FLOR DA MATA
Flor da Mata, é uma peça teatral em 3 atos. É uma peça muito antiga, escrita por volta de 1930, de autoria de Alves Moreira. O gênero, é um misto de drama e comédia. A estória envolve 13 personagens, e a ação passa-se numa Fazenda do interior, em uma noite de São João. Qualquer grupo de teatro amador, que procure uma boa peça, poderá fazer uso desta sugestão sem qualquer problema, pois apesar de antiga, o argumento teatral é bem atual.

FLOR DA MATA
Peça Teatral em 3 atos
PERSONAGENS
BELINHA - a Flor da Mata
D. HORTÊNCIA - sua avó
ALZIRA
AURORA
AURORA
BONIFÁCIA - pretinha da casa
DESCONHECIDO
MÁRIO - fazendeiro
Major PRUDÊNCIO - pai de Mário
PASCHOAL - italiano colono
MANOEL - português colono
FELÍCIO - pretinho
MALAQUIAS - cabo de policia
ARTUR
PRIMEIRO ATO
(A cena representa um terreiro de Fazenda com uma Capelinha de S. João, um mastro, um cruzeiro ao centro da cena. à direita, uma casinha rústica. À esquerda, outra casa onde no decorrer ao 1º ato, há um baile animado. À direita, ante uma fogueira de São João.)
(D. Hortência na capelinha arranja o oratório do santo. À direita estão Belinha, Alzira e Aurora, onde deve estar uma mesa rústica, embrulhando balas em papel de cores, conversam alegremente. Felício (pretinho) com Paschoal (italiano), esticam um barbante com muitas bandeirinhas de cores e lanternas japonesas).
D. HORTÊNCIA - Belinha, vai lá dentro e traga as velas que estão sobre a cômoda para ficar tudo pronto.
BELINHA - Sim, vovó, já vou. Teremos tudo pronto até a hora de começar o baile? (saem)
ALZIRA - Não falta muito para que não possa ficar.
FELÍCIO - Amarra esta ponta no mastro e a outra eu amarro no cruzeiro.
PASCHOAL - Má, é só no mastro que você amarra? Tutto no mastro, tutto no mastro?
FELÍCIO - O mastro é o principal da festa, tudo tem que ser amarrado nele. E do mastro é que se amarra nas outras coisas.
PASCHOAL - Má que festa é isto?
FELÍCIO - Oh italiano, então tu não vê que a festa é de S. João? Tu tá na igreja e não vê o santo?
PASCHOAL - Má que igreja? Aquilo é igreja?
FELÍCIO - Não é bem uma igreja, mas é quase. Na tua terra não tem igreja deste tamanho, porque o Papa mora lá, e qué que as igreja seja tudo grande.
PASCHOAL - E por que não faz uma igreja grande?
FELÍCIO - Prá quê? Tu não tá vendo o tamanho do santo? Por que maió? Depois o nosso Papa daqui não qué que as igreja de santo pequeno seja grande.
PASCHOAL (rindo) - Há, há, há, o Papa daqui? Má onde está o Papa brasileiro?
FELÍCIO - Então tu pensa que só na Intália é que tem Papa? Tu pensa que nóis também não temo?
PASCHOAL - Tu me deixa dá risada, Felício. Papa só na Itália.
FELÍCIO - Deixa de sê besta, o Brazil se quizé também tem. Nóis temo até Papão.
ALZIRA - Depois que o Mário foi para S. Paulo, tu andaste uns tempos triste. Depois começaste a namorar o Artur.
AURORA - Foi para esquecê-lo, não é verdade, Belinha?
BELINHA (que voltou) - Ora, não digam tolices. Nunca namorei o Mário, nem ele nunca deu-me a perceber que gostava de mim.
ALZIRA - Ora, não diga isso... Todos sabiam que o Mário te namorava.
BELINHA - Então eu era a única que ignorava, e se eu gostasse dele, não namorava outro.
AURORA - é que tu pensaste a tempo. Tu és inteligente bastante para compreenderes isso.
BELINHA - O Artur é o único de quem sempre gostei, mesmo que Mário quisesse casar comigo, eu nunca me casaria com ele.
ALZIRA - Ora essa, por que? Porque o pai é rico?
BELINHA - Não, não é só por isso.
AURORA - Fala verdade, tu sempre gostaste dele.
BELINHA - Não, juro que não. Agora vou contar o que se passou. Eu tinha muita afeição ao Mário, cheguei quase a gostar dele, mas quando percebi que o seu amor não era puro, nunca mais conversei com ele, até a sua ida para São Paulo. Prefiro um homem pobre, mas trabalhador. O Mário nunca poderia ser meu marido.
ALZIRA - Ainda bem que tu pensaste a tempo. Não soubeste o que se falou dele com a Clara italiana? O seu Paschoal quis mata-lo, depois o major deu um jeito de ficar tudo como dantes.
AURORA - Também era de esperar que falassem deles. Era um assanhamento como nunca vi.
BELINHA - Deus me livre de tal coisa. Matava a minha avozinha. (Ouve-se ao longe uma tocata que se aproxima, de sanfona e guitarra).
FELÍCIO - Aí vem a orquestra do cabo Malaquias e do Mané português.
ALZIRA - E nós com tanta coisa para arrumar.
AURORA - O pior já está pronto.
BELINHA - Vamos lá dentro ver o doce que está no forno, já tinha até esquecido.
ALZIRA - É verdade, vamor (saem)
PASCHOAL - Má, a música é só aquilo?
FELÍCIO - Aquilo é a orquestra, a musga vem logo.
PASCHOAL - Sem o violino a música não tem as harmonias, com os violinos até se deixa tocar as operas italianas. Isso sim é música. Tu vai ver eu tocar.
FELÍCIO - Tu não viu o Mané purtugueis tocá na guitarra, opera brasileira. Quando tu ouvi tu toma nojo de falá em opera intalhana.
PASCHOAL - Má que opera brasileira? Tu me deixa dá risada. Há, há, há...
FELÍCIO - Pode ri, intalhano disaforado... (Entram pela esquerda o Manoel de guitarra em punho, outro de sanfona e o cabo Malaquias de violão, esta orquestra pode swer aumentada com outros instrumentos, e Prudêncio, velho caipira. As moças e D. Hortência saem de casa)
MALAQUIAS - Todos pode se adivertir, mas porém com toda a decença e moralidade comum. Ninguém pode transigi desta ordem dada pela autoridade competente... Disse...
