favor!  Eu pequei e quero o teu perdão! Meu Deus, me ajuda... (Fica repetindo).

          NEIDE (Para Anselmo, confortando-o)  - Isso mesmo: se rezar te ajuda, reze!
          JONAS (Sarcástico)  - É só ele que reza aqui?
          ADALBERTO (Refazendo-se)  - Eu era muito religioso, mas...
          NEIDE  - Seria hipocrisia de minha parte...

          LUIZA  - Eu não rezo!  Nunca rezei!
          JONAS  - É, parece que o Deus dos nossos dias está bastante desgastado!  (Anselmo continua rezando e Jonas corre em sua direção, gritando:)  - Pare!  Pare com isso! Ninguém ouve!  Ninguém vai ouvir você!

          (Anselmo baixa a voz, mas continua rezando.  Neide permanece olhando as paredes.  Adalberto está retirado dos demais e Jonas vai para o lado oposto onde se encontra Anselmo.  Luiza, temerosa, mas sutilmente, aproxima-se e tenta entabular assunto com Jonas).
LUIZA  - Parece-me que você é o mais conformado com tudo aqui...

          JONAS  - é...  mas você não me parece totalmente desesperada.  Por que?
          LUIZA  - Não sei... eu estou desesperada, estou com medo, mas me parece não possuir mais forças para demonstra-lo!  Eu hámuito perdi o gosto pela vida, mas não queria morrer.
          JONAS  - Mas você é tão moça!  Por que perdeu o gosto pela vida?

          LUIZA  - Mas eu não queria morrer!  Não queria!
          JONAS  - Mas isso é covardia!  Tudo tem um inicio e um fim!
          LUIZA  - Eu não quero crer que isso seja o fim! Não quero!  Não me convença disso!
          JONAS  - Pois é disso que estou me convencendo: que é o fim!

          LUIZA  - Mas não tem sentido!  Cinco pessoas, estranhas, encerradas, sem poderem sair.  Quem iria querer a nossa morte?
          JONAS  - Um sofreu um enfarte, o outro um acidente!  Talvez todos tenhamos sofrido algo no mesmo dia, na mesma hora, sei lá...

          LUIZA  - Pensei que você fosse mais realista, mas sua fantasia...
          JONAS  - Eu sou realista!  Mas não encontro outra explicação!  (Nesse momento, Neide depara, pela primeira vez e antes de todos, com o telefone).
          NEIDE (Apontando)  - Um telefone!  Um telefone!

          (Instantaneamente, como se todos pensassem a mesma coisa, correm, com excessão de Jonas, cada um querendo ser o primeiro a alcançar o aparelho, lutando desesperadamente entre si.  Jonas, perturbado com esta nova situação, não tendo tomado conhecimento da presença do telefone anteriormente também, permanece mais uma vez distanciado dos demais, aflito, sem compreender.  Os outros, continuam lutando, sem que ninguém consiga discar).
     
          ADALBERTO (Gritando, durante a luta)... Esperem!  Esperem!  Eu creio que devemos fazer um sorteio para ver quem tentará primeiro!  Um sorteio!
           ANSELMO  - Isso mesmo!  Vamos fazer um sorteio! (Organizam um círculo estendendo as mãos  para frente.  Jonas está fora e todos olham-no significativamente.  Ele se volta e mecanicamente aproxima-se e o círculo se fecha novamente para o sorteio.  Uma risada curta, sádica de Jonas.  O círculo é aberto e ele está de posse do aparelho).

          ANSELMO  - Não... não!
          LUIZA  - Eu sou a segunda!
          JONAS (Pondo o aparelho ao ouvido, sem discar, sádico.  Os outros insistem)  - É...
          ANSELMO  - Vamos!  Disque!  É a nossa chance!  Como é que não vimos antes?
          NEIDE  - Vamos, Jonas!

          JONAS (Após olhar a todos, cinicamente, entregando o aparelho/fone à Luiza que o toma, sem entender)  - Tome-o, Luiza.  Eu fico por último!  (E afasta-se).
          ADALBERTO (Que dirige-se a Jonas, sem receber resposta)  - Por que, Jonas?  Por que você quer ser o último?

