LEMBRANÇAS


Guilherme e Carlos Köhn

          Cada um de nós, somos uma espécie de máquina do tempo.  Essa máquina do tempo, é a nossa memória.  Pode ser também as estórias que nos contam, dos nossos antepassados.  Pode ser também, aquelas fotos antigas, que nos trazem recordações.  Fotos, às vezes nos fazem sorrir ou chorar, pelas recordações que nos trazem. Memórias, estórias ou fotos, são muito importantes.  É por isso que eu escrevo estas prosas.  Eu gosto muito de fotografias, porque elas têm o poder de paralisar o tempo no momento fotografado.


          A foto que ilustra esta trabalho, retrata meus antepassados, Guilherme e Carlos Köhn e nota-se pelas roupas usadas antigamente.  Eu já contei muitas estórias, mas agora, vou transcrever uma estória contada por outra pessoa.  Trata-se de uma senhora chamada Adélia Luíza de Freitas, nascida em 13 de dezembro de 1935, na cidade de Divinópolis-MG.  Poetisa, professora, escreve em prosa e verso, com vários trabalhos já publicados em livros.    
                                                                                                                                                                                 O nome desta senhora, pode ser pesquisado no Google, para maiores informações. Admiro o trabalho dessa mulher, e por isso vou reproduzir um texto que ela escreveu, intitulado "Memórias & Amores".  Ela conta sua própria estória, a qual tem muita coisa em comum com nossas próprias estórias.  É um texto para nossa apreciação, satisfação e admiração. 

MEMÓRIAS & AMORES

          Quando eu era pequena, não entendia o choro da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro.  O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis.  Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. 

          O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.  É que a memória é contrária ao tempo.  Enquanto o tempo leva a vida embora como o vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos.  Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente.  Para elas, um filme é só um filme;  uma melodia, só uma melodia.  Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade. 

          Diante do tempo, envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte.  Porém, para a memória, ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis.  Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.  Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente.  Quando nos damos conta, nossos baús secretos - porque a memória é dada a segredos - estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo. 

          A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira.  Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você - foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de algum momento triste - e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações;  alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, aquela época. 

          Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente.  É comum ver amigos da juventude se encontrando depois de anos - já adultos ou até idosos - e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos.  Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos.  Descobrimos que o tempo não passa na memória.  Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos... mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas. 

          A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais.  Nem eles percebem que crescemos.  Seremos sempre "as crianças", não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos.  Pra eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite... ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou. 

          Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas.  Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim.  Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor.

          Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando.  Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos;  somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.  Do mesmo modo, somos memórias vivas de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos.  E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.  (Adélia Prado).

FINALIZANDO:

          Para fechar com chave de ouro este trabalho escrito, Cecília Meireles nos brinda com estas palavras, que complementam a prosa da Adélia (que me desculpe a informalidade):

          De que são feitos os dias?
          - De pequenos desejos, 
          vagarosas saudades, 
          silenciosas lembranças.

          De loucuras, de crimes, 
          de pecados, de glórias
          - do medo que encadeia
          Todas essas mudanças.

          Entre mágoas sombrias, 
          momentâneos lampejos;
          vagas felicidades
          Inatuais esperanças. 

          Dentro deles vivemos,
          dentro deles choramos, 
          em duros desenlaces
          e em sinistras alianças...

Vídeo: "MINHAS LEMBRANÇAS:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UM INSTANTE NO TEMPO

A ESTÓRIA DE JOÃO 316

NOSSA MÃE-TERRA