PRUDÊNCIO - Disse bem, seu Malaquias.
FELÍCIO - Eta home prá falá...
MANOEL - É preciso deitar o fogo na fogueira.
MALAQUIAS - Isso são coisas que compete a mim, na hora aprazada eu darei o competente siná, e o fogo cripitará por entre os troncos murchecidos de pau murcho da mata virge onde cantou o sabiá graúna. Disse...
MANOEL - Antão, não se bebe nada? Já estou com a guela seca.
PASCHOAL - Io também.
PRUDÊNCIO - E agora se viesse eu bebia.
MALAQUIAS - Já que a maioria é de opinião favorável a que se beba, também dou o meu voto de minerva favorável. Vou ordenas: Senhorita Belinha, rainha das festeiras deste florescente arraiá com pretenções de cidade. Venho em nome de todos os presentes ausentes pedir, e não rogar, para que sirva o clássico mata bicho a todos. Disse...
PRUDÊNCIO - Muito bem, falou bonito.
FELÍCIO - Aí mulato, mostra qui é sordado!
MANOEL - Falou como um policia da régua.
MALAQUIAS - Policia de onde, português?
MANOEL - Da régua.
MALAQUIAS - Você tá me chamando de pau?
MANOEL - Ora pois pau, ora pois nada... da régua.
MALAQUIAS - Pois é, você me chamou de pau. Régua não é feita de pau? Logo você me insurtô. Você vai inguli o pau antes que eu me espáie.
PRUDÊNCIO - Não é isso, Malaquias. Régua é um lugar que tem lá em Portugal.
MALAQUIAS - Ah, isso sim, tá terminado o confrito.
FELICIO - Disse.
MALAQUIAS - Moleque sem vergonha. Tu não bebe cachaça.
FELÍCIO - Uai, por que? Que é que eu fiz?
MALAQUIAS - Cale a boca!
FELÍCIO - Mas...
MALAQUIAS - Não diga nada, se limite a não dizer nada.
FELÍCIO - Tá bom, não digo nada.
MALAQUIAS - Cale-se.
FELÍCIO - Uai... Tô calado.
MALAQUIAS - Falou agora.
MANOEL - Antão, como é? Não vem as bebidas?
PRUDÊNCIO - Carma, seu Manoé, as menina já tão providenciando.
PASCHOAL - Má, que cosa se fá? Vamo de deixa tocá.
MALAQUIAS - Sem se bebê, não toca. (entram as moças com bebidas e doces que oferecem a eles).
BELINHA -Senhor major, um doce.
PRUDÊNCIO - Pois não, minina Belinha, aceito. Mas onde está nhá Hortência que ainda não a vi?
BELINHA - Está lá dentro major. Entre. (Prudêncio sai).
MALAQUIAS - Epa. Ninguém bebe sem eu falá à festeira. Quero brindar em nome do povo do arraiá e do Santo João.
FELÍCIO - Uai? Santo João?...
MALAQUIAS - Negro sem vergonha, tu tá me desautorando!
FELÍCIO - Não é santo João, é São João.
MALAQUIAS - E é um negro à toa, destes que qué me insiná a falá. Tu conhece latim? Tu estudou crássico?
AURORA - Deixem a discussão para depois, bebam e comam.
MALAQUIAS - Este negrinho até me faz perder o apetite... (tom de discurso) - Meus povo e minhas povas, todos nós sabemos quem foi S. João.
FELÍCIO - Eu num sei, tá?
MALAQUIAS - Tu não sabe quem foi São João? Tu não sabe... Oh, Santa iguinorância...
FELÍCIO - Eu não. O sinhô sabe, seu Mané?
MANOEL - Eu também não sei, mas eu pergunto aqui ao comandante, e ele diz logo até quem foi o pai de São João. Queres saber? Oh, Senhor Malaquias, quem foi São João?
MALAQUIAS - Mas tu és burro Manoel... então eu é que sei?
MANOEL - Pois eu pensei que sabias...
MALAQUIAS - Eu sabia, mas eu me esqueci, tá? ...
FELÍCIO - Eta, home sabido!
MALAQUIAS - Tu tá me debuxando, negro sem vergonha?
FELÍCIO - Eu não, eu tô comendo doce.
PASCHOAL - Má como é Malaquias, então não se deixa falá do santo?
MALAQUIAS - Não falo mais, perdi o fio do discurso.
PASCHOAL - Então parlo io. Mio senhores e senhoras, todos presentes e ausentes que se deixam fica em casa, io peço um momento de atenção, pra o que vou me deixá falá. São João...
MALAQUIAS - Epa... pára... bréca aí intaliano. Tu já pediu licença prá falá?
PASCHOAL - Ma que cosa é essa? Então não se pode parlare nesta terra? Na Itália, se pode deixá parlare.
MALAQUIAS - Tu não tá na Itália, intaliano. Tu tá no Brasil. Este colosso que se chama Brasil. Tu sabe o que é o Brasil, intaliano?
PASCHOAL - Sei. O que não sabia é que não se podia parlar.
MALAQUIAS - Podê, pode parlá, mas com licença superiô, então tu pensa que isto aqui é assim? Que quarqué um vai falando? Eu sei lá se tu vai dizê argura incongruência? Precisa pedi licença. Disse...
MANOEL - Pois está claro. Licença numerada.
PASCHOAL - Ma que cosa é essa de licença prá se deixa parlar?
MALAQUIAS - É isso, tu pede licença primeiro, depois eu vou vê se tu podes usar da palavra. Disse...
PASCHOAL - Perla madona...
MANOEL - Mas no que ficamos? Vocês falam ou não falam do...
MALAQUIAS - Tem a palavra pela orde, o intaliano, pra falá sobre a vida do santo que é patricio dele e ele deve conhecê a sua família. Disse...
PASCHOAL - Isso não. Não conheci familia de S. João. Sei que ele é italiano, isso sei com certeza.
MANOEL - Caes intaliano, é português. Vamos ter conflito entre Italia e Portugal por causa do santo.
PASCHOAL - É italiano.
MALAQUIAS - Então sorta o teu verbo inframado.
PASCHOAL - Má primeiro preciso molhá as guelas.
MALAQUIAS - Não, tu agora não bebe. Fala primeiro depois tu molha as guelas e as palavra. Disse...
