O ULTIMO GUILHERME II


Guilherme

          Este é o Segundo Ato da Peça Teatral "O Último Guilherme", de autoria de Luis Iglesias, cujo argumento já foi resumido na apresentação do Primeiro Ato.  Agora, a trama alcança o seu auge, quando as ideias avançadas do protagonista Guilherme, explodem dentro da própria família, a ponto de correr um sério risco de uma falência familiar.  Ideias que simbolizam o tentação demoníaca que se apodera das pessoas, quando o seu egocentrismo fala mais alto que a razão. A estória é cheia de pontos polêmicos.

SEGUNDO ATO
CENA IV
(O mesmo ambiente da cena II, ou seja, a sala de estar de Guilherme.  São nove horas da noite.  Oito dias após a ação da Cena III)

LAURA (entrando, acompanhada de Domingos)  - Espere aqui pelo patrão, seu Domingos.  Ele não deve demorar.
DOMINGOS (consultando o relógio)  - São nove horas.  Já é tarde.  Tinha prometido à minha mulher estar em casa antes das oito.  Mas este seu Guilherme é um homem tão teimoso!  Arrisca-se a guiar aquele carro aí por essa cidade, sem saber ainda dar a marcha a ré... 

Não. Hoje, não saio daqui sem tratar a última lição para amanhã. (Depois de pequena pausa).  Ele não leva a família para passear no carro novo... Por que, Laurinha?
LAURA  - Hum!  As coisas cá por casa andam bem mudadas... O senhor não ouviu falar no tal pileque que o patrão tomou no Cassino, há cerca de oito dias?
DOMINGOS  - Não.

LAURA  - Pois, dizem que foi de arromba.  Largou a filha sozinha no Cassino, e lá se foi com Mme. Elena! Homem velho quando perde a vergonha... (Domingos pigarreia).  Desculpe, seu Domingos, mas... a verdade é a verdade!  Depois eu ando tão nervosa...
DOMINGOS  - Por que, Laurinha?

LAURA  - Ora!  Uma boa criada é como uma antena dentro de casa.  Recebe todas as vibrações que agitam a vida da família.
DOMINGOS  - Bonito, Laura!  Estás intelectual!

LAURA  - O que é que o senhor pensa?  Aqui em casa, agora, todo mundo é intelectual... Depois que o patrão deu para fazer aquelas conferências, entrou por aqui a dentro uma aragem de intelectualidade
que nem lhe conto nada...
DOMINGOS  - E Mme. Salme?

LAURA  - A patroa soube de toda a patifaria do seu Guilherme e proibiu a entrada da "zinha" aqui em casa. Mas, segundo me consta, a coisa continua lá fora.  Também, a Dona Salme não quer perder para o marido...
DOMINGOS  - Hein?  Que quer dizer você?

LAURA  - Olhe... Eu não devia falar.  Uma boa criada, vê... ouve... e cala!  Mas, para um homem como o senhor, a gente fala sem susto.  A patroa recebe, todos os dias, um telefonema bem misterioso
E aposto que resolveu pagar ao marido na mesma moeda...
DOMINGOS  - Laura!  Reflita no que está dizendo...

LAURA  - Bem.  Eu não afirmo... Creio mesmo que ainda não houve nada, mas que "há mouro pela costa", lá isso há.
DOMINGOS  - e a filha?
LAURA  - A filha, enquanto os pais viram a cabeça, vira esta cidade na baratinha do noivo... sabe Deus a fazer o que!  Liberdade!  É o lema da casa...

SALME (entrando em traje comum)  - Boa noite, Domingos.  Deseja alguma coisa?
DOMINGOS  - Desejo falar com o Sr. Guilherme.
SALME  - Ah!... (à Laura)  - Ainda não chegou?
LAURA  - Ainda não, patroa.

SALME  - Está bem. (Consulta o relógio.  Mostra-se ligeiramente impaciente).  E Cidinha?
LAURA  - Depois do jantar, saiu com o noivo.
SALME  - Está bem. (Pequena pausa.  A Domingos, procurando um assunto).  Você, Domingos, deve ensinar muito bem a dirigir automóveis.  O Guilherme, em tão poucos dias, dizem que já está dirigindo tão habilmente...

