FLOR DA MATA II

Este, é o Segundo Ato da peça teatral "Flor da Mata", para a qual já fizemos uma apresentação no preâmbulo do primeiro ato. O primeiro ato, foi direcionado mais para o gênero da comédia. Agora, a parte dramática se intensifica neste Segundo Ato, alcançando o seu clímax numa estória comovente de paixões. Mas, não deixa de apresentar também um pouco de alegria e bom humor, na comicidade já iniciada pelos personagens que se apresentaram no 1º Ato.
Para melhor compreensão e deleite das alegres artes cênicas desta obra, é mister acompanhá-la desde o princípio, ou seja desde o primeiro ato.
SEGUNDO ATO
(O mesmo cenário do Primeiro Ato. - Ao abrir das cortinas, o baile continua animado, ouve-se a voz de Malaquias marcando a quadrilha)
CENA I
Mário, Felício e o Desconhecido
MALAQUIAS - Anarriê... Chegue dama... Anavantê... Tout... (ouve-se o galo cantar. O desconhecido dorme aos pés da Cruz. Entra Mário e felício)
MÁRIO - Toma sentido no que te vou dizer quando eu te perguntar tu afirmas tudo que eu disser. Dizes que me viste saltar o muro que dá para o pasto mas que não sabias o que eu lá tinha ido fazer. compreende?
FELÍCIO - Compreendi sim sinhô... só digo que o sinhô saltou o muro prá í no pasto.
MÁRIO - Saltei o muro do lado do pasto.
FELÍCIO - E se preguntá o que o sinhô foi fazê no pasto?
MÁRIO - Tu dizes que não sabia.
FELÍCIO - Sim sinhô. Depois o sinhô me dá os déis mango?
MÁRIO - Sim, mas não vá fazer asneiras. Tomaste nota?
FELÍCIO - Pode sê inté memo em moedinha.
MÁRIO - Não é isso, burro. Se tomaste nota do que eu te disse!
FELÍCIO - Ah, sim sinhô... tudo direitinho... saltou a cerca do pasto...
MÁRIO - Não é cerca, é muro, seu besta!
FELÍCIO - Ah, a besta saltou o muro?
MÁRIO - Eu é que saltei o muro.
FELÍCIO - Ah, agora entendi tudo.
MÁRIO - Bem, então não esquece, depois te darei o prometido.
FELÍCIO - Déis real. Vou dançá uma porca com a Bonifácia. Oh, neguinho prá catingá, mais não fais mar, prá quem ama catinga, é chero. (sai)
MÁRIO - É esta a minha cartada, todos acreditarão no que eu disser. Arthur perante a minha atitude não a quererá mais... Depois ela será minha... isto será amor? O caso é que sinto hoje por essa criatura o que nunca senti por outra... e se ela não me ama? Oh, dúvida terrível... Casar com outro... oh, não... descerei a tudo, às maiores infâmias até. E ela é pura... nunca o meu beijo a maculou... É infâmia o que vou praticar, mas o que fazer? (o desconhecido acorda). - O mudo? Ainda aqui? (faz gesto para que ele se retire). - Vá embora... vamos... (vai para a sala de baile).
DESCONHECIDO - O mudo... Não sou mudo... sou o desconhecido. (entram Malaquias e Bonifácia).
CENA II
Malaquias e Bonifácia
MALAQUIAS - Tu sabe que eu te gosto... por que é que tu não te arresorve a vim morá comigo?
BONIFÁCIA - Eu não, seu Malaquias... o sinhô não gosta de mim. Eu sei ue tudo isso é fita.
MALAQUIAS - Não diz isso, Bonifácia, se tu soubesse quantas noite eu tenho passado em craro..
BONIFÁCIA - Por que? Não tem sono?
MALAQUIAS - Só pensando no teu amô.
BONIFÁCIA - Eu não acredito, tá?
MALAQUIAS - Pode acreditá
BONIFÁCIA - Os home são tudo farço. Não é o primeiro que me diz isso. O Felício também me diz a mesma coisa.
MALAQUIAS - Quem? O Felício... esse negro é a minha diferença. Vou lhe dar uma surra de facão. Disse.
BONIFÁCIA - Por que, seu Malaquias?
MALAQUIAS - Eu, um sordado respeitado por todas as patente inferiô, tê como rivá Felicio. Isso é prá um home virá um chapéu véio... Bonifácia escói entre mim e ele, o meu amô é maió que tudo, por ti eu farei as coisa mais difice do mundo. Eu te amo como Julieu amô Rometa.