PASCHOAL - Pois mios senhores, io fui escolhido pelos povo desta festa pra parlar da vida de S. João, mio patrício italiano. S. João, foi um santo muito milagroso. Santo italiano primo de São Genaro, irmão de Jesus Cristo e amigo de nóis tuto e em nome de todos io bebo a saúde delo. Me dá um trago.
MALAQUIAS - Tu tá nos tapiando, intaliano.
PASCHOAL - Io pedi licença ao santo.
MALAQUIAS - Não. Tão suspensa as bebida inté segunda ordem. São João não manda na cachaça... quem manda sou eu. (saem as pequenas).
MANOEL - Isso comandante.
MALAQUIAS - Quem foi que me chamou de comandante?
MANOEL - Fui eu... o que que tem?
MALAQUIAS - Foste tu? Tu também é o único que me dá valô nesta farda. Tu de agora em diante também manda.
PASCHOAL - Má que comandante é isso?
MALAQUIAS - Sou comandante se tu não qué que eu seja, te meto o facão. Escole.
PASCHOAL - Bem, é comandante e general.
MALAQUIAS - Pode tomá um trago que eu também vou bebê.
MANOEL - Isso, bamos beber à saúde do comandante Malaquias. Biba o cabo Malaquias (todos) Viva, ôôô!
FELÍCIO - Viva eu...
MALAQUIAS - O que foi que tu disse aí, moleque?
FELÍCIO - Eu não disse nada.
MALAQUIAS - Tu não disse viva eu?
FELÍCIO - Não sinhô. Disse viva eu.
MALAQUIAS - Mas tu não vê que não te pode misturá comigo? Nego à toa... tu não bebe.
FELÍCIO - Tá bem seu Malaquias, não precisa zangá.
(D. Hortência na capelinha arranja o oratório do santo. À direita estão Belinha, Alzira e Aurora, onde deve estar uma mesa rústica, embrulhando balas em papel de cores, conversam alegremente. Felício (pretinho) com Paschoal (italiano), esticam um barbante com muitas bandeirinhas de cores e lanternas japonesas).
CENA I
D. Hortência, Belinha, Alzira, Felicio, Paschoal e Aurora
D. HORTÊNCIA - Belinha, vai lá dentro e traga as velas que estão sobre a cômoda para ficar tudo pronto.
BELINHA - Sim, vovó, já vou. Teremos tudo pronto até a hora de começar o baile? (saem)
ALZIRA - Não falta muito para que não possa ficar.
FELÍCIO - Amarra esta ponta no mastro e a outra eu amarro no cruzeiro.
PASCHOAL - Má, é só no mastro que você amarra? Tutto no mastro, tutto no mastro?
FELÍCIO - O mastro é o principal da festa, tudo tem que ser amarrado nele. E do mastro é que se amarra nas outras coisas.
PASCHOAL - Má que festa é isto?
FELÍCIO - Oh italiano, então tu não vê que a festa é de S. João? Tu tá na igreja e não vê o santo?
PASCHOAL - Má que igreja? Aquilo é igreja?
FELÍCIO - Não é bem uma igreja, mas é quase. Na tua terra não tem igreja deste tamanho, porque o Papa mora lá, e qué que as igreja seja tudo grande.
PASCHOAL - E por que não faz uma igreja grande?
FELÍCIO - Prá quê? Tu não tá vendo o tamanho do santo? Por que maió? Depois o nosso Papa daqui não qué que as igreja de santo pequeno seja grande.
PASCHOAL (rindo) - Há, há, há, o Papa daqui? Má onde está o Papa brasileiro?
FELÍCIO - Então tu pensa que só na Intália é que tem Papa? Tu pensa que nóis também não temo?
PASCHOAL - Tu me deixa dá risada, Felício. Papa só na Itália.
FELÍCIO - Deixa de sê besta, o Brazil se quizé também tem. Nóis temo até Papão.
ALZIRA - Depois que o Mário foi para S. Paulo, tu andaste uns tempos triste. Depois começaste a namorar o Artur.
AURORA - Foi para esquecê-lo, não é verdade, Belinha?
BELINHA (que voltou) - Ora, não digam tolices. Nunca namorei o Mário, nem ele nunca deu-me a perceber que gostava de mim.
ALZIRA - Ora, não diga isso... Todos sabiam que o Mário te namorava.
BELINHA - Então eu era a única que ignorava, e se eu gostasse dele, não namorava outro.
AURORA - é que tu pensaste a tempo. Tu és inteligente bastante para compreenderes isso.
BELINHA - O Artur é o único de quem sempre gostei, mesmo que Mário quisesse casar comigo, eu nunca me casaria com ele.
ALZIRA - Ora essa, por que? Porque o pai é rico?
BELINHA - Não, não é só por isso.
AURORA - Fala verdade, tu sempre gostaste dele.
BELINHA - Não, juro que não. Agora vou contar o que se passou. Eu tinha muita afeição ao Mário, cheguei quase a gostar dele, mas quando percebi que o seu amor não era puro, nunca mais conversei com ele, até a sua ida para São Paulo. Prefiro um homem pobre, mas trabalhador. O Mário nunca poderia ser meu marido.
ALZIRA - Ainda bem que tu pensaste a tempo. Não soubeste o que se falou dele com a Clara italiana? O seu Paschoal quis mata-lo, depois o major deu um jeito de ficar tudo como dantes.
AURORA - Também era de esperar que falassem deles. Era um assanhamento como nunca vi.
BELINHA - Deus me livre de tal coisa. Matava a minha avozinha. (Ouve-se ao longe uma tocata que se aproxima, de sanfona e guitarra).
FELÍCIO - Aí vem a orquestra do cabo Malaquias e do Mané português.
ALZIRA - E nós com tanta coisa para arrumar.
AURORA - O pior já está pronto.
BELINHA - Vamos lá dentro ver o doce que está no forno, já tinha até esquecido.
ALZIRA - É verdade, vamor (saem)
PASCHOAL - Má, a música é só aquilo?
FELÍCIO - Aquilo é a orquestra, a musga vem logo.
PASCHOAL - Sem o violino a música não tem as harmonias, com os violinos até se deixa tocar as operas italianas. Isso sim é música. Tu vai ver eu tocar.
FELÍCIO - Tu não viu o Mané purtugueis tocá na guitarra, opera brasileira. Quando tu ouvi tu toma nojo de falá em opera intalhana.
PASCHOAL - Má que opera brasileira? Tu me deixa dá risada. Há, há, há...
