FLOR DA MATA III


peça teatral

          Neste Terceiro e último Ato da peça teatral "Flor da Mata", a qual já comentamos e apresentamos desde o seu Primeiro Ato, agora chega ao seu epílogo, ou parte final.  Esta peça, foi mesclada entre o drama e a comédia.  O primeiro ato, foi direcionado mais para a comédia, mas esta comicidade está presente no decorrer dos três atos, devidamente dosada para os dois lados (drama e comédia)


          Ser engraçado ou cômico, não é apenas contar piadas, ou então mostrar situações ou bordões já conhecidos.  Não.  Nesta peça teatral, o humor é inteligentemente colocado, e por vezes sutil, no decorrer da estória.  A encenação desta peça, é um entretenimento que promete agradar aos mais exigentes apreciadores do gênero. Para melhor entendimento, não deixem de acompanhar do princípio ao fim, uma bela estoria: Flor da Mata.

TERCEIRO ATO
(O mesmo cenário dos atos anteriores.  Belinha sentada junto à mesa da direira, costura.  Paschoal também junto à mesa fala com Belinha.  É de tarde, vai escurecendo aos poucos).

CENA I
Paschoal e Belinha

PASCHOAL  - Tuto fu mal entendido, o senhor Mário falava de despeito.
BELINHA  - Ah, quanto me fez sofrer aquela infâmia.  Todos nos viravam as costas.  Todos se afastaram de nós.
PASCHOAL  - Meno io.
BELINHA  - Não sei com que interesse Mário fez isso conosco.

PASCHOAL  - Maldade delo.  E como passou esta noite D. Hortência?
BELINHA  - Hoje graças a Deus passou melhor.  Ontem, tarde da noite pensei que morria a minha avózinha.  Se não fosse esse pobre rapaz que aí está, tão prestimoso... às vezes penso que ele faz parte da nossa família.
PASCHOAL  - Coitado, é bono rapaz.

CENA II
Os mesmos, Felício, depois o Desconhecido

FELÍCIO (entra com uma garrafa de leite)  - Oh, seu Paschoal, como vai, mulato?
PASCHOAL  - É io que sono mulato?  Má que negro burro.
FELÍCIO  - Isso de dizê mulato, é um modo de falá.  É um tratamento de família.  Como vai, D. Belinha?  /Como vai nhá Ortência?  Vai mais mior?
BELINHA  - Obrigada, Felício, graças a Deus está melhor.

FELÍCIO  - Eu trouxe esta vasía cheia de leite de cabra.  Prela faz bem leite de cabra.
PASCHOAL  - Faz muito bene leite de cabra.
FELÍCIO  - Sim, mas precisa sê bão, tar  quar  este.  Este sim que é bão leite de cabra macho... não é iguá ao da sua cabra.
PASCHOAL  - Ah.... então os leite da minha cabra não é bom?

FELÍCIO  - É... é bão.
PASCHOAL  - Io quando estive dolente do reumatismo, os Dr. me receitou os leite de cabra.  Io então comprei as cabras e tiro todo dia dois litro de leite dela.  Má tem dia que no dá dois litro, e tem dia que dá mais  e dia que não dá nata.
FELÍCIO  - Hoje é dia que ela vai dá memo um litro.

PASCHOAL  - Como sabes?
FELÍCIO  - Eu sei, eu tenho prática, eu sou filho dela.
PASCHOAL  - Ô negro sem vergonha, então tu rouba os leite da minha cabra.
FELÍCIO  - Eu não roubo, eu tiro com bons modo.
BELINHA  - Que é isso, Felício!

FELÍCIO  - Uai, que tem isso?  O seu Paschoá é camarada, ele não precisa tomá leite de cabra, ele tá muito gordo.  A D. Hortência precisa mais do que ele.  (à Belinha) - Bem, D. Belinha, eu vô vê D. Hortência, depois vou embora que se o seu Mário sabe que eu tô aqui vira bicho.

PASCHOAL  - Ele não vai mais para São Paulo?
FELÍCIO  - Home, Manoel... não sei, desta veis ele tá demorando, não sei o que ele tá querendo aqui
DESCONHECIDO (entra)  - Boa tarde.
BELINHA  - Boa tarde.
PASCHOAL  - Boa tarde.
DESCONHECIDO  - Como vai passando a nossa doente?