BONIFÁCIA - Oh, seu Malaquias, não diga nada, quem sou eu prá me compará com Rometa?
MALAQUIAS - Só há uma diferença, mulata. Ela era branca e tu é preta como ébano.
BONIFÁCIA - E o Julieu, seu Malaquias?
MALAQUIAS - Ah, esse era escuro assim como eu, queimadinho do sór... Era muro em Veniza, uma cidade da Turquia... Era também sordado da polícia.
BONIFÁCIA - Eu já dei o sim ao Felício. Só o sinhô falando com ele.
MALAQUIAS - Falo, e se ele não concordá dou-lhe uma surra de facão. Disse.
BONIFÁCIA - Ih, ele vai senti muito... ele já quis se matá por minha causa. Tomou uma garrafa de espirto.
MALAQUIAS - Ele bebeu uma garrafa de espirto?
BONIFÁCIA - Sim sinhô, pro minha causa.
MALAQUIAS - Não era espirto Bonifácia.
BONIFÁCIA - O que era então?
MALAQUIAS - Era cachaça... aquele moleque bebe que nem gambá... Pro falá em gambá... Morena me dá um beijo nesses lábios suculentos e belos... onde desabrocha o sumo da volúpia..
BONIFÁCIA - O que é isso seu Malaquias? Eu só beijo quando casá.
MALAQUIAS - Tu me dá um beijo, depois nós casamo. Tu parece até que nunca foi ao cinema.
BONIFÁCIA - Uai, o que tem o cinema com o beijo?
MALAQUIAS - Tem muito... o cinema é prá ensiná as pessoa obitusa que nem tu, a se bejá. Tu nunca viu os artista se bejá?
BONIFÁCIA - Já vi.
MALAQUIAS - Então, Bonifácio, vamo dá um beijo à moda do cinema.
BONIFÁCIA - Eu não (vendo o desconhecido) - Credo, que susto.
MALAQUIAS - De que, morena?
BONIFÁCIA - Esse homem...
MALAQUIAS - Ah, não tenha arreceio... é mudo e surdo.
BONIFÁCIA - É mudo? Não fala nada?
MALAQUIAS - Fala pouco, qué vê? (ao desconhecido) - Então, tá gostando da festa? Ah, bom... Isso sim. Não, não há nada... pode ficá aí. Ninguém lhe fais má. Pode ficá à minha orde... (a Bonifácia). - Viu como ele fala comigo?
BONIFÁCIA - Uai, eu não ouvi ele dizê nada...
MALAQUIAS - Ah, prá falá com mudo é preciso estudá fonética.
BONIFÁCIA - Estudá o que?
MALAQUIAS - Fonética, é uma linguagem misturada de chinez com alemão. Disse. Bonifácia, vamos dar um passeio por debaixo das árvore frondosa?
BONIFÁCIA - Não sinhô, eu vou é dançá.
BONIFÁCIA - Não sinhô, eu vou é dançá.
MALAQUIAS - Então tu troca um passeio ao luá por uma dança insípida?
BONIFÁCIA - Eu não vou dançá insipida, eu não sei dançá isso. Vou dançá porca, mazuca e chote.
MALAQUIAS - Oh, Bonifácia, tu não sabe o que é insipida...
BONIFÁCIA - Ah, o sinhô tá falando ingreis e eu não entendo nada. (sai)
MALAQUIAS - Vem cá, eu te exprico... foi-se. Essa negrinha! Inda faiz com eu seja rebaixado. (entra Paschoal) - Intaliano, tu já amou alguma veis?
BONIFÁCIA - Eu não vou dançá insipida, eu não sei dançá isso. Vou dançá porca, mazuca e chote.
MALAQUIAS - Oh, Bonifácia, tu não sabe o que é insipida...
BONIFÁCIA - Ah, o sinhô tá falando ingreis e eu não entendo nada. (sai)
MALAQUIAS - Vem cá, eu te exprico... foi-se. Essa negrinha! Inda faiz com eu seja rebaixado. (entra Paschoal) - Intaliano, tu já amou alguma veis?
CENA III
Os mesmos, depois Paschoal
PASCHOAL - Ma, Malaquia, tu tem cada pergunta que me deixa dá risada... até me deixa ficá besta... quem foi que não amou na vida? Tuto ama... Inté os peixinho se deixa amá. Ah, esta vida é um buraco.
