A FILHA DO MARINHEIRO
Esta, é uma peça teatral categoria Drama em 3 atos. Trata-se de uma peça de domínio público, ideal para grupos amadores de apresentações teatrais. É uma peça muito antiga, quase perdida na poeira do tempo que a tudo consome, e não se sabe sequer o autor da mesma, pois o manuscrito original de onde foi resgatada, não trazia essa informação. Mas, apesar de antiquissima, é uma estória cativante de interesse bem atual, e de breve duração.
JERÔNIMO (velho marinheiro)
O ALMIRANTE
JORGE (Tenente da marinha)
AMÉLIA (filha adotiva de Jerônimo)
PRIMEIRO ATO
(Sala em casa do Almirante, decentemente mobiliada. Mesa com papéis, sofá, cadeiras, etc. Porta ao fundo e laterais).
CENA I
AMÉLIA (só)
AMÉLIA (lendo uma carta) - "Não me esperes hoje. Meu tio, sabendo que eu saí ontem sem sua licença, mandou prender-me. Aqui estou a bordo, pensando em ti, com lágrimas nos olhos; cada vaga que rebenta de encontro à murada, traz-me uma saudade do teu grande amor e a lembrança do teu doce nome, minha querida Amélia". (fala) Quem sabe se o Almirante desconfiou do nosso amor?
Terei de perde-lo para sempre? O meu querido Jorge! Não, é impossível! Mas se meu padrinho se opuser ao nosso casamento? Se o Almirante não consentir que ele se case com a filha de um marinheiro, com uma pobre órfã que nada tem de seu! Ele é rico, oficial de marinha, protegido por um homem que tudo pode. Oh! Meu Deus! Esta dúvida despedaça-me o coração! (chora)
CENA II
AMÉLIA e JERÔNIMO
JERÔNIMO (ao fundo, vendo-a chorar) - Ora, temos aguaceiro pela proa?
AMÉLIA (esconde a carta) - Ah!
JERÔNIMO (tipo rude) - Com mil raios! Que diabo tens tu? Temos baldeação de lágrimas pelo convés das faces? Hein? Por que? Houve temporal cá por casa?
AMÉLIA - Não senhor.
JERÔNIMO - Não senhor? Então a que vem esse desfeito de lágrimas?
AMÉLIA - Não é nada, meu pai! Pensava em minha mãe! Naquela santa, que não cheguei a conhecer ... e então ... saudade! ...
JERÔNIMO - Antes assim, com mil tubarões! Olha que ia desconfiando! Com mil bombas! Mal sabes tu o amor que eu tenho a esta carinha de Nossa Senhora da Bonança! Não é por tu seres minha filha. Mas olha que nem um almirante tem um anjinho assim!
AMÉLIA - É porque me vê com os olhos de pai. Que tenho eu? Pobre, educada por caridade nesta casa, para onde vim em criança; posso lá servir de comparação às filhas dos fidalgos? Serei sempre a filha do guardião Jerônimo, do velho marinheiro... quase órfã, porque nem sequer pude conhecer minha mãe! Oh! É bem cruel a lembrança da orfandade! (chora)
JERÔNIMO (à parte, comovido) - Pobre pequena! Mal sabe ela que também não sou seu pai! (alto, rude) Bom, bom... fecha os porões da saudade, abre as escotilhas do riso e da alegria! Deus, que é o almirante de todos nós, há de levar-nos pelo mar da vida ao porto e salvamento!
AMÉLIA - Ouça meu pai; é verdade que Jorge está preso?
JERÔNIMO - É sim, é verdade! Com mil tubarões!
AMÉLIA - E por que? Que fez ele para ser assim castigado? Faltou ao respeito a seu pai adotivo, o Almirante?
JERÔNIMO - Penso que sim!
AMÉLIA - Mas, que fez ele? Jorge, preso! E será por muito tempo? Se soubesse como me aflige esta ideia!
JERÔNIMO - Foi isso mesmo que me fez arribar hoje cá a este porto, à casa do Almirante.Ele saiu?
AMÉLIA - Não senhor. Tem estado todo o dia no seu quarto. Não quis ir à mesa almoçar.