          ANSELMO (Para Luiza)  - Vamos, Luiza!  Disque!  Chame a quem você quer chamar!
          LUIZA (Titubeando, olha a todos.  Volta-se e inicia a discar:)  - Eu vou falar com meu filho!
          (Após discar, aguarda o sinal com o fone ao ouvido.  Não há atendimento à chamada.  Luiza vai tentar novamente, mas o aparelho lhe é arrancado das mãos por Anselmo).
       
          LUIZA  - Eu vou tentar novamente!...
          ANSELMO  - Não mesmo!  Só pode ser uma tentativa de cada vez!  A minha, não vai falhar!
          (Anselmo disca e aguarda, ansioso:)  - Mãe... minha mãezinha... Chama, chama, mas ninguém atende!
          JONAS (Sorridente-cínico)  -  Adalberto, é a sua vez!

          ADALBERTO  - Jonas, você tentará antes de mim!  Quero ver a quem você chamará!
          JONAS  - Eu não telefonarei, porque sei que ninguém atenderá!
          ANSELMO  - O que é que você sabe?  Como é que você sabe?  Os números podem estar ocupados!

          JONAS  - Pois disquem qualquer número que lhes venha à cabeça!  Veremos se atendem!
          ANSELMO  - Isso mesmo!  Vamos fazer isto!  (E começa a discar).
          ADALBERTO  - Mas eu ainda não falei!
          ANSELMO  - Ninguém falou!  Ninguém falou!  Deve ter defeito!  Deve ter defeito! Chama, chama e ninguém atende!

          (Neide, Adalberto e Anselmo, ficam tentando com o telefone.  Luiza aproxima-se de Jonas que aparenta tranquilidade agora, sorridente).
          LUIZA  - Por que você não tentou?  Tinha tanta certeza que não atenderiam?
          JONAS  - Eu vi logo, que não adiantaria!  Se houvessem meios de nos comunicar com o exterior, não haveria razão para essas paredes aqui!

          LUIZA  - Mas qual seria a razão desse telefone aqui?  Na sua fantasia, um Deus sádico estaria nos torturando, prendendo, tendo em nossas mãos um telefone que não funciona?  Cinco pessoas, mortalmente feridas, torturadas até o último suspiro.  É o que pensa?
          JONAS  - Eu não sei, eu não sei!  Mas se o telefone funcionasse, nós não estaríamos aqui!

          LUIZA  - Você nunca deixa de ser realista?
          JONAS  - Nunca!  A vida é real enquanto existe e precisamos encara-la como é!
          LUIZA (Agora abatida, em reflexão ante as palavras de Jonas)  - Eu queria falar com meu filho, pedir-lhe perdão...

          JONAS  - Perdão? ...
          LUIZA (Tomada pelo nervosismo, desabafando)  - Eu não queria... Eu o abandonei como um boneco, como um lixo!  Eu... eu nunca mais fui ver meu filho!  A saudade que eu sinto dele agora!  A saudade!
          JONAS  - E onde está seu filho, Luiza? Onde está?

          LUIZA (Continuando)  - Interno, no Colégio.  Eu o abandonei lá e nunca mais fui vê-lo!  Eu queria lhe pedir perdão!
          JONAS  - Fale Luiza!  Vamos, fale!

          LUIZA  - Eu não queria que fosse assim.  Meu marido... tudo estava bem.  Meu filho já tinha seis anos.  Um dia, meu marido teve, derrame.  Ficou... ficou inválido e cego!  No princípio eu ainda agradeci por ele estar vivo! Mas eu era moça, jovem!  Internei o garoto no Colégio e... e traia meu marido na mesma sala onde ele estava e não podia me ver!  Eu o traia!  Um dia, ele chamou um advogado amigo dele e tratou do desquite.

 Disse que seria melhor para mim... Uns tempos depois me chamaram.  Ele estava morrendo!  Morreu dizendo que sabia de tudo mas que me perdoava... mas que eu devia buscar o garoto  porque ele precisava de uma mãe!  E eu pensava que ele não soubesse!  Mas não busquei o menino!  Ele me atrapalharia, eu não podia!  Eu sou uma puta!  Uma puta sem alma, sem nada!  Eu sou uma puta!  Eu queria falar com meu filho!

          JONAS (Pegando-a pelos ombros, sacudindo-a da sua histeria)  - Você precisa entender que não conseguirá falar com ele!  Precisa saber disso!  E nem Anselmo falará com sua mãe!
          LUIZA (Se desvencilhando, correndo para o fundo do palco)  - Eu não quero me convencer que isso seja o fim!  Não quero!