MALAQUIAS - Eu tô dentro dele. - E eu tô no buraco Paschoal.
PASCHOAL - Tá nos buraco? Onde está o buraco? Io não vejo.
MALAQUIAS - No buraco do amô...
PASCHOAL - Intão, não te deixa ficá lá.
MALAQUIAS - Tô burramente apaixonado... por ela eu farei tudo... Sou capaz de virá... murcego, de me matá... vamo tomá uma cachaça?
PASCHOAL - Isso sim. Isso é que mata as paixão. (vão à mesa onde estão umas garrafas e bebem. Manoel português entra pela direita)
CENA IV
Os mesmos e Manoel
MANOEL - Ora bebão... antão estão a matar o bicho?
MALAQUIAS - Purtugueis, tu sabe o que é um home apaixonado?
MANOEL - Ora, pois, pois, eu sei. Um homem apaixonado é pior do que uma besta assanhada; dá coice prá tudo quanto é lado. Eu já tive uma paixonite que ia me dando cabo. É o que lhe digo.
MALAQUIAS - Eu amo, purtugueis...
PASCHOAL - Ama, a quem?
MANOEL - Uma mulher?
MALAQUIAS - Um anjo, divina, angelicá.,..
MANOEL - Estás a brincar...
MALAQUIAS - Tô falando sério.
MANOEL - Mas quem é?
MALAQUIAS - É segredo...
PASCHOAL - Vamo deixá o amô e vamo deixá tocá prá os pessoá dançá...
MALAQUIAS - Eu tô nervoso, tô com medo de mim mesmo. Se eu pego o negrinho eu meto o facão nele. Eu faço ele virá pó de sapato.
PASCHOAL - Não se vá fazer arrelia, tem juizo, Malaquia...
MALAQUIAS - Eu, rivá do Felicio... um moleque vagabundo... Não, eu hoje, brigo, brigo...
MANOEL - Eu só peço que não me quebrem a guitarra.
PASCHOAL - Se se deixa brigá avise antes, prá eu fugir com a sanfona.
MALAQUIAS - Eu hoje viro Lucifér, o baile vai sê suspenso a facão.
MANOEL - Acalme-se comandante, esta vida é assim mesmo.
PASCHOAL - Ma, brigá prá quê, capitão...
MALAQUIAS - Bem, visto vocês me pedirem tanto, vou deixá de briga prá depois. Qué sabê de uma coisa, vamo bebê uma cachaça.
MANOEL - Isso! Viva a alegria. (entram no baile. Entram em cena Mário e Belinha)
MANOEL - Acalme-se comandante, esta vida é assim mesmo.
PASCHOAL - Ma, brigá prá quê, capitão...
MALAQUIAS - Bem, visto vocês me pedirem tanto, vou deixá de briga prá depois. Qué sabê de uma coisa, vamo bebê uma cachaça.
MANOEL - Isso! Viva a alegria. (entram no baile. Entram em cena Mário e Belinha)

CENA V
Mário e Belinha, depois Arthur
MÁRIO - Sabe, Belinha, que lhe noto uma grande diferença; posso dizer mesmo que se esquiva de mim, não sei o que lhe fiz para que me trate desse modo.
BELINHA - Engano seu. Seu Mário, depois há entre nós uma grande diferença de posição. O senhor é filho do meu patrão, é rico e eu uma pobre órfã, sem ninguém por mim, só me resta no mundo a minha avózinha.
MÁRIO - Não fale assim, Belinha, creio que tem sido considerada como pessoa de nossa família, e nada lhe tem faltado.
BELINHA - É verdade, senhor Mário, nada nos tem faltado. Por esse motivo serei eternamente grata a si, e ao seu pai.
MÁRIO - Não me fale em gratidão, Belinha... diga que me ama.
BELINHA - O que é isso, senhor Mário? Não brinque assim.
MÁRIO - Juro que a amo.
BELINHA - Então já não casa mais com a menina Paulistana? A última vez que se foi para S. Paulo, me contou que casaria ainda este ano.
MÁRIO - Disse isso, é verdade, porém naquela hora eram os meus ciúmes que falavam. Eu nunca amei em São Paulo, mas a tua indiferença para comigo irritou-me... disse-te que estava noivo para te experimentar... e tu deste-me os parabéns e partiste... e até hoje tenho sofrido com a tua indiferença.