JERÔNIMO - Também está hoje de temporal?
AMÉLIA - Está nervoso e agitado, como poucas vezes!
JERÔNIMO - É que o velho não é de meias medidas, com seiscentos diabos! Honra até ali! O sobrinho faltou-lhe às ordens, e então, o velho soltou cutelos e varreduras; e agora há de ser difícil apanha-lo para deitar ferro ao fundo! É capaz de mandar fazer viagem de instrução só para obrigar a comer o pão que o diabo amassou!
AMÉLIA - Manda-lo para longe! Separa-lo de nós! Oh! Meu pai, peça-lhe que não seja tão cruel! Rogo-lhe que interceda por Jorge. O Almirante estima seu velho marinheiro, o seu velho Jerônimo; peça-lhe que tenha piedade daquele a quem chama seu filho!
JERÔNIMO - Descansa, tudo se há de arranjar... mas, como ele ainda não saiu do quarto, eu vou bordejar um pouco: e daqui a instantes estou atracando a este ancoradouro.
AMÉLIA - Lembre-se que Jorge tem sido quase um irmão para mim!
JERÔNIMO - Já te disse, descansa. A Senhora dos Navegantes não nos há de deixar a pique (sai).
CENA III
AMÉLIA (só)
AMÉLIA - Meu pobre Jorge! Foi por minha causa que ele faltou ao serviço a bordo, e foi bastante isso para que o Almirante depois de o prender, o queira mandar para longe! Não há de ser assim! Pedirei, suplicarei, de joelhos, se for preciso, porém ele não há de partir... não, não há de partir! O Almirante é um homem honrado e não quererá ser a causa da minha morte!
CENA IV
AMÉLIA e o ALMIRANTE
ALMIRANTE (de dentro) - Tragam-me depressa uma xícara de café!
AMÉLIA - Ei-lo! É preciso que ele não desconfie o quanto sofro!
ALMIRANTE - Ah! És tu? Que fazes aí com essa cara de choro?
AMÉLIA - Padrinho eu ...
ALMIRANTE - Fala, com mil raios! Não me faças perder a paciência! Ah! Este reumatismo! Ainda o maldito reumatismo! E há quem tenha inveja da minha posição! Bela posição, não tem dúvida! A maior parte da existência passa-se no mar ou nas guerras... e é uma felicidade quando não perdemos a vida!
AMÉLIA - O que tem o senhor para estar tão zangado, meu padrinho? Sou eu a causa do seu desespero? Eu, a sua leitora e companheira de passeios?
ALMIRANTE - Não, eu não estou zangado contigo. Tens sido sempre boa e carinhosa; és honesta e virtuosa; e se o não fosse, era capaz de matar-me como ... (levanta a bengala com raiva).
AMÉLIA - Então, meu padrinho!
ALMIRANTE (calmo) - Tens razão, não é nada. É rabugice do velho marinheiro cheio de achaques
AMÉLIA - Por que esteve até agora no seu quarto? Por que não foi à mesa? Estava incomodado, é bem claro! Está doente, não o diz à sua amiguinha?
ALMIRANTE - Não estou só doente, estou também muito triste! Hoje é um dia de dolorosa recordação para a minha alma! Faz 20 anos que perdi minha mulher! Tudo quanto mais amava sobre a terra! E com ela a felicidade de toda a minha vida!
AMÉLIA - Compreendo o seu sofrimento! Mas quando se sofre se procura ocultar o sofrimento, a dor é ainda maior! Desafogue o seu pesar, não estou aqui? Sofrerá menos. É com grande alívio poder dizer que se sofre a alguém que nos compreende e nos estima! Fale. Eu conheço a sua dor! Não sou eu tão infeliz, não perdi eu também minha mãe?
ALMIRANTE - Tu és um anjo. Senta-te aqui. Ouve. Se algum dia te disserem que eu cometi um crime, responde com orgulho: - Não foi ele o culpado! O Almirante Carvalho de Lemos tinha bastante honra e coração, para não esquecer uma infeliz mulher que ele desgraçou!