          ANSELMO (Desistindo, largando o telefone)  - Não adianta!  Não adianta!
          ADALBERTO  - Mas qual seria a razão desse telefone aqui?

          NEIDE (Desistindo, entrando em pânico)  - Eu tinha tantas coisas a dizer a minha irmã! Eu tinha tantas coisas a dizer a ela!  Sabem?  Quando nossos pais morreram, eu cuidei dela!  Eu era a mais velha!  Cuidei sempre!... Até demais!  Eu fui má.  Eu queria falar com ela, dizer-lhe que pode fazer o que quiser, que pode ter os homens que quiser, que pode até casar-se, que eu não me importo! Eu sempre a impedi!  Bastava que algum homem ue alguem se aproximasse dela, para que eu fizesse tudo, para separá-los!

 Eu era mais velha, feia... e eu não queria  ficar sozinha!  Se ela se fosse, eu ficaria só!  E eu não podia permitir!  Não podia permitir!  Mas eu... eu um dia me entreguei a um homem! E... neguei-lhe isso a vida inteira!  Neguei-lhe o único direito que uma mulher  pode ter na vida: entregar-se a quem queira!  Eu a manti virgem!  Virgem! E ela... agora... me odeia!  Eu... agora ela também está velha, feia... e... Agora é tarde!

          JONAS  - Está bem, está bem!  Todos já ouvimos nossas queixas aqui!  Agora chega!
          ADALBERTO  - Só não ouvimos as suasqueixas!
          JONAS  - Eu não sou de me queixar!
       ANSELMO  - Mas nós temos que ouvi-lo! Temos que saber quem é você!  Como podemos confiar em você, se não o conhecemos?

          JONAS  - Não me interessam as suas dúvidas!  E depois, nós somos todos estranhos!
          LUIZA  - Não somos mais tão estranhos!  Temos muita coisa em comum!  Estas roupas, esta prisão!  Não somos mais tão estranhos!

          JONAS  - Ninguém tem nada em comum com ninguém!  Somos estranhos!  Se tivéssemos que matar qualquer um aqui dentro para sobrevivermos, nós matariamos!  Somos estranhos, como todos, lá fora dessas paredes!  Nesse momento, milhares de pessoas estão sendo mortas em guerras, queimadas a Napalm e nunca se viram antes!  Entretanto, se odeiam ao ponto de se matarem absurdamente.

          NEIDE  - Mas...
          JONAS  - Você, Neide, se entregou a um estranho!  Onde ele foi depois de possui-la as vezes que quis?  E não és por acaso, uma estranha para tua irmã?  E você, Adalberto?  Não foi com um estranho que a sua mulher o traiu?  Um funcionário publico!

 Um nome num livro de ponto, todas as manhãs!  Uma coisa que vegeta, que corre para pegar condução e que precisa comer, para ficar em pé!  Uma mulher quer mais do que um funcionário público!  Mentalidade de Repartição:  discussão diária sobre aumentos, descontos, abonops, futebol e falar da vida alheia!  Uma mulher quer mais do que uma vida pacata!

          ANSELMO  - Parfe de nos agredir!  Você não tem o direito!
          JONAS (Apontando para Anselmo)  - Por que?  Por acaso não foi com um estranho que você dormiu a primeira vez?  E você, Luiza?  Não foi com um estranho?
          NEIDE  - Pare!  Pare!

          JONAS  - E isso será sempre assim!  Nunca nos interessa nada, a não ser nós mesmos!  E é assim que tem que ser!
          ADALBERTO  - Não!  Não pode ser assim.  E depois, as pessoas unidas podem...
          JONAS  - Você não pensou em si e é corno!

          ADALBERTO  - O que me aconteceu, poderia acontecer a qualquer um aqui!  E depois, depois eu sou homem bom!  Eu a perdoei... Eu sou homem bom!
          JONAS  - Não há perdão!  Não há lugar para bons!  Tudo é podre!
          ANSELMO  - Deus me ajude!  E a você principalmente, Jonas.  Que Ele te perdoe!