DOMINGOS  - A senhora ainda não viu, madame?
SALME  - Ainda não tive oportunidade... Mal conheço o nosso carro.  Você sabe, o Guilherme, depois que se tornou o "beguine" da cidade, quase não tem tempo para se dedicar à família.  Os convites para reuniões intelectuais são tantos...
DOMINGOS  - Ah, sim... (Uma pausa.  Salme passeia pela sala)

LAURA  - Quer alguma coisa, Dona Salme?
SALME  - Nada. (Laura vai retirar-se.  Neste momento, toca a campainha do telefone.  Laura dirige-se ao mesmo para atender.  Salme intercepta-lhe a passagem). Deixe.  Eu atendo.  (a Domingos).  Domingos, se quiser, pode esperar o meu marido no jardim.  É mais fresco.

DOMINGOS  - Obrigado, minha senhora. (Laura troca com ele um olhar de entendimento.  O telefone torna a tocar.  Saem Domingos e Laura).
SALME (logo depois que eles saem, vai atender ao aparelho)  - Pronto.  É ela mesma.  Sim. Eu já tinha conhecido pela voz.  Não insista, Carlos.  Estes telefonemas podem comprometer-me. (pausa curta).  Embora (pausa).  Não, Carlos.  Terminemos aqui.  (pausa).  Oh, meu caro!

Será essa talvez a verdadeira felicidade.  Terminar sem nunca ter começado. (pausa).  Fugir?  (Sorrindo).  Não seja louco, meu caro.  Isso é romanesco demais para uma mulher de trinta e seis anos (rindo).  Mas isso foi Balzac, meu amigo.  E Balzac já não existe. (Pausa).  Eu lhe explicarei: não cheguei a contar a meu marido a sua audácia, mais por mim do que por você.  Tive vergonha de lhe dizer que um homem se apaixonou por mim. 

A vergonha do ridículo.  Tive medo que ele julgasse que eu acreditei nessa paixão e me envaideci por isso. (Pausa).  Ainda há mulheres assim... E tenho aceitado os seus telefonemas pelo prazer mórbido de sentir que o perigo está ao alcance da minha mão... (Pausa).  Nada lucrará com isso, Carlos.  Você poderá telefonar mil vezes, a minha resposta será sempre a mesma.  Não (rindo).

Não insista em falar nisso!  Fugir!  Que noção tem você da família, Carlos?   A esposa que foge é como o soldado que deserta:  uma covarde (rindo).  Pois, fale em fugir, se isso lhe agrada... A mim, diverte...(Pausa).  Eu sei que estou brincando com fogo... Mas as mulheres são como crianças grandes. Quando se lhes proíbe uma coisa, então é que desejam aquela coisa mais do que tudo!  E você quer saber, Carlos? 

Ouvi-lo pelo telefone sem desligar o aparelho, desejando mesmo que você fale muito e que seus telefonemas sejam bastante demorados, é para mim uma estranha ventura;  a ventura de sentir emoções próprias da juventude, quando já comecei a descer a montanha da vida;  a ventura de sentir o aroma da primavera, no princípio do inverno... nada mais. 

Não tenha ilusões, Carlos.  As suas palavras, as suas juras, as suas promessas, constituem o meu pequenino sonho, neste momento em que a realidade é tão dura para mim.  Mas não deixarei que o sonho se transforme em pesadelo... e acordarei antes disso. (Rindo)  Qual!  Compreende, sim.  Você é como todos os homens.  Dizem que não compreendem as mulheres quando elas não lhes satisfazem os caprichos.

Tão depressa, porém, esses caprichos são satisfeitos, as mulheres passam de seres incompreensiveis a míseras criaturinhas frágeis e banais! (Pausa). Basta por hoje.  Quer um conselho?  Invente novos madrigais para amanhã.  Você está se repetindo lamentavelmente (Ri).  Até amanhã  (Desliga. Pausa).

GUILHERME (Seguido de Domingos)  - Não tem importância, meu velho... Isso aprenderei depois. (Beija Salme na testa).  Boa noite, Salme.  (continuando a falar com Domingos).  Sinto-me um motorista perfeito, sem essa estória de andar para traz...
DOMINGOS  - Mas é preciso, patrão.