CENA II
Os mesmos, Malaquias, Prudêncio e Manuel
MALAQUIAS - Todos pode se adivertir, mas porém com toda a decença e moralidade comum. Ninguém pode transigi desta ordem dada pela autoridade competente... Disse...
PRUDÊNCIO - Disse bem, seu Malaquias.
FELÍCIO - Eta home prá falá...
MANOEL - É preciso deitar o fogo na fogueira.
MALAQUIAS - Isso são coisas que compete a mim, na hora aprazada eu darei o competente siná, e o fogo cripitará por entre os troncos murchecidos de pau murcho da mata virge onde cantou o sabiá graúna. Disse...
MANOEL - Antão, não se bebe nada? Já estou com a guela seca.
PASCHOAL - Io também.
PRUDÊNCIO - E agora se viesse eu bebia.
MALAQUIAS - Já que a maioria é de opinião favorável a que se beba, também dou o meu voto de minerva favorável. Vou ordenas: Senhorita Belinha, rainha das festeiras deste florescente arraiá com pretenções de cidade. Venho em nome de todos os presentes ausentes pedir, e não rogar, para que sirva o clássico mata bicho a todos. Disse...
PRUDÊNCIO - Muito bem, falou bonito.
FELÍCIO - Aí mulato, mostra qui é sordado!
MANOEL - Falou como um policia da régua.
MALAQUIAS - Policia de onde, português?
MANOEL - Da régua.
MALAQUIAS - Você tá me chamando de pau?
MANOEL - Ora pois pau, ora pois nada... da régua.
MALAQUIAS - Pois é, você me chamou de pau. Régua não é feita de pau? Logo você me insurtô. Você vai inguli o pau antes que eu me espáie.
PRUDÊNCIO - Não é isso, Malaquias. Régua é um lugar que tem lá em Portugal.
MALAQUIAS - Ah, isso sim, tá terminado o confrito.
FELICIO - Disse.
MALAQUIAS - Moleque sem vergonha. Tu não bebe cachaça.
FELÍCIO - Uai, por que? Que é que eu fiz?
MALAQUIAS - Cale a boca!
FELÍCIO - Mas...
MALAQUIAS - Não diga nada, se limite a não dizer nada.
FELÍCIO - Tá bom, não digo nada.
MALAQUIAS - Cale-se.
FELÍCIO - Uai... Tô calado.
MALAQUIAS - Falou agora.
MANOEL - Antão, como é? Não vem as bebidas?
PRUDÊNCIO - Carma, seu Manoé, as menina já tão providenciando.
PASCHOAL - Má, que cosa se fá? Vamo de deixa tocá.
MALAQUIAS - Sem se bebê, não toca. (entram as moças com bebidas e doces que oferecem a eles).
BELINHA -Senhor major, um doce.
PRUDÊNCIO - Pois não, minina Belinha, aceito. Mas onde está nhá Hortência que ainda não a vi?
BELINHA - Está lá dentro major. Entre. (Prudêncio sai).
MALAQUIAS - Epa. Ninguém bebe sem eu falá à festeira. Quero brindar em nome do povo do arraiá e do Santo João.
FELÍCIO - Uai? Santo João?...
MALAQUIAS - Negro sem vergonha, tu tá me desautorando!
FELÍCIO - Não é santo João, é São João.
MALAQUIAS - E é um negro à toa, destes que qué me insiná a falá. Tu conhece latim? Tu estudou crássico?
AURORA - Deixem a discussão para depois, bebam e comam.
MALAQUIAS - Este negrinho até me faz perder o apetite... (tom de discurso) - Meus povo e minhas povas, todos nós sabemos quem foi S. João.
FELÍCIO - Eu num sei, tá?
MALAQUIAS - Tu não sabe quem foi São João? Tu não sabe... Oh, Santa iguinorância...
FELÍCIO - Eu não. O sinhô sabe, seu Mané?
MANOEL - Eu também não sei, mas eu pergunto aqui ao comandante, e ele diz logo até quem foi o pai de São João. Queres saber? Oh, Senhor Malaquias, quem foi São João?
MALAQUIAS - Mas tu és burro Manoel... então eu é que sei?
MANOEL - Pois eu pensei que sabias...
MALAQUIAS - Eu sabia, mas eu me esqueci, tá? ...
FELÍCIO - Eta, home sabido!
MALAQUIAS - Tu tá me debuxando, negro sem vergonha?
FELÍCIO - Eu não, eu tô comendo doce.
PASCHOAL - Má como é Malaquias, então não se deixa falá do santo?
MALAQUIAS - Não falo mais, perdi o fio do discurso.
PASCHOAL - Então parlo io. Mio senhores e senhoras, todos presentes e ausentes que se deixam fica em casa, io peço um momento de atenção, pra o que vou me deixá falá. São João...
MALAQUIAS - Epa... pára... bréca aí intaliano. Tu já pediu licença prá falá?
PASCHOAL - Ma que cosa é essa? Então não se pode parlare nesta terra? Na Itália, se pode deixá parlare.
MALAQUIAS - Tu não tá na Itália, intaliano. Tu tá no Brasil. Este colosso que se chama Brasil. Tu sabe o que é o Brasil, intaliano?
PASCHOAL - Sei. O que não sabia é que não se podia parlar.
MALAQUIAS - Podê, pode parlá, mas com licença superiô, então tu pensa que isto aqui é assim? Que quarqué um vai falando? Eu sei lá se tu vai dizê argura incongruência? Precisa pedi licença. Disse...
MANOEL - Pois está claro. Licença numerada.
PASCHOAL - Ma que cosa é essa de licença prá se deixa parlar?
MALAQUIAS - É isso, tu pede licença primeiro, depois eu vou vê se tu podes usar da palavra. Disse...
PASCHOAL - Perla madona...
MANOEL - Mas no que ficamos? Vocês falam ou não falam do...
MALAQUIAS - Tem a palavra pela orde, o intaliano, pra falá sobre a vida do santo que é patricio dele e ele deve conhecê a sua família. Disse...
PASCHOAL - Isso não. Não conheci familia de S. João. Sei que ele é italiano, isso sei com certeza.
MANOEL - Caes intaliano, é português. Vamos ter conflito entre Italia e Portugal por causa do santo.
PASCHOAL - É italiano.
MALAQUIAS - Então sorta o teu verbo inframado.
PASCHOAL - Má primeiro preciso molhá as guelas.
MALAQUIAS - Não, tu agora não bebe. Fala primeiro depois tu molha as guelas e as palavra. Disse...