BELINHA  - Agora está mais sossegada, graças a Deus.  O senhor foi à Fazenda do coronel Pinto?
DESCONHECIDO  - Fui.  Logo que D. Hortência possa levantar-se poderemos nos transportar para lá, onde espero que não será achincalhada.
PASCHOAL  - Io sempre estimei D. Belinha e D. Hortência, e nunca acreditei nas calunia que levantaram.
FELÍCIO  - Oie D. Belinha, o senhor Mário gosta é da senhora.

BELINHA  - De mim?  Não, se ele gostasse de mim não fazia o que fez... que vergonha, meu Deus.
DESCONHECIDO  - Não pense mais nisso, Belinha... quando sair daqui tudo há de mudar.  A vida tornará à feliz normalidade de outros tempos.  Verá, será feliz.
BELINHA  - Serei feliz... serei feliz...

MALAQUIAS (entra)  - Sarve todos os presentes ue aqui se acham reunidos na mais perfeita harmonia.
FELÍCIO  - Disse... (sai correndo).
MALAQUIAS  - Como passa a D. Hortência?
BELINHA  - Felizmente está melhor.
MALAQUIAS (ao desconhecido)  - E o sinhô, já tá falando milhó?

DESCONHECIDO  - Não, agora falo pior.
MALAQUIAS  - Isso é mau... o senhor tá se dando bem, com os nossos ares tonificantes?
DESCONHECIDO  - Menos mal.
MALAQUIAS  - Pois eu sinto muito, porém eu venho incumbido de preveni-lo para sair daqui da Fazenda por ordem superior.  Disse.

DESCONHECIDO  - E quem foi que o incumbiu dessa ordem?
MALAQUIAS  - O major Prudêncio da Purificação.
DESCONHECIDO  - Pois diga lá ao major e ao filho, que logo que D. Hortência estiver em condições de viajar sairemos das suas propriedades.
MALAQUIAS  - O major só faz questão que saia o senhor;  e eu, escolhido como autoridade competente lhe ordeno que se arretire o quanto antes para não sê preciso empregá a força armada. Disse.

PASCHOAL  - Com licença D. Belinha, vou ver D. Hortência.  (sai).
DESCONHECIDO  - Só sairei daqui quando D. Belinha e D. Hortência o ordenar.  Compreendeu? A mais ninguém obedecerei.
MALAQUIAS  - Nem a minha orde o senhor obedece?

DESCONHECIDO  - A mais ninguém, já disse.
MALAQUIAS  - Então vou tê que empregá a força armada.
DESCONHECIDO  - Não seja tolo.
MALAQUIAS  - Bem, vou mobilizá as força e principiá as hostilidade... Vamo tê nova confragação Européia.
DESCONHECIDO  - Repito, daqui só sairei quando elas me ordenarem.

MALAQUIAS  - Mas afiná, quem é o sinhô?
DESCONHECIDO  - Não sei quem sou.
MALAQUIAS  - Homessa... é singulá.  O sinhô não é daqui e como é que fica em casa de duas senhoras cuja reputação tá abalada?  (Felício entra e fica ao fundo)

DESCONHECIDO  - Proíbo-lhe que diga semelhante coisa.  Não repita.
BELINHA  - Senhor, peço-lhe, acalme-se... lembre-se da minha avózinha.
DESCONHECIDO  - Tem razão, D. Belinha, perdão.  Sr. Malaquias, pode ir dizer ao major que vou sair daqui. Diga também ao filho dele que não pense em continuar nas suas infâmias, perseguindo esta pobre criatura, porque muito longe que eu esteja, de lá velarei pela sua tranquilidade e ai dele se chego a saber que a maltrata.  Então voltarei e que trema da minha volta...

MALAQUIAS  - Faz muito bem em evitá a luta armada...
FELÍCIO (ao fundo)  - Disse.  (sai correndo)
DESCONHECIDO  - Não é o medo das suas armas que me faz partir... Belinha, parto para não agravar mais a sua situação.  Porém muito longe que eu esteja, estarei vendo ao pé de mim, minha irmã...
BELINHA  - Sua irmã... oh, quanto eu daria para que o fosse...

