TABOO, O INVIOLÁVEL

Oceania          Esta é uma lenda que ouvi contar há muito tempo.  É sobre um casal de nativos da Polinésia.  Uma verdadeira aventura cheia de curiosidades, sabedoria, amor e drama.  Os nativos da Polinésia, têm sua cultura e suas estórias. Uma inteligência divina, embora de forma primitiva, se manifesta na mente desses nativos;  mas há também o lado oposto, em que convivem com a maldade e o barbarismo.  Para que não caia no esquecimento, contaremos essa estória.


          ... No Oceano Pacífico, bem longe dos continentes, existem cerca de 300 mil ilhas, afastadas entre si por centenas e até milhares de quilômetros, formando uma espécie de "Via Láctea"  marinha. O conjunto de todas é a Oceania.  A chamada Polinésia, é uma das grandes divisões da Oceania, e os seus principais arquipélagos são:  o das Carolinas, de Havaí, das Marquesas, de Tuamutu, das Marianas, fas Marshall, das Tongas, da Samoa e outras.

          Os habitantes (polinésios), são uma bela raça morena, cor de azeitone, cuja origem até hoje é muito discutida.  Atualmente, apesar da influência e colonização moderna, esse povo ainda conserva muito do seu modo de viver primitivo. A maioria vive em cabanas de madeira, cobertas com folhas de palmeira.  Mobiliário não existe; há esteiras para tudo. Em vez de pratos e vasilhas, usam casca de coco.
Polinesio

          A roupa deles consiste em uma tanga para os homens e saiotes de fibra para as mulheres.  As mulheres nada usam para cobrir os seios.  É costume natural, os seios à mostra, usando apenas um colar de flores em torno do pescoço e enfeites nos cabelos.  Todos apreciam ornamentos, como braceletes de dentes de porco.  A tatuagem é também bastante apreciada.  Quando terminam um trabalho de tatuagem, fazem uma festa e dançam o ka-ka tuhitiqui, a dança da tatuagem.

          No trabalho, dedicam-se à fabricação de barcos, equipamentos de pesca, ou seja, redes, cestos, dardos e arpões.  Também plantam "taro", uma espécie de raiz comestível,  inhame, batata-doce, cana-de-açúcar, banana e "fruta-pão". (Fruta-pão: são estranhas frutas, semelhantes a melões, crescem em árvores, e são comidas como se fossem pão.  Seu gosto é semelhante ao da batata.)

          São também ricos no mistérios de suas lendas, deuses e cerimônias religiosas.  Hoje, porém, poucos nativos conservam as antigas crenças, convertidos que foram ao cristianismo.  Seus autênticos ritos religiosos foram proibidos pelos colonizadores europeus, e a antiga mitologia deu lugar aos ensinamentos bíblicos de missionários católicos e protestantes.

          Nada mais de Mãe-Terra e Pai-Céu, de cuja união nasceram os deuses Rongo e Tangaroa.  Nada de deuses tutelares da família, com suas respectivas representações esculpidas em madeira.  Nada mais de adorar o Sol e interpretar os sinais da natureza, nem temer o deus TABOO, O INVIOLÁVEL.  Mas, a estória que a seguir apresentamos refere-se a uma antiga lenda, que se conta nas ilhas de Samoa, sendo uma das poucas que ainda subsistem entre os polinésios.

          ... Vivem felizes os nativos da ilha de Bora-Bora, fora do contágio da civilização.  Muito mais felizes ainda são Matahi, o guerreiro e pescador de pérolas, e Reri, a bela filha do chefe da clã.  Em Bora-Bora dizia-se:  "Quando você gosta da vida, a vida gosta de você".  Por isso, Matqaahi e Reri acreditavam que a Grande Vida fez nascer um grande amor entre eles, como recompensa pelo sorriso que sempre traziam nos lábios, e pelo constante viver festivo de seus corações.