GUILHERME  - Olhe.  O empregado, de manhã, tira o carro da garagem e o deixa na porta de casa. Saio. Vou diretamente ao Ministério.  Encosto-o na calçada, num lugar especialmente reservado para mim, onde outros carros não podem encostar.  Saio à tarde, e tomo logo a praia.  Chego aqui, deixo o carro na porta e o empregado o conduz para dentro da garagem.  Isto há três dias, e ainda não tive necessidade de empregar a marcha a ré... (rindo).  Qual, meu velho!  Para traz só andam caranguejos.

DOMINGOS  - O senhor leva na brincadeira, mas é um perigo andar por aí sem saber dar a marcha a ré... 
GUILHERME  - Fique sabendo, Domingos; se continuo neste progresso automobilístico, inscrevo-me este ano nas corridas da Gávea.
DOMINGOS  - Venho ensinar-lhe a marcha a ré, amanhã de manhã.

GUILHERME  - Não.  Amanhã não tenho tempo. 
DOMINGOS  - Mas, seu Guilherme...
GUILHERME (conduzindo-o à porta)  - Vá descansado, Domingos.  Quando for preciso, eu o chamarei.

DOMINGOS (encolhendo os ombros)  - Está bem... Contra a força... Boa noite, patrão. (A Salme). Boa noite, madame.
SALME  - Boa noite. (Domingos sai. Simultaneamente, entra Laura, com um embrulho).
LAURA  - O empregado encontrou este embrulho no automóvel.  Com certeza o senhor o esqueceu.
GUILHERME  - Ah, sim!  É um relógio elétrico. (Começa a desembrulha-lo).

SALME  - Um relógio? Para que, se já temos um...
GUILHERME  - Jogue o nosso fora...
SALME (com espanto)  - O nosso relógio de família?

GUILHERME (erguendo o relógio elétrico nas mãos)  - De família atrasada.  Eu trouxe um relógio do século. Um relógio elétrico. (Procura lugar na sala para ele.  Coloca-o sobre um móvel e estende o fio para liga-lo à tomada elétrica).  Pronto. Não há perigo de atrasar, nem de adiantar.  E não para nunca.  Sempre rumo à eternidade.  Veja!  A eletricidade impulsionando o tempo!  Enquanto existirem quedas d'água na terra, este relógio jamais há de deixar de marcar as horas e os minutos. 

LAURA (tirando o relógio velho de cima de um móvel)  E este, patrão?
GUILHERME  - Esse?  Museu com ele, que é o lugar das coisas velhas.
LAURA  - Posso leva-lo?
GUILHERME  - Pode (Laura sai. Quando fica sozinho com Salme, admira o relógio. Depois observa Salme que se mantém calada). Salme... (Salme volta a cabeça).  Estás muito calada hoje. 

SALME  - Falta-me assunto...
GUILHERME - Pois, a mim sobra.  Fui hoje, felicitado pelo ministro.  As minhas crônicas modernas no Diário Elegante são lidas pela esposa do ministro, com grande admiração. Mais uma fã.
SALME (com uma ponta de ironia)  Já é!  A esposa de um ministro!

GUILHERME  - As felicitações dele, foram com certeza sugeridas por ela.
SALME  - Cuidado, Guilherme.  Olhe que, com essa, você pode criar um caso diplomático!
GUILHERME (sentindo a ironia)  - Você se esquece de que eu não sou um Don Juan profissional.
SALME  - Profissional, não: amador.
... ...
GUILHERME  - Previno-a de que não me agrada esse seu modo irônico.
SALME  - A mim, também não agradam os escândalos que você provoca lá fora; entretanto nunca lhe disse nada.
GUILHERME  - Vamos outra vez tocar num assunto já liquidado?

SALME  - E por que liquidado?  Vocês são engraçados!  A prevaricação do marido é, apenas uma extravagância.  Liquida-se o assunto e... não se fala mais nisso.  A prevaricação da esposa é um caso de honra!  Tem de ser lavado com sangue!  E por que? Não nos assiste talvez o mesmo direito?
GUILHERME (desconfiado)  - Você já conversou, alguma vez com o Diabo?