PASCHOAL - Pois mios senhores, io fui escolhido pelos povo desta festa pra parlar da vida de S. João, mio patrício italiano. S. João, foi um santo muito milagroso. Santo italiano primo de São Genaro, irmão de Jesus Cristo e amigo de nóis tuto e em nome de todos io bebo a saúde delo. Me dá um trago.
MALAQUIAS - Tu tá nos tapiando, intaliano.
PASCHOAL - Io pedi licença ao santo.
MALAQUIAS - Não. Tão suspensa as bebida inté segunda ordem. São João não manda na cachaça... quem manda sou eu. (saem as pequenas).
MANOEL - Isso comandante.
MALAQUIAS - Quem foi que me chamou de comandante?
MANOEL - Fui eu... o que que tem?
MALAQUIAS - Foste tu? Tu também é o único que me dá valô nesta farda. Tu de agora em diante também manda.
PASCHOAL - Má que comandante é isso?
MALAQUIAS - Sou comandante se tu não qué que eu seja, te meto o facão. Escole.
PASCHOAL - Bem, é comandante e general.
MALAQUIAS - Pode tomá um trago que eu também vou bebê.
MANOEL - Isso, bamos beber à saúde do comandante Malaquias. Biba o cabo Malaquias (todos) Viva, ôôô!
FELÍCIO - Viva eu...
MALAQUIAS - O que foi que tu disse aí, moleque?
FELÍCIO - Eu não disse nada.
MALAQUIAS - Tu não disse viva eu?
FELÍCIO - Não sinhô. Disse viva eu.
MALAQUIAS - Mas tu não vê que não te pode misturá comigo? Nego à toa... tu não bebe.
FELÍCIO - Tá bem seu Malaquias, não precisa zangá.
CENA III
(Os mesmos, o Desconhecido e Belinha, depois Prudêncio e Hortência)
(Entra pela Esquerda o Desconhecido. Todos se voltam para olha-lo. Sem dar atenção, olha em torno, vai à capelinha, ajoelha, reza, levanta-se a custo, desce olhando todos, vai encostar-se ao cruzeiro parecendo demonstrar cansaço de viagem. Todos o olham sem dizer uma palavra).
(Da direita entra Belinha ao deparar com ele demonstra dó pelo seu estado. Ele olha-a demoradamente, ela oferece-lhe o banco que está ao lado da mesa, ele senta-se, sem dizer nada).
BELINHA - O senhor deseja alguma coisa? (ele não responde) - Coitado... terá fome?
MALAQUIAS (vem a ele) - Ó moço... O senhor é daqui? (o desconhecido não responde) Hein? Ocê não fala?
BELINHA - Terá fome? Pergunte, seu Malaquias.
MALAQUIAS - O senhor qué comê? Ou bebê água? Hein?
MANOEL - Não responde? Ah, já sei... Ele é mudo.
BELINHA - O senhor o conhece, seu Manoel?
MANOEL - Não. Mas pelo jeito é mudo. (o desconhecido parece não ouvir a conversa que se passa)
MALAQUIAS - É, se ele não fala é bem possivel que seja mudo.
MANOEL - É mudo, está claro que é, eu conheçoos mudos só pelo olhar. Eu converso dois minutos com ele e seilogo.
MALAQUIAS - Pergunte a ele se qué bebê. Se ele disser que não, é mudo.
BELINHA - Enão pergunte, seu Manoel. (sai).
MALAQUIAS - Não, é a mim que compete. (vai ao desconhecido) - Ó moço você é mudo? Hein? De nascença... ah, bom... qué bebê cachaça? Bem, vou providenciá. (durante esta fala o desconhecido não dá a menor importância, e apenas olha-o desdenhosamente) - Isso tudo se arranja.
MANOEL - O que foi que ele disse?
MALAQUIAS - Disse que não pode falá porque não fala, mas que se fazem muita questão, bebe um trago prá fazê a vontade. (Belinha entra à direita, traz um prato com doces e uma garrafa. O desconhecido come. Malaquias vem à mesa pega a garrafa e o copo sobe ao grupo e bebem tudo). Comê ele pode, mas bebê não. Mudo quando bebe, diz muitas besteiras, e isto aqui é famiá...
MANOEL - Muito bem comandante. Isto de mudos é perigo quando abrem a boca.
PASCHOAL - Io já vi um mudo na minha terra, que entrou na igreja e disse ao padre que ele não sabia dizê a missa sem beber os vinhos, que tava nos copos dos artares.
BELINHA - Coitado, tem fome. (Belinha não tem tirado os olhos dele e Malaquias põe a garrafa vazia sobre a mesa).
MALAQUIAS - Bem pessoá. Vamo tocá... (Manoel pega a guitarra. Paschoal a sanfona ou violino, Malaquias o violão e afinam. Começa uma choradeira de música desafinada).
PASCHOAL - Vamos deixar tocar aquela valsa.. "Tatu"...
MANOEL - Ah, o tatu subiu no pau?
MALAQUIAS - Não, a minha predileta. "Perdão Emília", se roubei teus ovos. Oh, beleza de ópera.
PASCHOAL - Má, que ópera... Perdono Emilia não é ópera.
MALAQUIAS - É ópera... Pode não sê pra ti, mais porém pra nóis é ópera. Tu pensa que tá na Intália?
PASCHOAL - Má por que? Na Itália...
MALAQUIAS - Porque na Intália, valsa é valsa toda a vida, e aqui não é assim; há sempre as promoção.
MANOEL - Pois é isso... antão...
PASCHOAL - Má, você me deixa dá risada, Malaquias.
MALAQUIAS - Pode ri, depois toca.
BELINHA (ao desconhecido) - Sente-se melhor? (o desconhecido acena com a cabeça, olhando-a)
BELINHA - Tão triste, sofre? Coitado... (entram Major Prudêncio e D. Hortência).
PRUDÊNCIO - Pois é, D. Hortência, este ano sempre tivemos a festinha de S. João.
HORTÊNCIA - É verdade, major. Se Belinha não festejasse este ano, S. João não festejava mais. Foi o que ela me disse.
PRUDÊNCIO - Pois é, D. Hortência, este ano sempre tem muito gasto. Nunca o nosso S. João teve uma festinha tão boa. E outra coisa, D. Hortência. É sempre certo que a pequena vai se casar com o Arthur?
HORTÊNCIA - A minha netinha, major, não olha para tão alto.