AMÉLIA - Que diz?
ALMIRANTE - A verdade. Eu era moço e me apaixonei por um anjo como tu! Era então primeiro tenente. Questões de família impediram o nosso casamento. A Pátria reclamou os meus serviços e fui servi-la. Porém, deixei junto dela alguém para me dar notícias suas.
AMÉLIA - Quem?
ALMIRANTE (depois de hesitar) - Um velho marinheiro!
AMÉLIA - Meu pai?
ALMIRANTE - Não. Quando voltei, passados a anos, soube que a infeliz tinha morrido, e por minha causa!
AMÉLIA - Por sua causa? Como?
ALMIRANTE - Para ir ter comigo a Lisboa, onde eu devia demorar-me em serviço, embarcou em um navio e ...
AMÉLIA - E depois?
ALMIRANTE - A Providência também não quis o nosso enlace! E o mar roubou-me a minha felicidade para sempre!
AMÉLIA (com ternura) - Como deve ter padecido meu bom padrinho!
ALMIRANTE (com muito desespero levanta-se) - Depois disto, odeio o mar! Tenho procurado a morte mil vezes e esse covarde que me roubou a felicidade não quis nunca roubar-me a vida!
AMÉLIA - Está bem, acalme-se, eu lhe peço!
ALMIRANTE (com exaltação) - Deixa-me! Sinto o sangue subir-me à cabeça, os dedos crisparem-me com desespero, tenho vontade de gritar, de chorar, e não posso ... não posso! (cai na cadeira).
AMÉLIA - Meu Deus! Como está agitado! Oh! Como seu estado me faz tremer! Meu padrinho! Meu padrinho!
ALMIRANTE (tornando a si) - Que é?
AMÉLIA - Sofre tanto! Quer que mande chamar o médico?
ALMIRANTE (abatido) - Não, deixe-me! Quero ficar só! Não recebo pessoas alguma, tens entendido? Vai.
AMÉLIA - Sim, meu padrinho. (sai)
ALMIRANTE - Não, eu não estou zangado contigo. Tens sido sempre boa e carinhosa; és honesta e virtuosa; e se o não fosse, era capaz de matar-me como ... (levanta a bengala com raiva).
AMÉLIA - Então, meu padrinho!
ALMIRANTE (calmo) - Tens razão, não é nada. É rabugice do velho marinheiro cheio de achaques
AMÉLIA - Por que esteve até agora no seu quarto? Por que não foi à mesa? Estava incomodado, é bem claro! Está doente, não o diz à sua amiguinha?
ALMIRANTE - Não estou só doente, estou também muito triste! Hoje é um dia de dolorosa recordação para a minha alma! Faz 20 anos que perdi minha mulher! Tudo quanto mais amava sobre a terra! E com ela a felicidade de toda a minha vida!
AMÉLIA - Compreendo o seu sofrimento! Mas quando se sofre se procura ocultar o sofrimento, a dor é ainda maior! Desafogue o seu pesar, não estou aqui? Sofrerá menos. É com grande alívio poder dizer que se sofre a alguém que nos compreende e nos estima! Fale. Eu conheço a sua dor! Não sou eu tão infeliz, não perdi eu também minha mãe?
ALMIRANTE - Tu és um anjo. Senta-te aqui. Ouve. Se algum dia te disserem que eu cometi um crime, responde com orgulho: - Não foi ele o culpado! O Almirante Carvalho de Lemos tinha bastante honra e coração, para não esquecer uma infeliz mulher que ele desgraçou!
AMÉLIA - Que diz?
ALMIRANTE - A verdade. Eu era moço e me apaixonei por um anjo como tu! Era então primeiro tenente. Questões de família impediram o nosso casamento. A Pátria reclamou os meus serviços e fui servi-la. Porém, deixei junto dela alguém para me dar notícias suas.
AMÉLIA - Quem?
ALMIRANTE (depois de hesitar) - Um velho marinheiro!
AMÉLIA - Meu pai?
ALMIRANTE - Não. Quando voltei, passados a anos, soube que a infeliz tinha morrido, e por minha causa!
AMÉLIA - Por sua causa? Como?