BELINHA - Indiferença? Oh, não diga isso... eu o considero muito, tenho por ti uma grande afeição. Fomos criados juntos...
MÁRIO - E aqui brincamos tanto, lembraste? Brincávamos de noivos... era aqui a nossa igrejinha. E eu chamava-te, minha noivinha, a noiva da colina, lembras?
BELINHA - Oh, se me lembro.
MÁRIO - Belinha, fala com sinceridade. Tu amas Arthur?
BELINHA - Ora, senhor Mário, que pergunta...
MÁRIO - Diga, ama-o? (pausa) - Fala, faz de conta que é só ao teu irmão que te confessas. Desejas ser sua esposa?
BELINHA - Mário... Arthur é o homem que me convém para marido. Minha avózinha estão tão velha, pode me faltar de um momento para outro, e... eu... só no mundo. Caso com Arthur, estimo-o muito, minha avó gosta muito dele, é trabalhador... que melhor marido posso aspirar? Ele é pobre como eu, viveremos felizes.
MÁRIO - E se eu te disser que não casarás com ele?
BELINHA - Eu lhe direi que está brincando.
MÁRIO - Não, não estou brincando... serás minha, ouviste?
BELINHA - Mas que capricho é esse? Me faz duvidar da sua estima, Sr. Mário.
MÁRIO - Não é um capricho, quero-te para mim.
BELINHA - Sei que tudo isso é uma simples brincadeira sua, quer se lembrar dos tempos de criança, que aqui neste mesmo lugar me dizia o mesmo... Mário... não falta quem queira casar com você... O senhor é rico, uma posição invejável na sociedade... eu, pobre, esquecida, nuncas tive essa pretensão, creia; os nossos tempos de criança já vão longe...
MÁRIO - Não, sou o mesmo. O que eu te disse aqui noutros tempos, digo-te agora. A noiva da colina será minha, só minha... por teu amor descerei a tudo...
BELINHA - Peço-lhe senhor Mário. Não continue, não faça a minha infelicidade... peço-lhe, mataria a minha avózinha...
MÁRIO - Já disse, não serás desse homem.
BELINHA - Está louco...
MÁRIO - Sim, o que tu quiseres. (Arthur entra e escuta as últimas palavras).
BELINHA - Oh, cale-se por Deus!
ARTHUR - O que fazes aí, Belinha?
BELINHA - Nada, conversava com o Sr. Mário.
ARTHUR - Vamos para dentro.
BELINHA - Sim; venha, senhor Mário.
MÁRIO - Sim, vais dançar comigo a primeira valsa...
BELINHA - Se o Arthur der licença...
MÁRIO - Dá, por que não há de dar?
ARTHUR - E se eu não der?
MÁRIO - Só dançarei se ela quiser.
ARTHUR - Pois por meu gosto, ela não dança contigo. Agora se ela faz gosto de dançar com o senhor, que dance.
BELINHA - O que é isso, Arthur?
MÁRIO - Nunca podia supor que fosse meu inimigo.
ARTHUR - Não sou teu inimigo. Inimigo por que?
MÁRIO - Pois bem, para que me proves que és meu amigo, me deixe dançar com Belinha.
ARTHUR - Não, senhor Mário! Já disse que não.
BELINHA - Arthur, o Sr. Mário é nosso patrão.
ARTHUR - Bei sei... e também conheço as suas intenções.
MÁRIO - Explica-te.
ARTHUR - Olha, senhor Mário, é melhor não continuar. Belinha é minha noiva, e é só o que lhe digo..;.
MÁRIO - É tua noiva, porque eu não quis ser o seu marido, fica sabendo, foi minha antes de ser tua noiva. (Arthur faz um movimento brusco, mas Belinha impede-o).
ARTHUR - O que? Isso é verdade?
BELINHA - Não, Arthur... É mentira (todos entram e vêm para a cena)
MÁRIO - Meus amigos: fiquem todos sabendo que Belinha se casa com Arthur porque eu não quis ser o seu marido.
BELINHA - Não acreditem... é mentira... Arthur, juro-te que é mentira... Que nunca pensei em ser mulher do Mário.
MÁRIO - Já passamos muitas horas juntos, e tua avó dormia...
BELINHA - Meu Deus, valei-me.
ARTHUR - Isso é verdade?
BELINHA - Não, juro-te que não. Pela alma de minha mãe, eu juro!