PRUDÊNCIO - Pois olhe que eu fazia muito gosto. (no instrumento, tocam alguma coisa muito desafinada).
MALAQUIAS - Eita valsa chorosa... Isto é eu, é tocá.
HORTÊNCIA - Meu Deus, o que é isso?
PASCHOAL - É uma ópera.
HORTÊNCIA - É o que? Ópera?
MANOEL - É o que se poude arranjaire.
HORTÊNCIA - Vão tocar lá para a sala do baile, que a rapaziada não pode esperar...
MALAQUIAS - Isso. Vamo prá sala. Vamo entrá. (entram na Esquerda. Na saída dos músicos entra Arthur, tipo comônio, pouco elegante).
MALAQUIAS - Não, é a mim que compete. (vai ao desconhecido) - Ó moço você é mudo? Hein? De nascença... ah, bom... qué bebê cachaça? Bem, vou providenciá. (durante esta fala o desconhecido não dá a menor importância, e apenas olha-o desdenhosamente) - Isso tudo se arranja.
MANOEL - O que foi que ele disse?
MALAQUIAS - Disse que não pode falá porque não fala, mas que se fazem muita questão, bebe um trago prá fazê a vontade. (Belinha entra à direita, traz um prato com doces e uma garrafa. O desconhecido come. Malaquias vem à mesa pega a garrafa e o copo sobe ao grupo e bebem tudo). Comê ele pode, mas bebê não. Mudo quando bebe, diz muitas besteiras, e isto aqui é famiá...
MANOEL - Muito bem comandante. Isto de mudos é perigo quando abrem a boca.
PASCHOAL - Io já vi um mudo na minha terra, que entrou na igreja e disse ao padre que ele não sabia dizê a missa sem beber os vinhos, que tava nos copos dos artares.
BELINHA - Coitado, tem fome. (Belinha não tem tirado os olhos dele e Malaquias põe a garrafa vazia sobre a mesa).
MALAQUIAS - Bem pessoá. Vamo tocá... (Manoel pega a guitarra. Paschoal a sanfona ou violino, Malaquias o violão e afinam. Começa uma choradeira de música desafinada).
PASCHOAL - Vamos deixar tocar aquela valsa.. "Tatu"...
MANOEL - Ah, o tatu subiu no pau?
MALAQUIAS - Não, a minha predileta. "Perdão Emília", se roubei teus ovos. Oh, beleza de ópera.
PASCHOAL - Má, que ópera... Perdono Emilia não é ópera.
MALAQUIAS - É ópera... Pode não sê pra ti, mais porém pra nóis é ópera. Tu pensa que tá na Intália?
PASCHOAL - Má por que? Na Itália...
MALAQUIAS - Porque na Intália, valsa é valsa toda a vida, e aqui não é assim; há sempre as promoção.
MANOEL - Pois é isso... antão...
PASCHOAL - Má, você me deixa dá risada, Malaquias.
MALAQUIAS - Pode ri, depois toca.
BELINHA (ao desconhecido) - Sente-se melhor? (o desconhecido acena com a cabeça, olhando-a)
BELINHA - Tão triste, sofre? Coitado... (entram Major Prudêncio e D. Hortência).
PRUDÊNCIO - Pois é, D. Hortência, este ano sempre tivemos a festinha de S. João.
HORTÊNCIA - É verdade, major. Se Belinha não festejasse este ano, S. João não festejava mais. Foi o que ela me disse.
PRUDÊNCIO - Pois é, D. Hortência, este ano sempre tem muito gasto. Nunca o nosso S. João teve uma festinha tão boa. E outra coisa, D. Hortência. É sempre certo que a pequena vai se casar com o Arthur?
HORTÊNCIA - A minha netinha, major, não olha para tão alto.
PRUDÊNCIO - Pois olhe que eu fazia muito gosto. (no instrumento, tocam alguma coisa muito desafinada).
MALAQUIAS - Eita valsa chorosa... Isto é eu, é tocá.
HORTÊNCIA - Meu Deus, o que é isso?
PASCHOAL - É uma ópera.
HORTÊNCIA - É o que? Ópera?
MANOEL - É o que se poude arranjaire.
HORTÊNCIA - Vão tocar lá para a sala do baile, que a rapaziada não pode esperar...
MALAQUIAS - Isso. Vamo prá sala. Vamo entrá. (entram na Esquerda. Na saída dos músicos entra Arthur, tipo comônio, pouco elegante).

CENA IV
Arthur, Prudêncio, Hortência e Belinha
ARTHUR - Boa noite, major. Boa noite D. Hortência.
PRUDÊNCIO - Boa noite, Arthur. Então vieste dançá um bocadinho, hein?
ARTHUR - É preciso major, distrair um pouco.
PRUDÊNCIO - Mengana não... então, quando temo os doce, rapaz?
ARTHUR - Temos tempo, major.
HORTÊNCIA - São noivos há dois meses.
ARTHUR (vendo o desconhecido) - Quem é esse homem?
PRUDÊNCIO - Oie, inda não tinha arreparado.
HORTÊNCIA - Nem eu... quem será?
ARTHUR - Não o conheço.
HORTÊNCIA - Deve ser algum pobrezinho que passava... (vai ao desconhecido) - Deseja alguma coisa? (desconhecido faz gesto negativo, e Belinha entra - desconhecido sai).
BELINHA - Oh, Arthur... boa noite, até que enfim vieste.
ARTHUR - Então, por que não havia de vir? (entram na esquerda) - Com licença, major.
PRUDÊNCIO - À vontade rapaiz... advirtam-se bastante. Tão na idade.
FELÍCIO (entra à direita correndo) - Seu major... divinha quem chegou na Fazenda?
PRUDÊNCIO - Óia, prá falá a verdade, não posso adivinhá.
FELÍCIO - Nhô Mário, seu filho. (sai)
PRUDÊNCIO - O meu fio Mário? Tá vendo, D. Hortência? O que custava ele me apreveni?
HORTÊNCIA - Chegou com saúde é quanto basta, major.
PRUDÊNCIO - Aquele rapaiz é levado dos diachos... peralta como ele só.,.. as veis passa mais de treis meis sem me escrevê... Só se lembra disso quando qué dinheiro.
HORTÊNCIA - Isso é próprio da idade, major.
PRUDÊNCIO - Qual o que, a idade é prá tê juizo, e esse é mesmo leviano. Por falá nisso, D. Hortência, aquele seu neto que desapareceu inda criança... Nunca mais soube dele?