          Eis porém que é chegada a ocasiãqo da grande comemoração para pagar tributo ao deus TABOO, O INVIOLÁVEL...  Anualmente se repetia aquela fatídica cerimônia, quando era servida uma espécie de bebida alcoólica chamada "kava", feita de raiz de pimenta.  A cerimônia é precedida por um canto melancólico, entoado por um coro de vozes masculinas, que conta, exatamente o que vai acontecer na aldeia:

          "O sagrado nome que faz temer as moças da tribo: TABOO!
          Oh, como elas estremecem de pavor quando ouvem: TABOO!
          Chamadas pelos deuses, elas choram e imploram em vão...
          Muitos casais disseram adeus para sempre, quando ouviram: TABOO!
          Eles sabiam que impossível eram seus sonhos de amor,
          e viram seu pequeno paraíso ser destruído com furor!

          Mas sabiam que era preciso obedecer ao grande TABOO!
          Somente o sacrifício da donzela os livraria do terror.
          Bradando junto às ondas do mar, 
          na praia, espera sob a luz do luar,
          seu amor, para sempre, TABOO! TABOO!"

          E, naquela noite, Hitu, o sacredote e emissário de TABOO, escolheu a índia Reri, como a "virgem de todas as ilhas" para ser sacrificada no altar dos deuses.  Mas, desafiando a ira do implacável TABOO, os amantes Matahi e Reri fogem, metendo-se mar adentro, numa tosca embarcação, à procura de outras plagas, onde pudessem ocultar o seu amor.  Chegam até uma ilha desabitada, e ali resolvem ficar.

          Matahi contempla o mar, temeroso a TABOO, contempla o Pai-Céu, e lhe pede proteção.  Anoitecia.  O céu era vasto, silencioso e deserto.  Ainda não existiam estrelas naquele tempo.  Depois, contempla Reri, uma Eva graciosa, de primitiva beleza, que agora encontrou seu paraiso naquela ilha deserta junto com Matahi.  Por nada do mundo, ela também iria separar-se dele.

          Matahi pousa as mãos sobre os ombros de Reri com delicadeza.  Toma-a num ardente beijo de amor. Matahi sente na alma uma doçura e tristeza simultâneas, pois amava Reri com todas as suas forças.  Sem interromper o idílio amoroso, deitam-se sobre o leito da Mãe-Terra, instintivamente, protegidos tão somente pelo manto negro do Pai-Céu.

          Entregam-se corpo a corpo, num querer espontâneo, totalmente, em profundo amor.  Seria, talvez, vontade dos deuses, como única solução para lograr à sentença do perverso TABOO.  E assim fizeram.  Possuíram-se espírito com espírito, carne com carne.  Agora, Reri não era mais uma virgem para sacrifícios.  Sua virgindade foi oferecida aos deuses Rongo e Tangaroa.

          Mas, o recôndito ninho de amor é descoberto pelo velho sacerdote Hitu, que chega na ilha, à procura dos fugitivos.  Matahi havia se afastado momentaneamente de Reri, para colher alguma fruta-pão como alimento.  E, aproveitando-se da ausência de Matahi, Hitu apodera-se brutalmente de Reri, fazendo-a indefesa e com ela a bordo de seu barco, veleja de volta...

          Matahi chegou em tempo de ver que lhe roubavam a amada e, furioso, deita-se ao mar, nadando no encalço do barco...  Porém, exausto de cansaço, consegue alcança-lo e agarra-se a um pedaço de corda que pendia da embarcação.  Mas a mão vingativa de Hitu corta-lhe esse único sustentáculo.  Matahi vê o barco que se afasta, levando Reri prisioneira, enquanto ele, cada vez mais débil, fica para trás, sendo aos poucos tragado pelo abismo verde. 

          Tragicamente perece o bravo Matahi, num desespero louco, tentando salvar o seu amor.  Nesse instante, no firmamento, brilham estrelas, como lágrimas.
Ilhas da Oceania







       

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