DESCONHECIDO  - O que, menina?
BELINHA  - Meu irmão...
DESCONHECIDO  - Então deixe-me chama-la por esse doce nome, minha irmã, minha querida irmã.
BELINHA  - Oh, como seria bom ter um irmão... então não seria escarnecida pelos outros.  Sou só com minha avózinha.

DESCONHECIDO  - Acredite, Belinha, a minha afeição por ti é desinteressada, juro-lhe por minha mãe que eu não sei onde se encontra... a quem procuro ansiosamente... E por ela lhe juro que o homem que a difamou tão covardemente, grita bem alto que mentiu como um miserável, e tem que casar contigo, caso a menina queira.  Já o teria obrigado a isso, ou já o teria morto, mas a menina não quis que assim o fizesse...

BELINHA  - Oh, não meu bom amigo, não quero que lhe faça mal.  Por sua mãe lhe peço.
DESCONHECIDO  - Já o amou?  Ama-o ainda?
BELINHA  - Oh sim... amei-o muito, porém agora eu o odeio.
DESCONHECIDO  - E Arthur?
BELINHA  - Não... não o amava, e agora é que sinto que não o amava.

DESCONHECIDO  - Era sua noiva...
BELINHA  - Sim, para fazer a vontade da vovó.  Tinha receio dela morrer e eu ficar só, desamparada, eu aceitei.  Porém ama-lo, não.
DESCONHECIDO  - E Mário?  Ama-o?

BELINHA  - Amo-o e odeio-o... É um misto de amor e ódio que não sei explicar... (chora)
DESCONHECIDO  - Não chore Belinha, não chore.  Deus na sua infinita misericórdia há de ajuda-la a subir o seu calvário.
BELINHA  - Não deve demorar-se mais aqui, meu bom amigo.  Parta, deixe-me só na minha tristeza. Temo que esse homem mau, perverso, cometa mais alguma baixeza.

DESCONHECIDO  - Não é a ele que eu temo.  Não são as ameaças desse homem que me intimidam, creia... O que eu temo é agravar mais a sua situação.  Porém nunca poderei afastar-me para muito longe.  O coração me prende aqui e por mais que lute comigo mesmo, não posso.
BELINHA  - Vou sentir a sua ausência.  Já me havia habituado a ti como pessoa da nossa família e terei saudades...

DESCONHECIDO  - Terá saudades... oh, como me faz palpitar o coração órfão de carinho, descrente de tudo nesta vida!  Essa palavra sua me fará viver.  Por que sei que não sou só no mundo.  E farei tudo, para vê-la feliz e respeitada.
BELINHA  - Obrigada meu bom amigo, pelo seu desinteressado afeto. Procure sua família e viva para ela.

DESCONHECIDO  - Minha família... Já perdi todas as esperanças.  Doravante a minha família é a senhora e sua avozinha.
BELINHA  - Tenha fé em Deus que há de encontra-la.
DESCONHECIDO  - Onde... onde...
BELINHA  - Quem sabe se vive bem perto daqui...

DESCONHECIDO  - Há tantos anos que a procuro.  E ninguém sabe me dar notícias de minha mãe e de meu pai.
BELINHA  - E não tem mais nenhum irmão?
DESCONHECIDO  - Não sei, não me lembro... eu era tão criança.
BELINHA  - E como passou tanto tempo sem os procurar?

DESCONHECIDO  - Até certa idade, vivi em companhia de uma família que me educou... Vivia feliz, lembrava-me de minha mãe, de meu pai, de minha avó, porém procurava esquecer... mais tarde quando senti a necessidade de os ver e disposto a procura-los, aconteceu-me uma fatalidade... Fiquei preso... Matei um homem, fui condenado a 10 anos de prisão.  Na revolução de 5 de julho consegui fugir.  O meu primeiro pensamento foi procurar os meus.

BELINHA  - Meu Deus!  E por que foi condenado a tão bárbara pena?
DESCONHECIDO  - Por defender uma pobre criatura.  Uma menina que ia ser vítima da desonra.  Oh, não queira ouvir a minha estória que em nada pode interessar... Só o que digo é que não me perseguem os remorsos.  Condenaram-me porque não existiam provas a meu favor.
BELINHA  - E essa menina, nunca mais a tornou a ver?
DESCONHECIDO  - Nunca mais.

