SOMBRAS VIOLENTAS


praia

          Arrojado céu de estrelas, noite fria... Qual vagabundo, perambulando inconsequente, vai caminhando pela rua uma figura estranha...  Aproxima-se a madrugada, tardias horas de cansaço.  Cidade morta...  Tímidas luzes observam movimentos...  Mas a noite, antagônica e comparsa, corrobora o anonimato, e o vulto solitário se consome, imergindo no seio da escuridão.  Nem a lua quis fazer-lhe companhia...  temerosa, fugiu sem compromisso.


          Adiante, ao longo de uma praia inquieta, outro vulto se projeta em nostalgia...  Sombras...  manchas humanas nebulosas, que se encontram, numa trama assaz misteriosa.  A primeira tem maldade, tem ciúmes.  A segunda, quem sabe, tem queixumes.  Sombras...  num gesto sem decoro, se despem, ficam nuas...  Suas roupas, atiradas sem cuidado, esvoaçam, como aves esdrúxulas.

          Noite negra, fúnebre e sem luz.  Bem próximo, as águas do mar...  E, na solicão da praia, os loucos figurantes.  Permissivos, será que são amantes?  Mas a fúria, o sadismo, quem diria?  Insaciáveis, em trejeitos se trocavam;  e sem trégua, seus atos consumavam.  Agarradas, jogadas, abraçadas...  Frenéticos, possuiam-se.  Gemidos ouviam-se.  Tarado, perverso, malvado, malígno.

          Houve porém um momento em que o vento não soprou, a natureza emudeceu.  Impacto bárbaro, aterrador!  Sombra da morte, diabólica, chegou.  Um eco, um grito de horror!  Dentro da noite, medonho, ecoou.  O mar em vão agitou suas águas, piedade implorou.  Ninguém viu, ninguém ouviu, e um crime de morte ali se cometeu, a orgia se acabou.  No resto da noite, uma sombra morta ali permaneceu.

          Aos poucos, bem de mansinho, o dia foi chegando...  E a bruma da madrugada foi sumindo, evaporando...  Preguiçosamente o sol apareceu, mas iluminou sem complacência:  era um fato consumado. Ninguém teve um só carinho ao corpo sem vida, estirado na praia;  todo sujo, desnudo,  ensanguentado.  Resto de sombras em fúria, fugitivos da noite, mal aventurados.

          Jornais sem lágrimas alardeiam manchete colossal:  falam do crime, da noite fatal!  Cretinos, pendurados.  Por bagatela, mercadejados.  Tráfico da gentalha sedenta, vampiros modernos, devorando a notícia sangrenta...
Fugitivo

CONCLUSÃO:

          Esta estória fala de sombras.  Sombras simbólicas.  Diabólicas.  Ocultam um fato.  Um fato, muitos fatos, vivenciados no Brasil (e em outras nações também).  Sombras representam trevas.  Trevas no quesito espiritualidade.  A espiritualidade não destrói famílias, não comete assassinatos, além de outras transgressões morais.

          Trevas que antecedem a Era da Luz.  São necessárias, mas terão seu fim, e os espíritos funistos remetidos para a região do UMBRAL.  A Luz vencerá as trevas, independente da indiferença ou descrença do evento.  Caso não aconteça um holocausto nuclear, probabilidade exequível, a Era da Luz se fará de forma ainda não revelada.  As profecias prometem cumprir suas centúrias.  Se não for pedir muito, não seja tão pouco.  A minha sombra sou eu.
Bruma da madrugada

(Guilherme Köhn)

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