          JONAS  - E você é puto!  Você tem que rezar é para Deus dos putos!  Vê se ele existe!
          ANSELMO  - Mãe!  Minha mãe! ...
    JONAS (Contendo-se, porém sarcástico)  - Escutem:  vocês estão desesperados, não é? Desesperados com a possibilidade de terem que morrer aqui, não é?  Mas por que?  O que vocês querem vivos?  Para que?  Olhem suas vidas e vejam se elas valem a pena!  Façam isso: será mais fácil!

          ADALBERTO  - Voc|ê continua não auxiliando em nada!
          JONAS  - E quem me auxilia?  Quem me auxiliou um dia que fosse?
          NEIDE  - Vamos parar de discutir!  Nós temos que raciocinar!  Temos que pensar!  Enquanto há vida, há esperança!

          JONAS  - Vida!  Nós já nascemos mortos! Nós sempre fomos mortos!
          LUIZA  - Você não tem o direito de impor sua maneira de pensar aos outros!  Se você é recalcado e covarde, não tem o direito de querer que todos o sejam!

          JONAS  - Direitos!  O homem nunca teve direitos!  Nunca!  Nem direitoà própria vida!  Nós nascemos de um momento de prazer dos nossos pais.  Somos feitos numa cama, às mordidas, beijos, gritos de prazer, masoquismo sexual, volúpia!  Depois, sem pedirmos, somos jogados às feras!  Então, lutamos desesperadamente para sobreviver naquela maldita selva, onde leis, decretos, convenções, não nos permitem ser o que desejamos:  livres!  E lutamos para sobreviver! E para que? E então, todos nos vendemos por algum preço!  Todos nos prostituimos por algum preço, no grande bordel!  Até o fim!

          NEIDE  - Mas não pode ser assim! A vida tem que ter algum sentido!
          JONAS  - O único sentido que tem é a morte!  Os bons morrem e os ruins morrem!  Os frustrados morrem!  Os realizados morrem!  Como se houvesse quem se realizasse nessa terra!
(Jonas é tomado por riso nervoso, de satisfação)  - Eu sempre quis dizer isso e nunca tive oportunidade!  Hoje eu pude!  Hoje eu pude falar!  (Risada).  (Os outros se abatem com suas palavras, não encontrando meios para contesta-lo).

          ADALBERTO  - É...
          NEIDE  - Quem sabe se... ele...
          ANSELMO (Olha para Jonas, para os outros, para o telefone, e tenta reavivar as esperanças:)  - Não! Não desistam!  Por favor, não desistam  (E para Jonas)  - Já que você é tão inteligente, porque  não explica a razão deste telefone aqui?  Eu continuo achando que através dele, um de nós, ou todos nós, seremos chamados e salvos!

          JONAS  - E será você!  Por sua mamã! Ridículo!  Então o telefone seria o veiculo de ligação entre a nossa vida e nossa morte? Você me diverte!  (Os demais se interessam pelo raciocinio de Anselmo)
          LUIZA (Para Anselmo)  - Quem sabe se você não tem razão?  Quem sabe?
          NEIDE  - Sim.  Tem que haver uma explicação para a presença deste telefone aqui?

          JONAS  - Não há nenhuma!
          NEIDE  - E se ele tocasse?  Você não atenderia?
          JONAS  - Ele não vai chamar!
          NEIDE  - Como é que você sabe?  O que você sabe afinal, Jonas?
          (Jonas ri.  Os outros cercam- no, irritados, angustiados).

          NEIDE  - O que é que você sabe?  Fale!
          ANSELMO  - Seu sujo!  Fale!
          ADALBERTO (Adiantando-se em sua direção)  - Lamento muito, mas creio que teremos que
          obriga-lo a falar de qualquer maneira! O que você sabe disso tudo?  Fale!

          JONAS  - O telefone não vai chamar!  Não adianta me forçarem a nada!  Ele não chamará!  E
          se chamar...
          ANSELMO  - Se chamar? ...
          JONAS  - Eu respondo à sua pergunta, senhorita Neide!  Eu não atenderia Eu não quero atender, porque simplesmente não me interessam as chances que eu possa ter!  Agora, de uma coisa estou certo: nós estamos perdidos!  Isso eu sei!

          ADALBERTO (Agredindo-o)  - Explique-se!
          ANSELMO (Também agredindo-o)  - Vamos, fale!  Fale, seu sujo!  Fale!  (Jonas, com a agressão, é forçado quase a tombar na outra extremidade.  Num grande esforço, consegue empurrar Anselmo e Adalberto, se desvencilhando.  Raivoso, cínico, fitando a todos nos olhos, enfrenta-os afrontando-os, depois com impressionante calma). 