ALMIRANTE - Para ir ter comigo a Lisboa, onde eu devia demorar-me em serviço, embarcou em um navio e ...
AMÉLIA - E depois?
ALMIRANTE - A Providência também não quis o nosso enlace! E o mar roubou-me a minha felicidade para sempre!
AMÉLIA (com ternura) - Como deve ter padecido meu bom padrinho!
ALMIRANTE (com muito desespero levanta-se) - Depois disto, odeio o mar! Tenho procurado a morte mil vezes e esse covarde que me roubou a felicidade não quis nunca roubar-me a vida!
AMÉLIA - Está bem, acalme-se, eu lhe peço!
ALMIRANTE (com exaltação) - Deixa-me! Sinto o sangue subir-me à cabeça, os dedos crisparem-me com desespero, tenho vontade de gritar, de chorar, e não posso ... não posso! (cai na cadeira).
AMÉLIA - Meu Deus! Como está agitado! Oh! Como seu estado me faz tremer! Meu padrinho! Meu padrinho!
ALMIRANTE (tornando a si) - Que é?
AMÉLIA - Sofre tanto! Quer que mande chamar o médico?
ALMIRANTE (abatido) - Não, deixe-me! Quero ficar só! Não recebo pessoas alguma, tens entendido? Vai.
AMÉLIA - Sim, meu padrinho. (sai)
CENA V
ALMIRANTE (depois de Pausa)
ALMIRANTE - 20 anos! Há vinte anos que a perdi! Ela seria hoje a minha consolação, poderia suavizar todas as minhas dores com a sua presença! Ah! Sempre sou muito desgraçado! E há ainda quem inveje a minha vida! (fica abatido)
CENA VI
AMÉLIA, JERÔNIMO e ALMIRANTE
AMÉLIA (baixo) - Lá está ele! Tenha cuidado, está bastante nervoso, sofre! ...
JERÔNIMO (baixo) - Um cabo me passem na língua se eu não entrar na barra desta conversação, como um prático de 1ª ordem!
ALMIRANTE (pensativo) - Foi o mar que ma roubou para sempre! Há 20 anos!
AMÉLIA (baixo) - Esteve conversando comigo ... falou-me da mulher que amava e perdeu há 20 anos!
JERÔNIMO (curioso) - Hein? E não disse mais nada?
AMÉLIA - Não. Por quê?
JERÔNIMO (à parte) - Cala-te boca. (alto à Amélia) - Vá lá para dentro e não apareças por aqui.
AMÉLIA (à parte) - Me diz o coração que é de mim que lhe vai falar.
JERÔNIMO (baixo, zangado) - Que diabo! Tens as orelhas calafetadas?
AMÉLIA (baixo) - Mas por que não quer que eu apareça?
JERÔNIMO (baixo) - São cá segredos de ré! Vai dar um passeio até à proa!
AMÉLIA (saindo) - Preciso saber o que se vai passar.
CENA VII
ALMIRANTE e JERÔNIMO
ALMIRANTE (consigo) - Disseram-me também que tinha uma filha! Jerônimo, que foi o portador da notícia da sua morte, tem-ma ocultado até home ... nem esse consolo querem me dar! Ah! Que coisa terrível é a saudade, para um coração crivado de dores como o meu!
JERÔNIMO (à parte) - Com mil raios! Estou a tremer como um marinheiro de primeira viagem diante do contramestre!
ALMIRANTE (a si mesmo) - E hei de morrer sem vê-la ... sem conhecer a minha filha?
JERÔNIMO (entrando) - Meu Almirante!
ALMIRANTE (rude) - Que é? Não recebo ninguém! Estou incomodado!
JERÔNIMO - Sou eu, meu Almirante! O guardião Jerônimo Pereira.
ALMIRANTE - Aproxima-te. Que temos? Tu por aqui é novidade!
JERÔNIMO - Saberá V. Excia que ... sim, se me atrevi a vir à casa de V.Excia é porque ...
ALMIRANTE - Que diabo! Fala de uma vez, homem! Parece marinheiro de primeira viagem!