MÁRIO - Não é estranho a todos que aqui estão, os meus amores com Belinha.
MANOEL - O que fazes, senhor Mário? Não digas isso.
HORTÊNCIA - Meu Deus! O que ouço?
MALAQUIAS - Carma, D. Hortência, em tudo isso há um lápis, carma...
MANOEL - No meio de tudo há mas é muita infâmia. Ah, se fosse na minha terra... má raios...
ARTHUR - O que faziam na tua terra?
MANOEL - Já tinha roncado muito pau.
ARTHUR - Pois na nossa não é assim. Não é pau que ronca quando a infâmia é demais; é fogo ou faca... mata-se o infame que nos rouba a felicidade... Mas ainda é tempo de evitar o mal.
BELINHA - Arthur, não acredite... é mentira.
ARTHUR - Entre nós está tudo acabado... procura outro mais tolo do que eu... Senhor Mário, obrigado. (sai).
BELINHA - Arthur... ouve-me... escuta...
ARTHUR - Não, és uma hipócrita... falsa!
BELINHA - É mentira.
MÁRIO - De nada te serve negar.
BELINHA - Oh, meu Deus... e ninguém se revolta para dizer que é mentira...
MANOEL - Sr. Mário, veja o que está fazendo! Repare que esta pobre menina é só, não tem ninguém por ela. E esta pobre velhinha, morre de desgosto.
MÁRIO - E que tens tu com isso? Se te desagrada defende-a.
MANOEL - Eu, que a defenda? Má raios... Senhor Mário, o senhor...
MÁRIO - Conclue... não há ninguém que a queira defender, que me diga frente a frente que é mentira o que eu disse! Quem é que se atreve a desmentir-me? Falem, aqui na minha frente...
BELINHA - Senhor Mário, por que destrói assim o meu futuro?
MÁRIO - Porque assim o quero.
BELINHA - É porque não tenho ninguém para me defender. Infame!
MÁRIO - Não há aqui tantos homens? Que te defendam... pela segunda vez... ninguém a quer defender?
DESCONHECIDO (afasta todos com ujma alegria selvagem) - Eu! Todos os olhares se voltando para ele com terror!
TODOS (a um só tempo) - O mudo...
MÁRIO - Tu? E quem és tu?
DESCONHECIDO - Eu sou o Desconhecido... ninguém me conhece... Entre todos os homens não houve um que se atrevesse a levantar a voz contra ti, para te dizer bem alto, que és um canalha, um infame... Quem é essa pobre infeliz que não tem ninguém que a defenda? Não tendes irmãs? Não tendes filhas? Para defender a honra do primeiro ladrão que apareça? Pois bem, entre todos esperava que alguém levantasse a voz e não ouvi. Apresento-me eu, para a defender. E só tge digo que mentiste... que és uma vil alma do diabo.
MÁRIO - Sai daqui, vagabundo!
DESCONHECIDO - Não, doravante serei a tua sombra... o teu pesadelo, e se é verdade o que disseste, tens de reparar a tua falta.
MÁRIO - Sai daqui, já te disse!
DESCONHECIDO - Não, ainda não.
MÁRIO - Malaquias, prenda esse sujeito.
MALAQUIAS - Tá preso por perturbá a orde.
DESCONHECIDO - Não me toque.
MALAQUIAS - Bem, tá sorto.
DESCONHECIDO (à Hortência) - Diga-me senhora... quem é esta criatura assim sem ninguém por ela? Tão só como a flor do meio dos campos exposta ao tufão que a desfolha ao desabrochar...
HORTÊNCIA - É minha netinha, senhor. Não temos ninguém por nós.
MÁRIO - Engana-se D. Hortência, já não pode dizer isso. Tem aí o desconhecido.
DESCONHECIDO - Sim, tem a mim, disse bem. Temos muito tempo para ajustar as contas.
MÁRIO - Se quiser pode ser já.
DESCONHECIDO - Sim, pode ser já. Ouça o senhor. Não sei por que motivo com a sua revelação mentirosa lançou esta pobre menina ao abandono... agora diga-me o que pretende fazer? (pausa) - Fale.
MÁRIO - Eu não lhe dou satisfações, repito. E previno-o que a paciência esgota-se.
DESCONHECIDO - Ou responde ao que lhe pergunto ou esbofeteio-o.
MÁRIO - E eu estouro-te a cabeça com uma bala.