          JONAS  - Muito bem, senhores.  Muito bem!  Não creio que seja necessário instigar os seus instintos animais de violência e também não valeria a pena o desgaste de energia  sendo agredido.  Creio que chegou a hora de falar-lhes, já que insistem.  Só espero que não me venham tecer críticas depois. (Pausa)  - Eu já lhes disse que sou realista e prático, não?

  Pois bem, vocês querem saber como é que eu vim parar aqui, e porque, digamos, eu me sinto tão mais à vontade!  E como não me sentiria à vontade?  Como poderia deixar de ser realista?  Perdão, senhores, mas de todos nós, eu sou o único que aqui estou pela minha própria vontade!  Eu sou um suicida!  (Grita). (Os demais, ante a revelação, que é a das suas próprias situações, apresentam o horror e a desesperança estampadas na face).

          NEIDE  - Suicida?  Então é isso?  Então é isso!...
          ADALBERTO  - Não...
          LUIZA  - Não pode, não pode!...
          ANSELMO  - Mãe!  Mãe...

          JONAS (Vingado, sádico, deleitando-se com suas próprias palavras)  - Como é?  Ninguém fala nada?  Ninguém pergunta nada?  Pois eu continuarei:  não sei perfeitamente o que quer que seja isso aqui, mas eu lembrei logo o que aconteceu antes de acordar e me ver aqui.  Eu recordei-me, porque quis realmente me lembrar.  Porque eu não temia a verdade como vocês.  E lembrei-me logo que fui levado às pressas para o hospital.

 Lembrei-me também, o quanto esperei por aquele momento, o momento da minha fuga total à tudo que abominava e desprezava!  Mas por ironia, pareceu-me quase, que não havia chegado a minha hora!  Eu quero a morte, mas estou vivo ainda!  Mas aqui, com a presença de todos vocês, entendi que ainda tenho a morte em minhas mãos!  Basta eu querer e logo...

          ANSELMO  - Você está nos torturando!  E nós?
          JONAS  - Vocês, eu, devemos estar nesse momento, nos últimos extertores!  Todos à beira da
morte!  (Preocupa-se)  - Mas a Ciência, a Medicina, anda a passos largos e eu temo que algum de nós seja salvo.  E se isso ocorresse! ...
          ANSELMO  - Se isso ocorresse?... Então você também admite que possamos ter chances, não
é?  Admite?

          JONAS  - Não!  Dou-lhes a minha certeza de que ninguém conseguirá nos salvar! Por mais que
lutem em nossos corpos, remontando nossas células e entranhas.  Ninguém conseguirá nos salvar, porque é impossível que depois de tudo, ainda queiramos continuar vivendo!  Não podemos mentir a
nós mesmos!  E quando a mente cessa de querer, tudo cessa!

          ANSELMO  - Não, não... Eu vou continuar vivendo!  Eu vou... e depois se tivermos chances,
podemos recomeçar tudo de novo!  Podemos recomeçar e...
          JONAS  - Nada recomeça!  Você continuaria a ser o mesmo:  pederasta, complexado, sem
poder se afastar da sua mãe!  Você continuaria o mesmo, como Adalberto seria o mesmo corno manso de sempre!  Todos nós seríamos os mesmos de antes, e para que?

          ADALBERTO  - Sim?  Mas de todos nós, de todos nós, seu sujo, você é o mais covarde  e
vil!  Todos nós queremos continuar, você não!  Você tentou o suicídio!  Covarde!
          JONAS  - Covardia é viver sem sentido algum!  Nesta vida, o suicídio é um ato de bravura!  Eu já lhes falei de estranhos, não?  Pois eu era só!  Sempre fui só!  Filho único do abastado casal!  Quando precisava me comunicar, meu pai me alcançava dinheiro.  Mas não era dinheiro o que eu queria!

Quando ingressei no Exército, ele queria que eu seguisse carreira Militar!  O simbolo da autoridade universal numa farda!  A autoridade que ele só conseguia com o seu dinheiro, queria que eu tivesse numa farda que ele não pôde vestir!  O respeito, o domínio, a vida de milhares às vezes, numa cabeça coberta com um quepi, sobre um corpo recalcado, imbecil, paranoico, fantasiado com uma farda!  E não seria eu a vesti-la também!  Eu que renego a autoridade no mundo porque é podre!  Eu que renego a autoridade da vida sobre a minha própria vida!