SALME  - Com o diabo converso eu há vinte anos, porque vocês, homens, são verdadeiros diabos na vida de uma mulher!
GUILHERME  - Ora, minha querida... Deixemos de ciumadas infantis.  A situação que eu desfruto neste momento, dentro da vida mundana da cidade, obriga-me a estes pequeninos flirtes sem consequência... Lastimo, profundamente, que você não tenha em torno de si a aureola da fama que circunda o meu nome.

SALME (com escarnio)  - Narciso!  Não se mire nas águas de um lago!  Você pode enamorar-se de si próprio!  
GUILHERME  - Estou acima das suas ofensas.  Tudo isso, não passa de inveja.
SALME  - Inveja?  (Cidinha surge no limiar da porta e fica ouvindo, assombrada a discussaão que vai num crescendo entre Guilherme e Salme).

GUILHERME  - Inveja sim.  Você é feita do mesmo barro de que são feitas todas as criaturas humanas.  O que a tortura é a inveja da minha mocidade que resiste mais tempo que a sua.  E que culpa tenho eu de que o tempo exerça a sua ação destruidora mais ferozmente contra as mulheres que contra os homens?
SALME  - Você me julga velha?

GUILHERME  - E se a julgar?  O que tem a dizer?  O maior sintoma da velhice é a falta daquela coterie habitual às mulheres jovens.  Ela lhe falta, Salme, e você se revolta porque eu mantenho a minha!
SALME  - Julga, então, que me falta...
GUILHERME (atalhando)  - Sim, faltam-lhe os aduladores... falta-lhe o flerte... Os homens são exigentes, minha cara, e a vida na sua rudeza, ensina-os a desprezar as mulheres passadas!

SALME (profundamente ferida)  - Guilherme!
GUILHERME  - Um homem velho ao lado de uma mulher nova, impõe a mulher!  Um homem novo ao lado de uma mulher velha, desmoraliza o homem!
SALME  - Basta!

GUILHERME  - Não basta!  Já que estamos no assunto, continuemos.  Você vai ler Armand Charpentier  e vai aprender isto:  "Passados alguns meses ou alguns anos de vida comum, o homem e a mulher tornam-se verdugos um do outro.  Existe entre eles uma guerra perpétua até que um dos dois abdica".  - Isso, pela concepção geral do casamento sobre que se baseia a nossa sociedade, isto é, a ideia de eternidade do amor que quer pertença a mulher toda a vida a um só homem, ou vice-versa;

Desde séculos e séculos, a natureza protesta em vão contra semelhante barbárie;  em vão, a dor humana levanta sem cessar as mais lúgubres lamentações que se ouvem sobre a terra, em vão o adultério universal, mostra ser o pacto conjugal com a fidelidade recíproca por sanção, nada mais que uma quimera demonstrativa da impossibilidade de viver no engano!
SALME  - Pois, eu o autorizo, Guilherme, a seguir o exemplo apontado nesses livros socialistas, exigindo-lhe apenas uma coisa...

GUILHERME  - Diga.
SALME  - Igualdade de direitos.
GUILHERME (rindo)  - E que lhe adianta, agora, essa igualdade?
SALME  - Basta de ofensas, Guilherme!

CIDINHA (avançando)  - Papai!  Mamãe!...
GUILHERME  - Onde estava você?
CIDINHA (apontando para a porta)  - Ali, ouvi tudo.
GUILHERME  - Então, ouça mais isto; você é noiva.  Perguntaram a Pitágoras quando é preciso casar.  Ele respondeu: - Quando estiveres cansado de repousar...

CIDINHA  - Papai!  Não continue assim... Começo a temer pelo nosso futuro, se a fama e as ideias avançadas o transtornam assim... Em nome da nossa paz, peço-lhe, papai, volte a ser apenas, aquele funcionário modesto, mas pai e esposo extremoso...
GUILHERME  - Deixemos de cenas piegas...

CIDINHA  - Peço-lhe... Eu não seria capaz de induzi-lo a isso?
GUILHERME  - Eu sou um Guilherme!
CIDINHA (insistindo)  - Nem eu, papai?
GUILHERME  - Nem você.