MALAQUIAS - O que é isso, senhor Mário, acalme-se.
DESCONHECIDO - São dois homens, ninguém se meta.
MÁRIO - Esgotou a minha paciência. Fora daqui canalha.
DESCONHECIDO - Isso. Assim podemos nos entender. Afastem-se todos, afastem-se, já disse... o senhor vai disparar a sua arma, e eu nada tenho e nem é preciso. Procure não errar o alvo, porque se não me matar com o primeiro tiro, juro que o esgano.
MÁRIO - Está dito, afastem-se todos... (todos se afastam. Mário toma a extrema direita. Desconhecido a outra. Mário dispara a arma, erra o tiro. O Desconhecido avança sobre ele derruba-o sobre a mesa e tenta esganá-lo)
BELINHA (numa súplica) - Não o mate, não o mate... Pelo amor que tem à sua mãe.
DESCONHECIDO - Minha mãe... Minha mãe... (larga-o instintivamente, olhando Belinha) - A menina conhece minha mãe? (todos se afastam pela esquerda, juntamente com Mário).
BELINHA - Não, não a conheço. E o senhor não sabe onde ela se encontra? Deseja vê-la? DESCONHECIDO - Desejo, como o cego deseja a luz.
BELINHA - Eu só tenho no mundo a minha avózinha. (Hortência chora sentada ao lado da mesa) - Vovó não chore.
HORTÊNCIA - O que será de nós? Sózinhas no mundo. Escarnecida a minha netinha.
BELINHA - Sózinhas no mundo...
HORTÊNCIA - O que será de nós, Belinha?
BELINHA - O que Deus quiser,m vovó... (vai ao cruzeiro e abraça) Deus... o que será de mim? (principia a música que vai se afastando até o fim do ato. Belinha cai chorando pela cruz abaixo)
DESCONHECIDO (vai à Belinha) - Não chore menina... o homem que a difamou perante todos há de reparar a sua falta, creia.
BELINHA - Por que se interessa tanto por mim?
DESCONHECIDO - Não sei explicar... porém dentro da minha alma há gritos de revolta, que eu não posso dominar.
BELINHA - Não quero que lhe faça mal. (Já longe ouve-se a orquestra acompanhando uma canção que vai sumindo na distância).
HORTÊNCIA - Belinha, tu amas Mário?
BELINHA - Oh, sim Vovó, amo-o...
HORTÊNCIA (à parte) - Meu Deus... Meu Deus... e São João, dai-me vida e coragem agora que mais preciso para velar por minha netinha... Pai nosso que estais no céu... (a música ao longe se afasta mais. As cortinas fecham-se devagar).
BELINHA - Sozinhas no mundo... sozinhas no mundo...
DESCONHECIDO - Só... Sempre só... (música mais longe, finda).
BELINHA - Mas que capricho é esse? Me faz duvidar da sua estima, Sr. Mário.
MÁRIO - Não é um capricho, quero-te para mim.
BELINHA - Sei que tudo isso é uma simples brincadeira sua, quer se lembrar dos tempos de criança, que aqui neste mesmo lugar me dizia o mesmo... Mário... não falta quem queira casar com você... O senhor é rico, uma posição invejável na sociedade... eu, pobre, esquecida, nuncas tive essa pretensão, creia; os nossos tempos de criança já vão longe...
MÁRIO - Não, sou o mesmo. O que eu te disse aqui noutros tempos, digo-te agora. A noiva da colina será minha, só minha... por teu amor descerei a tudo...
BELINHA - Peço-lhe senhor Mário. Não continue, não faça a minha infelicidade... peço-lhe, mataria a minha avózinha...
MÁRIO - Já disse, não serás desse homem.
BELINHA - Está louco...
MÁRIO - Sim, o que tu quiseres. (Arthur entra e escuta as últimas palavras).
BELINHA - Oh, cale-se por Deus!
ARTHUR - O que fazes aí, Belinha?
BELINHA - Nada, conversava com o Sr. Mário.
ARTHUR - Vamos para dentro.
BELINHA - Sim; venha, senhor Mário.
MÁRIO - Sim, vais dançar comigo a primeira valsa...
BELINHA - Se o Arthur der licença...
MÁRIO - Dá, por que não há de dar?
ARTHUR - E se eu não der?
MÁRIO - Só dançarei se ela quiser.