JERÔNIMO (à parte) - É o mesmo que eu disse já! Toca a bordejar; se meto logo o barco à batina, vai tudo com seiscentos mil diabos!
ALMIRANTE (rude) - Então? Não te despachas?
JERÔNIMO - Saberá V. Excia que ... sim, faz hoje, 20 anos ...
ALMIRANTE (levanta-se com tristeza_ - Tens razão! Em toda a noite não pude conciliar o sono, assim como hoje não pude ainda tranquilizar o meu espírito! Essa desgraça está sempre na minha memória como um pesadelo!
JERÔNIMO (comovido) - E também na minha! Ainda me lembro, como se fosse hoje. Eu era o contra mestre da Jovem Carolina. Um dia, ao levantar ferro vi chegar um escaler que trazia uma mulher, uma criança e um marinheiro ... iam para a AFRICA.
ALMIRANTE (com pesar) - E não ser eu o comandante desse navio!
JERÔNIMO - O marujo deu-se logo comigo e ao cabo de um mês, éramos amigos. Muitas fumaças tirou ele do meu cachimbo. Já levávamos 14 dias de viagem, era noitinha, o céu escureceu e de repente, armou-se uma grande tempestade. Os raios cruzavam-se em todas as direções sobre as nossas cabeças!
ALMIRANTE 0 Oh! Como deviam sofrer nesse momento!
JERÔNIMO (comovido) - Um tufão e uma vaga medonha varreu o navio, que já fazia água! Todos pediam a Deus misericórdia, porque a morte era certa! De repente, uma outra onda levou a pobre mulher ... o marinheiro passou-me a criança para os braços, e lançou-se à água para salvar a pobre mãe! O mar foi sem piedade e ambos desapareceram para sempre! Só ficou a criança!
ALMIRANTE (ansioso) - E a criança? A criança, onde está?
CENA VIII
Os mesmos e AMÉLIA
AMÉLIA (entra com a bandeja) - O seu café, meu padrinho!
JERÔNIMO (à parte) - Ela!
ALMIRANTE - Deixa-me, não quero nada! Só agora é que te lembraste de trazer o café!
AMÉLIA - Não o tinha pedido, padrinho?
ALMIRANTE - Pois sim, mas já não o quero! Leva isso lá para dentro.
AMÉLIA (saindo) - Que será isto?
CENA IX
ALMIRANTE e JERÔNIMO
ALMIRANTE - Vamos, Jerônimo, dize, a quem confiaste essa criança?
JERÔNIMO - O meu Almirante já o sabe. Dei-a a uma parenta minha, com a condição de ma entregar quando tivesse 20 anos!
ALMIRANTE (com desespero) - Porém essa mulher tem faltado à sua promessa, por que hoje ...
JERÔNIMO - Quem sabe por que? Deixe lá que até ver não é tarde!
ALMIRANTE - No dia em que abraçar minha filha, que venha a morte, não preciso mais da vida!
JERÔNIMO - Com mil raios! Tenho cá uma voz que me diz, que não há de passar de amanhã esse grande dia!
ALMIRANTE - Jerônimo! Essa criança não será Jorge?
JERÔNIMO - Nunca pense nisso, pela Senhora da Bonança lhe peço! (pausa) Já que falou nele, aqui tem isto, para V. Excia (dá-lhe a carta). Não lhe dei logo, porque esperava vê-lo sossegado como agora. Quando V. Excia está zangado é pior que um dia de temporal desfeito!
ALMIRANTE (lendo) - "Como soube que V. Excia meu tio e meu benfeitor, vai mandar-me para fora como castigo da minha desobediência, peço-lhe por tudo quanto mais ama no mundo, que consinta antes de partir, o meu casamento com a filha do honrado guardião, Jerônimo Pereira". (a Jerônimo) - Ouves isto, Jerônimo?
JERÔNIMO (atarantado) - Oh! Meu Almirante, creia, que se eu soubesse ... (Amélia aparece ao fundo)
ALMIRANTE (com altivez) - Não precisa dizer nada. Sabes que tua filha é pobre. Que Jorge, se não aparecer o meu herdeiro legítimo, terá os meus títulos e riqueza. E é assim que ele compensa meus benefícios! Esquecendo-se de que me deve o seu futuro e a sua posição! Não, nunca consentirei no seu casamento com tua filha! E amanhã sairá a barra!
