INGENUIDADE FATAL

Vou contar uma estória verídica. Os nomes das pessoas porém, são fictícios por uma questão óbvia. A grande São Paulo, Capital, é uma cidade que oferece muitos atrativos ao incauto e pacato cidadão do interior. Ele pode facilmente cair num engodo. Este é o foco na nossa estória.
... Alberto chegara a São Paulo cheio de ilusões, procedente de uma longínquo cidadezinha do interior. Pretendia ganhar a vida e estudar na capital paulista. Hospedara-se em casa de parentes. No princípio achou difícil ambientar-se numa cidade majestosa e turbulenta, porque seu coração ainda pertencia ao pequeno lugarejo que deixara distante.
Na sua terra natal, além da família, deixara também Maria, sua namorada, quase noiva, a quem tinha jurado fiel e eterno amor. Mas agora, precisava encarar com responsabilidade uma vida nova, naquele mundo completamente diverso do seu. Nas ruas, o trânsito muito louco, Admirava-se da multidão ansiosa em atropelo, à procura de uma miragem que ele mesmo não conseguia descobrir.
Quiçá fosse a miragem coletiva, as próprias virtudes que Alberto trazia no seu íntimo, oriundas de uma cidadezinha provinciana ainda não poluída pela corrupção do crime e do sexo, tão inflamados naquela metrópole. São Paulo! Onde o atrativo, na maioria das vezes, é um engodo, que arrasta impiedosamente os incautos numa vida de disputas e interesses.

As "bocas quentes", o "canal", os "ganhos"... eram gírias que constituiam verdadeiro dialeto, e acessível tão-somente aos iniciados na vadiagem sórdida. Foi assim que Alberto, aos poucos, se deixou levar pela corrente maléfica. Começou frequentando as casas noturnas, os chamados night clubs, onde se apresentavam as badaladas go-go-girls...
Era deleitoso assisti-las, completamente nuas, dançando ao som envolvente de um musical erótico; seu bailado sensual, os movimentos insinuantes do corpo, ofereciam ao homem, a devassidão do sexo. No interior de tais boates, o ambiente é ardilosamente preparado para o entretenimento de seus frequentadores: a luz difusa, os efeitos luminosos e dezenas de grandes espelhos que refletem e multiplicam as bailarinas em diversos ângulos. Parece tudo exótico, excêntrico.
Alberto não estava acostumado. Nunca tinha visto semelhante permissividade, e tornou-se frequentador assíduo das go-go-girls. Em pouco tempo conheceu Lúcia, uma strip-teaser, com quem se envolveu, e por quem se apaixonou perdidamente. Com ela, Alberto experimentou pela primeira vez as delícias do sexo e a voluptuosidade feminina. Lúcia, mulher vivida e astuta, o persuadiu facilmente a dividir com ela o aluguel de um apartamento, e aí daria seguimento ao seu aprendizado libidinoso.
Lúcia ensinou-lhe todos os tipos de intimidades, "do jeito que o homem gosta", e Alberto sucumbiu ao prazer da carne. Seu instinto animalesco, anteriormente reprimido pela educação diferente e pueril que recebera, estava agora vigorosamente despertado, para dar vazão às vicissitudes insaciáveis do sexo.

Por tudo isso, ele acreditava cegamente naquele artificial sabor de liberdade, proporcionado por um amor meramente físico. Alberto aprendeu a ser sádico. Ele jactava-se em dizer palavras chulas, em exibir deu próprio corpo nu, sentindo-se um garanhão ante a companheira submissa, que, por sua vez, lhe simulava um gozo e um prazer que na realidade não sentia.
Mas a obsessão de Alberto era cega, e Lúcia era para ele uma deusa; o corpo bem feito da mulher era uma taça, onde ele bebia sofregamente do seu inebriante amor. Gelo e foto eletrizavam seus atos amorosos e, a cada momento, novas buscas, novas formas de prazer... E assim, noites e noites sucederam. Alberto já se desligara dos parentes. Agora, só se preocupava com suas noitadas, com a sua amante.
A hipocrisia, porém, é uma moeda falsa, que circula por pouco tempo. Fatalmente Alberto iria perceber, infelizmente tarde demais, que aquela forma de amor, aquela paixão materialista, despida de uma estrutura sentimental verdadeira, chegaria a uma fase de saturação. E quando ele se deu conta disso, sentiu um vazio profundo invadir-lhe a alma.
Mas agora já estava seriamente envolvido nessa vida complicada, que nem ele mesmo sabia explicar direito. E aconteceu, quando Lúcia, a deusa do strip-tease e de tantos homens, lhe anunciou que esperava um filho seu... Foi chocante a inesperada notícia. De repente, Alberto já não se interessa mais por Lúcia. A deusa havia se desencantado para ele. Lúcia, um mito, uma falsidade, que de verdadeiro não tinha sequer o nome. Lúcia era apenas um nome de guerra, para enganar seus fregueses, ocultar sua origem, ou sua vergonha.
Perseguido por tantos pesares, angustiado e aflito, Alberto enveredou pelo descaminho das drogas. Bebia. Mas nada disso devolveu-lhe a paz. Aquela paz, que um dia tivera nas mãos, deixara escapar. Se arrependimento matasse, Alberto seria agora um homem morto.
Saudoso de sua terra, lembrava-se agora de Maria, sua antiga namorada. Mas ele nem fizera caso das muitas cartas de amor que ela havia escrito com ternura, com tanta preocupação por ele, no seu silêncio, e na sua falta de notícias. Maria, tão pura, tão diferente, e tão bonita também... só agora reconhecia isso... Com certeza ainda permanecia ingênua e casta, tal como ele, quando recém-chegado a São Paulo.
Certamente, a sinceridade e honestidade de Maria ainda faziam com que ela esperasse por ele, ignorando suas desventuras. Mas não, ele já não poderia encarar Maria, depois do que havia feito; ele havia extirpado a raiz da sua educação conservadora, e agora, entre os dois, havia um abismo intransponível; de um lado, o comportamento íntegro de Maria, e de outro, a infâmia de Alberto. Maria não merecia sofrer, mas merecia sim, uma satisfação de sua parte. Talvez a única atitude honesta naquele momento.
Entretanto, contar toda a verdade seria cruel demais para o coração sensível de Maria. Decidiu então que escreveria uma carta, insinuando seu fracasso, e pedindo que ela seguisse em busca da felicidade que ele não fora capaz de assegurar-lhe... E assim ele escreveu, cheio de angústia:
Maria,
O meu destino foi muito rude e separou nossos caminhos. Somos agora, como as margens de um grande rio, que correm paralelas, na mesma direção, mas sem jamais encontrar-se. Olho para trás, e vejo distante a felicidade que já possuí, e o caminho que fugiu sob meus pés. Quando eu estava com você a meu lado, horas intensas me encheram de alegria, mas eu nunca pude avaliar isso direito, e só damos valor à felicidade verdadeira quando a perdemos para sempre.
Sinto um frio na alma ao escrever-lhe pedindo para me esquecer, e estou revolvendo as cinzas do passado numa esperança louca de reencontrar a felicidade que perdi. Mas agora já não é possivel, e desejo apenas que você seja FELIZ. Assinado: Alberto.

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