ARTHUR - Pois por meu gosto, ela não dança contigo. Agora se ela faz gosto de dançar com o senhor, que dance.
BELINHA - O que é isso, Arthur?
MÁRIO - Nunca podia supor que fosse meu inimigo.
ARTHUR - Não sou teu inimigo. Inimigo por que?
MÁRIO - Pois bem, para que me proves que és meu amigo, me deixe dançar com Belinha.
ARTHUR - Não, senhor Mário! Já disse que não.
BELINHA - Arthur, o Sr. Mário é nosso patrão.
ARTHUR - Bei sei... e também conheço as suas intenções.
MÁRIO - Explica-te.
ARTHUR - Olha, senhor Mário, é melhor não continuar. Belinha é minha noiva, e é só o que lhe digo..;.
MÁRIO - É tua noiva, porque eu não quis ser o seu marido, fica sabendo, foi minha antes de ser tua noiva. (Arthur faz um movimento brusco, mas Belinha impede-o).
ARTHUR - O que? Isso é verdade?
BELINHA - Não, Arthur... É mentira (todos entram e vêm para a cena)
MÁRIO - Meus amigos: fiquem todos sabendo que Belinha se casa com Arthur porque eu não quis ser o seu marido.
BELINHA - Não acreditem... é mentira... Arthur, juro-te que é mentira... Que nunca pensei em ser mulher do Mário.
MÁRIO - Já passamos muitas horas juntos, e tua avó dormia...
BELINHA - Meu Deus, valei-me.
ARTHUR - Isso é verdade?
BELINHA - Não, juro-te que não. Pela alma de minha mãe, eu juro!
MÁRIO - Não é estranho a todos que aqui estão, os meus amores com Belinha.
MANOEL - O que fazes, senhor Mário? Não digas isso.
HORTÊNCIA - Meu Deus! O que ouço?
MALAQUIAS - Carma, D. Hortência, em tudo isso há um lápis, carma...
MANOEL - No meio de tudo há mas é muita infâmia. Ah, se fosse na minha terra... má raios...
ARTHUR - O que faziam na tua terra?
MANOEL - Já tinha roncado muito pau.
ARTHUR - Pois na nossa não é assim. Não é pau que ronca quando a infâmia é demais; é fogo ou faca... mata-se o infame que nos rouba a felicidade... Mas ainda é tempo de evitar o mal.
BELINHA - Arthur, não acredite... é mentira.
ARTHUR - Entre nós está tudo acabado... procura outro mais tolo do que eu... Senhor Mário, obrigado. (sai).
BELINHA - Arthur... ouve-me... escuta...
ARTHUR - Não, és uma hipócrita... falsa!
BELINHA - É mentira.
MÁRIO - De nada te serve negar.
BELINHA - Oh, meu Deus... e ninguém se revolta para dizer que é mentira...
MANOEL - Sr. Mário, veja o que está fazendo! Repare que esta pobre menina é só, não tem ninguém por ela. E esta pobre velhinha, morre de desgosto.
MÁRIO - E que tens tu com isso? Se te desagrada defende-a.
MANOEL - Eu, que a defenda? Má raios... Senhor Mário, o senhor...
MÁRIO - Conclue... não há ninguém que a queira defender, que me diga frente a frente que é mentira o que eu disse! Quem é que se atreve a desmentir-me? Falem, aqui na minha frente...
BELINHA - Senhor Mário, por que destrói assim o meu futuro?
MÁRIO - Porque assim o quero.
BELINHA - É porque não tenho ninguém para me defender. Infame!
MÁRIO - Não há aqui tantos homens? Que te defendam... pela segunda vez... ninguém a quer defender?
DESCONHECIDO (afasta todos com ujma alegria selvagem) - Eu! Todos os olhares se voltando para ele com terror!
TODOS (a um só tempo) - O mudo...
MÁRIO - Tu? E quem és tu?
DESCONHECIDO - Eu sou o Desconhecido... ninguém me conhece... Entre todos os homens não houve um que se atrevesse a levantar a voz contra ti, para te dizer bem alto, que és um canalha, um infame... Quem é essa pobre infeliz que não tem ninguém que a defenda? Não tendes irmãs? Não tendes filhas? Para defender a honra do primeiro ladrão que apareça? Pois bem, entre todos esperava que alguém levantasse a voz e não ouvi. Apresento-me eu, para a defender. E só tge digo que mentiste... que és uma vil alma do diabo.