          ANSELMO  - Pare, Jonas!  Afora disso tudo, é a nossa vez de dizermos que estamos fartos das
suas queixas!
          JONAS  - Agora eu quero falar!  (Pausa)  - Depois fui ao vício, às drogas. Experimentei tudo,
mas nada deu resultado!  Em casa, junto aos parentes, era considerado um gênio!  O jovem mais ilustrado e de mais cultura da paróquia!

  O mais lido!  De tanto ler, meus olhos doíam até quando eu dormia!  Mas eu não queria cultura, eu queria saber por que?  Eu queria me encontrar!  (Pausa, deprimido)  - Porque eu fui ler tantos livros na minha vida? Porque eu fui fazer isso?  Eu queria me realizar, mas em quê?  Para que?  Qual o sentido de tudo?

          NEIDE  - Jonas, pare!  Por favor! Não mate as nossas esperanças assim!  Você não tem o direito!  Nós nunca lhe fizemos nada!
           ANSELMO  - Sim... e eu não vou me impressionar com isso... eu... eu vou continuar vivendo e vou... viver e...

          JONAS (Sacudindo Anselmo pelos ombros)  - Diga-me Anselmo, diga-me se todo o homem,
intimamente não sofre de solidão?  Diga-me se o maior problema não é a solidão? Diga-ma, o que você faria, se vivesse e sua mãe morresse antes de você?  O que faria da sua vida, Anselmo?

          ANSELMO (Desvencilhando-se e prostrando-se rente à parede, de joelhos)  - Não! A minha
mãe não! A minha mãe, não!  (Os demais, com as últimas palavras de Jonas, chegam ao abatimento final.  Não têm mais argumentos para contestar.  Lentamente, balbuciantes, vão se prostrando ao chão).

          LUIZA  - E se meu filho morresse?
          NEIDE  - E minha irmã?  Se ela...
          ADALBERTO  - Tereza...

          JONAS (Com desprezo, com ódio)  - E mesmo assim, todos nós, porcos sujos, se nos fosse
dada uma oportunidade para que seguíssemos na sujeira das nossas vidas, a agarraríamos com todas
as forças!  E então, lá fora dessas paredes, continuaríamos a ser o que somos:  porcos!  Num chiqueiro imenso, coberto por um imenso céu estrelado e azul!  Com nossos instintos suínos, com a nossa vontade suína de viver!  Não é assim?  E para que?  Por que?

(Nesse momento a iluminação deve, novamente, ser enfraquecida, com uso somente da luz negra se for esta a opção.  Os demais estão prostrados, abatidos, apenas balbuciando palavras agora inaudíveis quase.  Jonas está quieto, desabafado.  De pé, observa os demais.  Mas logo, soa o telefone.  Não parecem acreditar.  Soa novamente, estridentemente, continua soando.  

Jonas, incrédulo, corre em direção ao telefone, colocando-se à sua frente, para não permitir que os outros atendam a chamada.  Os outros, ao mesmo tempo, vão se erguendo.  Os seus movimentos, nessa hora, devem ser em câmara lenta, dando um sentido de eternidade no ato.  Devem demonstrar, mesmo na câmara lenta, que estão lutando entre si, cada um querendo chegar ao aparelho em primeiro lugar.  Jonas olha a tudo, ansioso.  

Com gestos, faz sinais para que não se aproximem, que não atendam a chamada.  Mas eles vão se aproximando, lentamente, em bloco, com os braços estendidos em direção ao telefone que continua soando.  Jonas, aflito, olha a todos ansioso.  Agora estão bem próximos.  Jonas afasta-se para o lado). 

          JONAS  - Não, não!

(Os demais estão quase alcançando o aparelho.  Mas repentinamente, encaram-se, fitando-se uns nos olhos dos outros, encarando-se a num gesto mecânico, deixam, vagarosamente, cair os braços, desistindo de atender o telefone.  Jonas, num prazer imenso, ao notar a desistência cai em posição fetal, apertando as mãos entre as pernas.  Os demais, cabisbaixos e com os braços caídos ficam imóveis.  O telefone continua soando. Soando... Soando...)
Peça teatral

   
                     
F I M

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