CENA III
Os mesmos, depois Mário e Malaquias

MÁRIO (Entra com Malaquias junto)  - Ainda aqui?
DESCONHECIDO  - Ainda, senhor Mário, estou de partida e peço-lhe que não me diga nada, porque posso esquecer que estamos em casa de D. Hortência e pode ser pior.
MÁRIO  - Não admito observações.  Saia da minha Fazenda e não volte mais aqui.  Se aqui o torno a encontrar mando-lhe meter o chicote.

BELINHA  - Oh, como é covarde até nas suas ameaças... (ao desconhecido) - Vá senhor, e quando eu e a minha avó estivermos em terras que não forem deste senhor, a nossa casa será a sua.
DESCONHECIDO  - E então Sr. Mário, ajustaremos as nossas contas.
MALAQUIAS  - Em nome da autoridade que represento está preso.
DESCONHECIDO  - Não o reconheço como tal, e sim como capataz deste senhor que não tem coragem de andar só.

MÁRIO  - Fora daqui, intruso.
MALAQUIAS  - Está duplamente preso por insultá a farda.
DESCONHECIDO  - Vá buscar o resto do destacamento.
MALAQUIAS  - O resto do destacamento é o Gregório 33, está doente e não pode vim.  O senhor vai só comigo.
DESCONHECIDO  - Não vou.

MALAQUIAS  - Bem, não precisa zangá... o sinhô vai se quisé;
DESCONHECIDO  - Sr. Mário, ouça bem o que vou lhe dizer... eu me vou daqui, porque estou nas suas propriedades, porém muito longe que eu esteja, velarei por esta pobre criança e ai de ti se chego a saber que tentou novamente faltar-lhe ao respeito.
MÁRIO  - O que?  Ameaça-me?

DESCONHECIDO  - Não ameaço... previno-o.
MÁRIO  - E se eu lhe disser que a Belinha vai ser minha?
DESCONHECIDO  - Pelo casamento sim, eu irei junto do altar pedir a Deus para que abençoe essa união.  Mas do contrário, não tente,  porque muito longe que eu esteja, virei mata-lo.
MÁRIO  - Causa-me riso.

DESCONHECIDO  - D. Belinha... adeus.  Recomenda-me à sua avozinha.  (a Mário que conversa ao fundo com Malaquias) - Não se esqueça do que lhe disse.  Adeus.
MÁRIO  - Malaquias, acompanha-o até fora da Fazenda, temo que ele se oculte por aí e mais tarde volte novamente.
MALAQUIAS (saindo)  - Vou observá a retirada do inimigo.  (sai)

MÁRIO  - Muito bem, D. Belinha... com que então arranjou um defensor?
BELINHA  - Defensor, disse bem.  Ai de mim se não fosse ele, que só me tem defendido da onça bravia e sanguinária que tentou aniquilar-me que quase fez duas vítimas.
MÁRIO  - A onça sou eu, não é assim?
BELINHA  - Sim, és tu... a quem odeio.

MÁRIO  - E a quem amas.
BELINHA  - Não, não te amo.  (chora)  (à parte)  - Eu amo-o, desgraçada.
MÁRIO  - Dize que me amas...
BELINHA  - Não!  Saia da minha presença.
MÁRIO  - Bem, sairei.  (sai por um momento)

BELINHA  - Meu Deus, dai-me forças... protegei-me.
PASCHOAL (entra na casa)  - D. Belinha... boa noite, até amanhã.
BELINHA  - Boa noite seu Paschoal.  Lembranças à sua filha.
PASCHOAL  - Obrigado, até amanhã.  (sai)
MÁRIO (observa a saída de Paschoal; há uma grande pausa, vem à Belinha que chora) - Belinha...

BELINHA  - Quem é?  Que quer?  Retire-se daqui, a sua presença me causa nojo.
MÁRIO  - Não fales assim e ouve-me, Belinha.  Pois tu não compreendeste que te amo, que te quero?
BELINHA  - O senhor é rico e entende que nós os pobres temos que satisfazer os seus caprichos?  Engana-se.