HORTÊNCIA - Nunca mais. Perdi as esperanças.
PRUDÊNCIO - Pode sê que um dia se lembre da famia e vorta.
HORTÊNCIA - Qual, já pedi tanto a Deus... Já fiz tantas promessas, e Deus não me ouviu ainda.
PRUDÊNCIO - Por que não vai falá com o Chico Curandeiro? Oie que o diacho do homem tem discubrido cada coisa que santo nenhum tem dado jeito.
HORTÊNCIA - Não creia nisso major. O que Deus não fizer ninguém faz. Depois de Deus há coisas que eu creio, essas me garantiram que ainda hei de vê-lo um dia antes de morrer.
PRUDÊNCIO - Oie que depois de Deus, só o Chico curandeiro.
HORTÊNCIA - Agora há pouco acabei de acender uma vela a S. João, para que me dê notícias do meu netinho. (o desconhecido torna a aparecer, mas não ouvindo nada do diálogo dos dois).
PRUDÊNCIO - Houve tempo que cheguei a pensar que ele tinha sido devorado pelas onças. Tinha tantas por aqui nesse tempo...
HORTÊNCIA - O seu desaparecimento até hoje é um verdadeiro mistério. O espírito do pai Jacob diz que não foi roubado, mas ele está vivo e tem sofrido muito...
PRUDÊNCIO - Já fais bem uns 28 anos que ele desapareceu.
HORTÊNCIA - Desapareceu aos quatro anos de idade.
PRUDÊNCIO - Sua filha sofreu muito com a perca do filho.
HORTÊNCIA - Morreu logo depois do desaparecimento do filho. Depois morreu seu marido, meu genro.... desastre sobre desastre. Ficou Belinha pequenina ainda, e Deus fez com que eu vivesse para cria-la e para ela tenho vivido, para esse anjo. O que seria dela sem mãe, sem seu pai, sem seu irmão e sem mim? No dia em que ela for feliz, posso morrer tranquila e satisfeita.
PRUDÊNCIO - Não pense nisso D. Hortência.
HORTÊNCIA - Penso, major. Já me pesam os anos.
PRUDÊNCIO - Belinha casando, a senhora viverá mais descansada.
HORTÊNCIA - Esse é o meu desejo. Vê-la feliz, pois ela bem que merece.
PRUDÊNCIO - Lá isso é verdade. É uma menina prendada, muito juizo e muito trabalhadeira. Bem, D. Hortência, vou me chegando até a casa prá vê o rapaiz, e logo mais viremos cá prá assisti o baile. Mário também virá. Ele dá o cavaco por uma brincadeirinha.
HORTÊNCIA - Venha major, e traga o Sr. Mário também. Estou ansiosa para vê-lo.
PRUDÊNCIO - Bem, até logo, D. Hortência.
BELINHA (entrando) - O que? O major vai embora?
PRUDÊNCIO - Eu volto logo, Belinha. Tenho ue ir em casa porque o Mário chegou e está à minha espera.
BELINHA - Ah, o Sr. Mário veio de São Paulo?
HORTÊNCIA - Felício trouxe a notícia agora.
PRUDÊNCIO - Logo tou aqui com ele. Té logo menina Belinha. Té logo, D. Hortência. (sai)
HORTÊNCIA (Belinha fica pensativa) - O que tens, Belinha? Ficaste triste?
BELINHA - Não, vovozinha, não é nada.
HORTÊNCIA - Estarás doente, minha filha?
BELINHA - Não sei o que me adivinha o coração, nem sei explicar o que é isto. Uma tristeza invadiu-me rapidamente.
HORTÊNCIA - Estarás doente, minha filha?
BELINHA - Não... não é nada.
HORTÊNCIA - Essa repentina mudança... é para estranhar.
BELINHA - Já passou... dê-me um beijo.
HORTÊNCIA - É a primeira vez que te vejo assim, tu tens alguma coisa ue te preocupa?
BELINHA - Não, vovó, eu nem sei o que sinto, mas o que lhe posso garantir é que não é nada.
HORTÊNCIA - Arthur disse-te alguma coisa que não te agradou?
BELINHA - Não vovó, não é nada... (reparando). Foi embora o homem que aqui estava?
HORTÊNCIA - Creio que sim. Estava conversando com o major e nem o vi retirar-se.
BELINHA - Senti uma tristeza ao vê-lo. Como parecia sofrer... tinha fome... dei-lhe doces, comeu com olhar penetrante que me fez estremecer o coração... quis perguntar-lhe muitas coisas, porém o coitadinho é mudo.
HORTÊNCIA - Infeliz. Talvez sem casa, sem família... e ele, o meu netinho... onde estará a esta hora? Meu Deus, dai-me o consolo de ver o meu neto antes de morrer.
BELINHA - Ora vovó, agora é que a senhora que fica triste? Não pense nisso, o futuro a Deus pertence.
HORTÊNCIA - Tens razão, seja o que Deus quiser.
MALAQUIAS (entra) - O pessoá pede prá se iniciá o baile e V. Excia senhorita Belinha que é a rainha das festeiras, comece a dançar em primeiro com as autoridade de todas as imunidade. Disse.
BELINHA - Sim, vamos principiar com os que estão.
MALAQUIAS (vai à direita e fala para dentro) - Pessoá, pode afiná os mavioso instrumento (entram pela direita, diversos rapazes e meninas do campo) Viva S. João! Viva a festeira!... Viva eu!
MALAQUIAS - Pessoá... em nome da morá e dos pacato que se qué diverti, eu venho em nome de todos das função em que estou revestido, pedi que todo aquele que vié disposto a peturbá a orde púbrica, que diga já antes de começá a dança que é prá lhe metê o facão, e pô-lo prá fora em paz... Quem vié disposto a briga, que levante o dedo. O que não vié disposto a fazê força, pode dançá... Disse.
(o desconhecido durante a fala de Malaquias está ao fundo. Felício, disfarçadamente olha-o com muita atenção. Malaquias tira o facão e vai ao fundo até Felício que está alheio à cena de Malaquias, esbarrando-lhe com o facão)
MALAQUIAS - Então tu, vagabundo... qué brigá?
FELÍCIO - Eu? Uai... brigá... eu não...
(Felicio sai correndo. Malaquias vai ao desconhecido com o facão na mão em atitude provocadora. O desconhecido olha-o firme, disfarça voltando, a orquestra toca a primeira contra dança. D. Hortência entra e vê o desconhecido; olha-o demoradamente).