CIDINHA  - Nem o nosso passado feliz?
GUILHERME  - Nada.  Nem Deus!
CIDINHA (assombrada)  - Papai!

GUILHERME (numa explosão)  - Já disse.  Nem Deus!  ( Nesse instante surge no limiar da porta, a figura de Job.  É uma estranha figura.  Vestido com modéstia, traz numa das mãos, uma pequena mala de viagem.  Na outra, o chapéu.  Longas barbas brancas caem-lhe sobre o peito.  A cabeleira toda branca dá-lhe um aspecto de bondade infinita.  Aparenta muita idade.  Quando ele surge, todos se voltam para ele.  Job corre os olhos sobre todos.  Entreabre a boca num sorriso.  Atrás dele, com cara muito espantada, Laura )

J O B (avançando)  - Boa noite.
GUILHERME  - Que deseja?
LAURA (nervosa)  - Patrão... este senhor entrou aqui a dentro e não me deixou que o anunciasse... Disse que era um velho amigo da família.

GUILHERME (estranho)  - Velho amigo?  Mas não tenho o prazer...
J O B  - Não se recorda de mim!  É natural.  Há tantos anos que não nos vemos... Permite que eu descanse um pouco?
GUILHERME  - À vontade.  (Cidinha leva-lhe uma cadeira em que Job se senta).

J O B (num suspiro de satisfação)  - Venho de tão longe para vê-los.  E ninguém se recorda de mim... (sorri).
SALME  - É curioso!  Embora não tenha uma recordação bem nítida, sinto entretanto que a sua figura me é familiar...

GUILHERME  - Pois eu confesso...
J O B (sempre muito pausado e muito doce)  - Os homens esquecem mais depressa... O meu Guilherme já de cabelos brancos!...  Eu o vi pequenino, no berço, e o vi crescer aos poucos.  Seu pai, sua mãe, me estimavam tanto...

GUILHERME  - O seu nome?
J O B  - Job.
GUILHERME  - Job?
CIDINHA (maquinalmente)  - Job!

J O B  - Sou capaz de contar-lhe toda a sua vida, Guilherme.  Seu pai, Alexandre de Moraes, comerciante honesto, íntegro... Sua mãe, Dona Esperança, um verdadeiro anjo de pureza...(sorrindo).
Gente... à antiga!  E você, Guilherme, uma criança que abriu os olhos para a vida cercado de carinhos e felicidade.  Fui eu que lhe acompanhei os primeiros passos.  Fui eu que lhe ensinei as primeiras orações.  E não se lembra de mim?  Não se lembra?  Nada?  Nada? (Fita-o, insistentemente).

GUILHERME  - Job... Job...
CIDINHA (cheia de ternura)  - Job!  Todo ele é doçura, papai... Que felicidade rever um amigo tão velho...
SALME  - Parece ser bem velhinho...
J O B  - E ainda sou muito mais velho do que pareço.

GUILHERME  - Mas... (voltando-se para Cidinha e Salme)  - Algum dia vocês me ouviram pronunciar esse nome?  (As duas meneiam, negativamente a cabeça).
CIDINHA  - Entretanto, a minha impressão neste momento é que nunca se pronunciou outro nome dentro desta casa.

J O B  - É verdade, minha filha.  Não acredito que o meu nome tenha sido completamente esquecido.  A bondade do amigo velho... esse nome que é todo um poema de renuncia e resignação.
LAURA  - Job!  Até eu, parece-me, que o conheço.
GUILHERME  - Por que não se fez lembrar a mais tempo?  A quantos anos não o vejo?

J O B  - Há muitos anos... Desde que você começou a sentir-se homem.  E os homens, hoje, começam a sentir-se tão cedo...
GUILHERME  - Confesso-me completamente transtornado!  Seria capaz de jurar que nunca o vi.
J O B (sorrindo)  - A culpa é minha.  Afastei-me muito de ti...

GUILHERME  - Por que não me avisou da sua chegada?
J O B  - Esquisitices de velho.  Estava crente de que causaria uma grande surpresa... de agrado (ri). A gente quando envelhece, tem cada vaidade...
GUILHERME  - Não foi uma surpresa de desagrado.  Foi, isso sim, uma grande surpresa.