MÁRIO  - Tudo farei, descerei a tudo, cometerei as maiores infâmias as maiores baixezas para possuir-te...
BELINHA  - E foi para dizer isso que expulsou daqui o homem que me defendia?
MÁRIO  - Não, não foi para isso... É porque tinha ciúmes desse homem que estava junto de ti como um perdigueiro.  E eu não quero.

BELINHA  - E agora depois dele longe continua sua infâmia... não é verdade?
MÁRIO  - É...
BELINHA  - Oh, Deus... quanta infâmia...

MÁRIO  - Não, Belinha... eu te amo... (vem a ela, toma-a nos braços, beija-a, ela luta para esquivar-se, e vendo-se vencida grita por socorro.  D. Hortência, aparece à porta e vendo a cena dá um grito e cai.  Mário como um animal a nada atende.  O Desconhecido aparece e dá um grito selvagem.  Agarra-o, e Mário ao vê-lo grita.  O Desconhecido subjuga-o, amarra-o e vai ao fundo gritando).



CENA IV
O Desconhecido, Belinha, Mário, D. Hortência e Malaquias

DESCONHECIDO  - Venham ver... venham ver a onça.
MALAQUIAS  -  Uai... ocê tá aqui outra vez?
DESCONHECIDO  - Vim prender a onça.
MALAQUIAS  - A onça?  Onde é que tá a onça?
DESCONHECIDO  - Está ali, não a vê?

MALAQUIAS (dá um pulo)  - Ah, não brinca.
DESCONHECIDO  - Está aqui a onça.
MALAQUIAS  - O... o seu Mário! ...
DESCONHECIDO  - Sim, ele.  Vá chamar todos para o verem.
MALAQUIAS  - Ah, sorta ele, coitado.

DESCONHECIDO  - Não.  Que venham todos.
MÁRIO  - Escute,  eu quero casar com Belinha... Não me julgue mal.
DESCONHECIDO  - Pois isso há de dizê-lo perante todos... e dizer também que mentiu como um vilão... que esta criatura é pura como o orvalho da madrugada.  Depois veremos se o senhor é digno dela.
HORTÊNCIA  - Meu Deus... o que aconteceu?

BELINHA  - Vovó... o que tem vovozinha?
DESCONHECIDO  - Nada,menina... não te preocupes.  Já está boa.
HORTÊNCIA  -  Belinha, minha filha.  O que aconteceu?
BELINHA  - Nada, vovó, não foi nada.
HORTÊNCIA  - O senhor Mário aqui?  O que foi, meu Deus?

MÁRIO  - Perdão, D. Hortência... quero reparar a minha falta, quero casar com Belinha.
HORTÊNCIA  - Isso é verdade, senhor Mário?
MÁRIO  - Juro-lhe que sempre a amei.
DESCONHECIDO  - Belinha, minha irmãzinha... quer casar com ele?
HORTÊNCIA  - Obrigada, senhor... Que vejo?  Este sinal?  Por caridade, senhor, diga-me o seu nome.

DESCONHECIDO  - Chamo-me Álvaro.
HORTÊNCIA  - Álvaro, será possivel? ...é ele, o meu querido neto... É este o teu irmão...
BELINHA  - Quem vovó?
DESCONHECIDO  - Eu sou o seu irmão?  Será possível, meu Deus?
HORTÊNCIA  - Sim, és o meu Álvaro... desaparecido quando era criança...

DESCONHECIDO  - Por isso o coração me prendia aqui... Sim... a lembrança me volta... É aqui o lugar, eu brinquei tanto quando era pequenino... o cruzeiro... a minha avozinha... oh, minha querida mãe, porque não estás aqui também para a minha ventura ser completa... Oh, diga-me onde ela está? Onde está minha mãe? 
HORTÊNCIA (aponta para o céu)  - No céu, meu filho.
DESCONHECIDO (com dor)  - Minha mãe morreu?  Ah...  (chora, pausa)

HORTÊNCIA  - Sim, meu filho.  Há muitos anos... Belinha, minha netinha já não somos sós no mundo;  é este o teu irmão... Álvaro.
BELINHA  - Meu irmão... meu querido irmão...
DESCONHECIDO  - Deus quis que na tua grande dor eu aparecesse para te ajudar a conduzir a tua cruz minha querida irmã.