HORTÊNCIA - Pobrezinho... quem será este rapaz?
(o desconhecido vai à porta do baile, olha para dentro demoradamente. Entram pela esquerda o major Prudêncio e Mário, rapaz elegantemente vestido. O desconhecido sai. Mário vai até à porta do baile, e saúda).
CENA V
Os mesmos e Mário
MARIO - Boa noite, meus senhores (todos vêm ao seu encontro)
HORTÊNCIA (Saindo da Capelinha e indo a Mario) - O bom filho à casa torna. Então, como foi de São Paulo?
MÁRIO - Bem, D. Hortência... a senhora sempre forte, hein? E Belinha? Onde está que não a vejo? (Belinha entra com Arthur. Mário ao vê-la tem uma exclamação de alegria juntamente com Belinha) - Oh, salve a festeira... A mais bela das sertanejas... A FLOR DA MATA.
BELINHA - Bons olhos o vejam, senhor Mário.
MÁRIO - Não gosto que me trates por senhor e sim por Mário, como antigamente me tratavas.
BELINHA - Na, não... que lembrança foi essa de vir hoje?
MÁRIO - Então hão haveria de vir? Quando a festeira és tu? Olha quem está aqui? O Arthur... como vai?
ARTHUR - Bem, senhor Mário
PRUDÊNCIO - Ah, sabes duma novidade? O Arthur vai casar... adivinha com quem?
MÁRIO - Vai casar, o Arthur? E quem é a noiva?
PRUDÊNCIO - Com a Flor da Mata, a Belinha.
MÁRIO - O que? Isso é verdade?
ARTHUR - É sim senhor Mário.
MÁRIO - Muito bem, meus parabens... (à Belinha) - Quer-me para padrinho, D. Belinha?
BELINHA - Obrigado. Nós já temos padrinho.
MÁRIO - Posso saber quando será o casamento?
BELINHA - Muito breve.
ARTHUR - Quer dar-nos a honra de assistir?
MÁRIO - Se não me querem para padrinho, ao menos serei um dos convivas.
BELINHA - Pois desde já fica convidado.
MÁRIO - Muito obrigado, Belinha... Mas então não se dança? Vamos rapaziada... viva a alegria... viva a festeira!
BELINHA - Obrigada, senhor Mário. (entram todos para o baile, menos Mário e Belinha)
MÁRIO - Então é verdade Belinha?
BELINHA - O quê, senhor Mário?
MÁRIO - Que vai se casar...
BELINHA - Eu já não lhe disse?
MÁRIO - Sim, já me disseste (pausa, e vendo o desconhecido entrando...) Quem é este homem?
ARTHUR - Quer dar-nos a honra de assistir?
MÁRIO - Se não me querem para padrinho, ao menos serei um dos convivas.
BELINHA - Pois desde já fica convidado.
MÁRIO - Muito obrigado, Belinha... Mas então não se dança? Vamos rapaziada... viva a alegria... viva a festeira!
BELINHA - Obrigada, senhor Mário. (entram todos para o baile, menos Mário e Belinha)
MÁRIO - Então é verdade Belinha?
BELINHA - O quê, senhor Mário?
MÁRIO - Que vai se casar...
BELINHA - Eu já não lhe disse?
MÁRIO - Sim, já me disseste (pausa, e vendo o desconhecido entrando...) Quem é este homem?
BELINHA - Ah, é um pobrezinho mudo que apareceu hoje, Ah!
MÁRIO - Dormindo aos pés da cruz...
BELINHA - A cruz é o amparo dos que sofrem.
MÁRIO - Então de hoje para o futuro ela será o meu amparo.
BELINHA - O senhor sofre?
MÁRIO - Muito. (ao desconhecido acordado) - Também sofres?
BELINHA - E o que o faz sofrer Mário? Posso saber?
MÁRIO - Sempre te amei, Belinha... queria que fosses minha... venho aqui com o coração cheio de esperanças e tu me dás essa triste notícia...
BELINHA - Ora, senhor Mário...
MÁRIO - É verdade, Belinha... amo-te.
BELINHA (com medo) - Cale-se, por piedade.
MÁRIO - Eras minha, só minha...
BELINHA (sempre com medo) - Meu Deus, cale-se.
MÁRIO - Diga que me amas!
BELINHA - Não. Oh! Não !
MÁRIO (segurando-a por um braço) - Não casarás com ele... te juro.
BELINHA (desesperando-se) - O senhoir está louco?
MÁRIO - Sim... Louco de amor... (Belinha, entra. Mário entra em seguida; grande alegria no baile)
MÁRIO - Dormindo aos pés da cruz...
BELINHA - A cruz é o amparo dos que sofrem.
MÁRIO - Então de hoje para o futuro ela será o meu amparo.
BELINHA - O senhor sofre?
MÁRIO - Muito. (ao desconhecido acordado) - Também sofres?
BELINHA - E o que o faz sofrer Mário? Posso saber?
MÁRIO - Sempre te amei, Belinha... queria que fosses minha... venho aqui com o coração cheio de esperanças e tu me dás essa triste notícia...
BELINHA - Ora, senhor Mário...
MÁRIO - É verdade, Belinha... amo-te.
BELINHA (com medo) - Cale-se, por piedade.
MÁRIO - Eras minha, só minha...
BELINHA (sempre com medo) - Meu Deus, cale-se.
MÁRIO - Diga que me amas!
BELINHA - Não. Oh! Não !
MÁRIO (segurando-a por um braço) - Não casarás com ele... te juro.
BELINHA (desesperando-se) - O senhoir está louco?
MÁRIO - Sim... Louco de amor... (Belinha, entra. Mário entra em seguida; grande alegria no baile)

DESCONHECIDO (vem à porta para dentro) - Reina alegria em todos os corações, só o meu continua envolto na mais profunda tristeza... Acalma-te infeliz! Tu não podes ter alegria... Continua palpitando na triste desilusão da vida... E assim vou andando até encontrar os meus... Oh, Deus, que triste sina a minha... (indo à capelinha) - São João, é esta a tua noite, noite dos milagres. Em fervorosa súplica te peço, que me guies até junto de minha mãe... Um raio de teu fulgor me ilumine na estrada... A estrada... (olhando a cruz) - É esta... (caindo abraçado à cruz). É esta... (chora agarrado à cruz e cai de joelhos chorando... a música continua até o fim).
FIM DO PRIMEIRO ATO
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