JERÔNIMO (magoado) - Meu Almirante! Toda mulher que é honrada, é digna de qualquer homem! Seja ele um operário ou um rei!
ALMIRANTE (severo) - Basta. Vá lá para borda e diga ao comandante que me espere.
AMÉLIA (entrando) - Para o fazer partir, não é assim? Para o afastar de mim para sempre, não é verdade?
ALMIRANTE - E ainda se atreve a perguntar-me?
JERÔNIMO - Minha filha!
AMÉLIA (com exaltação) - Não quero que o separem de mim, entendeu? Não serei sua mulher, não importa! A filha de um pobre marinheiro embora honesta não tem o direito de aspirar a honra de casar com um sobrinho de um Almirante! Não é agora a filha do marinheiro que sobe a merecer essa honra, é o filho do Almirante que desce para a alcançar.
ALMIRANTE (exaltado) - Basta! Saiam! Jerônimo, leva tua filha!
AMÉLIA (com força) - Não! Não sairei sem ouvi-lo jurar que o não obriga a partir!
ALMIRANTE - E com que direito me impõe esse juramento?
JERÔNIMO - Minha filha!
AMÉLIA - Com que direito?
ALMIRANTE (com furor) - Sim, com que direito?
AMÉLIA (com explosão) - Com o direito mais sagrado que o direito do benfeitor e de amigo! Com o direito sacratíssimo da mulher que é mãe!
ALMIRANTE (à Jerônimo) - Mãe!
AMÉLIA - Sim! Mãe! E se ele não desceu para desonrar uma moça pobre e honesta, não desce também fazendo desta mulher sua esposa!
JERÔNIMO - Tem razão, Amélia ... Almirante! Seu sobrinho há de se casar com minha filha!
ALMIRANTE - Nunca! Não se deixasse seduzir! Visse a diferença de posição! Mas preferiu manchar a casa onde estava por caridade! Saiam!
JERÔNIMO - O Almirante expulsa-nos de sua casa?
ALMIRANTE - No mesmo instante! Aqui não há lugar para mulheres sem pudor! Já que não respeitou a casa do seu benfeitor, é justo que este não tenha compaixão de si! Saiam!
AMÉLIA - É assim que V. Excia paga a honra de uma mulher, que não mercadejou com a sua desonra? Manda-me embora! Eu não pensei que seria esta a recompensa! Manda-me embora! E é com esta infâmia que pretende dar os exemplos de honestidade a seus filhos? É esta a moeda com que os fidalgos pagam a honra das pobres filhas do povo?
ALMIRANTE - Paga-se com o desprezo!
JERÔNIMO (com ímpeto) - Almirante! O senhor insulta minha filha!
ALMIRANTE - Não quero vê-la aqui! Saiam, se não querem que chame os meus criados!
AMÉLIA - Não é preciso tanto. Vamos, meu pai! Vamos procurar a casa de qualquer mendigo! Havemos de encontrar lá o que nos negam no palácio do Sr. Almirante! A compaixão para os que sofrem a justiça para os que a têm direito. (vão saindo)
ALMIRANTE - Não quero que se queixem. Mesmo ofendido como sou, quero mostrar-lhes que os estimo! Aí tem para as suas despesas. (dá-lhes uma bolsa com dinheiro). Jerônimo não tem culpa das suas loucuras ... mas vão, e que eu não a torne a ver!
AMÉLIA - Para que é isto, Sr. Almirante! Dinheiro! Para mim e para meu pai? Dinheiro! É o preço por que quer pagar a minha honra! Roubaram-na! Guarde o seu dinheiro! A filha do marinheiro não se vende! (saem)
ALMIRANTE (caindo na cadeira) - Ah! Desgraçada!
FIM DO PRIMEIRO ATO
(Veja a continuação no segundo ato)
(Filha do Marinheiro II)
(Filha do Marinheiro II)
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