MÁRIO - Sai daqui, vagabundo!
DESCONHECIDO - Não, doravante serei a tua sombra... o teu pesadelo, e se é verdade o que disseste, tens de reparar a tua falta.
MÁRIO - Sai daqui, já te disse!
DESCONHECIDO - Não, ainda não.
MÁRIO - Malaquias, prenda esse sujeito.
MALAQUIAS - Tá preso por perturbá a orde.
DESCONHECIDO - Não me toque.
MALAQUIAS - Bem, tá sorto.
DESCONHECIDO (à Hortência) - Diga-me senhora... quem é esta criatura assim sem ninguém por ela? Tão só como a flor do meio dos campos exposta ao tufão que a desfolha ao desabrochar...
HORTÊNCIA - É minha netinha, senhor. Não temos ninguém por nós.
MÁRIO - Engana-se D. Hortência, já não pode dizer isso. Tem aí o desconhecido.
DESCONHECIDO - Sim, tem a mim, disse bem. Temos muito tempo para ajustar as contas.
MÁRIO - Se quiser pode ser já.
DESCONHECIDO - Sim, pode ser já. Ouça o senhor. Não sei por que motivo com a sua revelação mentirosa lançou esta pobre menina ao abandono... agora diga-me o que pretende fazer? (pausa) - Fale.
MÁRIO - Eu não lhe dou satisfações, repito. E previno-o que a paciência esgota-se.
DESCONHECIDO - Ou responde ao que lhe pergunto ou esbofeteio-o.
MÁRIO - E eu estouro-te a cabeça com uma bala.
MALAQUIAS - O que é isso, senhor Mário, acalme-se.
DESCONHECIDO - São dois homens, ninguém se meta.
MÁRIO - Esgotou a minha paciência. Fora daqui canalha.
DESCONHECIDO - Isso. Assim podemos nos entender. Afastem-se todos, afastem-se, já disse... o senhor vai disparar a sua arma, e eu nada tenho e nem é preciso. Procure não errar o alvo, porque se não me matar com o primeiro tiro, juro que o esgano.
MÁRIO - Está dito, afastem-se todos... (todos se afastam. Mário toma a extrema direita. Desconhecido a outra. Mário dispara a arma, erra o tiro. O Desconhecido avança sobre ele derruba-o sobre a mesa e tenta esganá-lo)
BELINHA (numa súplica) - Não o mate, não o mate... Pelo amor que tem à sua mãe.
DESCONHECIDO - Minha mãe... Minha mãe... (larga-o instintivamente, olhando Belinha) - A menina conhece minha mãe? (todos se afastam pela esquerda, juntamente com Mário).
BELINHA - Não, não a conheço. E o senhor não sabe onde ela se encontra? Deseja vê-la? DESCONHECIDO - Desejo, como o cego deseja a luz.
BELINHA - Eu só tenho no mundo a minha avózinha. (Hortência chora sentada ao lado da mesa) - Vovó não chore.
HORTÊNCIA - O que será de nós? Sózinhas no mundo. Escarnecida a minha netinha.
BELINHA - Sózinhas no mundo...
HORTÊNCIA - O que será de nós, Belinha?
BELINHA - O que Deus quiser,m vovó... (vai ao cruzeiro e abraça) Deus... o que será de mim? (principia a música que vai se afastando até o fim do ato. Belinha cai chorando pela cruz abaixo)
DESCONHECIDO (vai à Belinha) - Não chore menina... o homem que a difamou perante todos há de reparar a sua falta, creia.
BELINHA - Por que se interessa tanto por mim?
DESCONHECIDO - Não sei explicar... porém dentro da minha alma há gritos de revolta, que eu não posso dominar.
BELINHA - Não quero que lhe faça mal. (Já longe ouve-se a orquestra acompanhando uma canção que vai sumindo na distância).
HORTÊNCIA - Belinha, tu amas Mário?
BELINHA - Oh, sim Vovó, amo-o...
HORTÊNCIA (à parte) - Meu Deus... Meu Deus... e São João, dai-me vida e coragem agora que mais preciso para velar por minha netinha... Pai nosso que estais no céu... (a música ao longe se afasta mais. As cortinas fecham-se devagar).
BELINHA - Sozinhas no mundo... sozinhas no mundo...
DESCONHECIDO - Só... Sempre só... (música mais longe, finda).

FIM DO SEGUNDO ATO
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