HORTÊNCIA  - Belinha, o Sr. Mário deseja ser teu esposo.  Perdoa-lhe minha filha... ele te ama.
MÁRIO  -  Perdão, Belinha...  Perdoe-me Sr. Álvaro, e consinta no meu casamento com Belinha.
DESCONHECIDO  - A alegria de haver encontrado a minha família, me faz perdoar todas as ofensas...  Se é da vontade de minha irmã sejam felizes.
HORTÊNCIA  - Agora posso descansar em paz... minha netinha é feliz... meu neto... vi-o como tantas vezes pedi a Deus.  E este é o dia mais feliz da minha vida... A minha filha deve sorrir no céu.
teatro


CENA V
Os mesmos, Prudêncio, Malaquias e Bonifácia

PRUDÊNCIO (entra com Malaquias e Bonifácia)  - Meu filho... onde está meu filho?
MÁRIO  - Estou aqui, meu pai.
PRUDÊNCIO  - O que foi que aconteceu?
MÁRIO  - O que eu desejava, meu pai.  Belinha vai ser minha esposa, consente?
PRUDÊNCIO  - Era esse o meu desejo, filho... a mais linda flor que aqui nasceu era justo que tu a conhecesses.  Não é muito longe que a felicidade está, às vezes é bem pertinho da porta.

HORTÊNCIA  - Major, apresento-lhe o meu neto, há 28 anos desaparecido, o meu Álvaro.
PRUDÊNCIO  -  É este o seu neto?  Como tá crescido... Dá cá um abraço, rapaz...
DESCONHECIDO  - Com todo gosto, major e muito lhe devo por tudo que fez por minha família.
PRUDÊNCIO  - Ora, não falemos nisso.  Belinha, dá cá um abraço... Meu filho aqui tens a Flor da Mata, é tua.  Sejam felizes é este o meu desejo.  Malaquias, avisa a rapaziada para a festa desta noite.

MALAQUIAS  - Majó, para que a festa seja completa, eu vô fazê um pedido grandioso.
PRUDÊNCIO  - Pode pedi, Malaquias, pode pedi.
MALAQUIAS  - Majó, eu pretendo povoá o solo.  E na qualidade de brasileiro patriota, venho pedi a mão de sua pupila Bonifácia.  Disse.

PRUDÊNCIO  - Home, Malaquias, eu vou falá com ela.  Se ela quizé pode casar... Pois casa.  Não terá mais ninguém por aí prá casá?  Tá vendo, D. Hortência, como tá tudo adiantado?  Até parece fila de cinema. Precisa muito cuidado senão eles tem netos antes de ter filhos.
MÁRIO  - Realizou-se o meu sonho.  Aqui na mata onde nasci, é que estava a minha felicidade... a minha companheira de brinquedos infantis.  O sonho da minha vida.

BELINHA  - Sempre te amei, Mário... Meu irmão, a ti devo a minha felicidade.
DESCONHECIDO  - Casa, minha irmã e seja feliz.
HORTÊNCIA  - Oh, como Deus é bom... Tanto lhe pedi com tanta fé, tanto amor... e foi satisfeita a minha vontade.  Belinha será feliz porque é pura, tem a pureza da flor da mata... 

 (vai para a capela, ajoelha, ouve-se ao longe um cântico de roceiros que regressam do trabalho.  O côro termina e em resposta escuta-se uma voz de homem que canta uma trova que se relaciona com a flor da mata.  D. Hortência levanta-se, vem ao cruzeiro, abraça-se chorando.  Desconhecido vem a ela com muita bondade, e toma-a nos braços).

A minha netinha vai ser feliz... (chora de alegria). - O meu neto vivo e forte, a minha ventura é completa.
DESCONHECIDO  - Descansa no meu peito a tua santa velhice...  (Hortência chora encostada ao peito do Desconhecido.  Mário abraça Belinha.  Malaquias com a Bonifácia abraçam-se ao fundo.
Fazenda


FECHAM-SE AS CORTINAS LENTAMENTE
F I M

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