J O B  - E permite que eu fique aqui dois ou três dias?  Nada mais do que isso... Volto para o meu longínquo torrão dentro de dois dias.
GUILHERME  - É que... (a Salme).  Não temos acomodações, não é verdade?
SALME  - Para um amigo velho, arranja-se qualquer coisa.
LAURA  - Aquele quartinho nas águas furtadas...

CIDINHA  - Oh, Laura... um quarto sem luz elétrica...
J O B  - O que tem isso?  Ficarei lá com muito prazer...
GUILHERME  - Não seria melhor alojar-se num bom hotel, com todo o conforto?  Eu faço questão de que seja meu convidado durante a sua permanência no Rio.  Mas num bom hotel.  Aqui teria uma hospedagem desconfortável.

J O B  - Não se zangue, se insisto em ficar aqui, nas águas furtadas, sem luz...
LAURA  - Lá em cima tem um lampião de querosene...
J O B  - Vêm? Que posso desejar mais?  Acreditem.  Sentir-me-ei melhor aqui, dentro deste lar, com o meu lampião de querosene, do que num hotel de luxo...  Onde eu vivo, luz só a do sol de dia, e a das estrelas, de noite... (a Guilherme).  Deixe-me aqui, sim?

SALME  - Venha comigo, Sr. Job.  Vou instalá-lo com o maior conforto possível.  (à Laura).  Vá ao guarda roupa e traga roupa branca de solteiro.  Traga também o edredom da Cidinha.  E duas almofadas.
LAURA  - Sim, senhora (sai).

J O B (a Guilherme)  - Está vendo? As mãos femininas são mais milagrosas.  Sua esposa vai transformar as águas furtadas num palácio.  (Batendo-lhe nas costas).  E perdoe-me este incômodo.  São poucos dias.
GUILHERME  - Incômodo nenhum!
SALME  - Vamos, Sr. Job?

J O B  - Olhe, Salme, chame-me apenas, velho.  Gosto de ser tratado assim.  (a Cidinha).  E você também, Cidinha.  Quando falar comigo, trate-me assim: meu velho, sim?  Parece-me que fico mais íntimo da família. (Rindo). Esquisitices... Já os preveni de que sou muito esquisito.  Não se admirem de nada.  Tudo quanto lhes parecer estranho, levem à conta da minha esquisitice...
SALME (sorrindo)  - Está bem. Então vamos lá, meu velhinho... (Saem os dois)

GUILHERME  - Isto é espantoso!  Parece mágica!  De repente, entra-me um ancião pela casa a dentro, fala-me do meu passado como se fosse meu pai e aloja-se, sem mais aquela...
CIDINHA  - Papai.  É uma falta imperdoável ter esquecido completamente um amigo tão velho...
GUILHERME  - Mas, que quer você?  Não me lembro dele... Tenho vontade de convida-lo a sair da minha casa e, ao mesmo tempo, sinto um estranho respeito pela sua figura.

CIDINHA  - Também eu.  O velhinho irradia tanta simpatia, a sua figura é tão venerável, que me dá vontade de pedir-lhe uma porção de conselhos e ficar sentada a seus pés, ouvindo-o falar. (Rindo). Engraçado, não é papai?
CARLOS (entrando)  - Boa noite.
GUILHERME  - Olá... Fizeste bem em vir, Carlos.  Preciso imensamente, falar contigo.

CARLOS  - Perdoem-me se não me fiz anunciar, mas como me julgo íntimo da casa...
GUILHERME  - Naturalmente.
CARLOS (à Cidinha)  - E o seu noivo, como vai?
CIDINHA  - Bem, obrigada.  Passamos a tarde juntos.  Esta noite, ficou com a família.  Mas deve me telefonar ainda.

GUILHERME (a Carlos)  - Vem comigo ao meu quarto, Carlos.  Tenho assunto de máxima importância para tratar contigo.  (Baixo, a Carlos, enquanto se encaminham para a porta).  Estiveste com ela?
CARLOS (Idem)  - Sim.  Está disposta a tudo.  Quer por-te num terrível dilema:  Ou ela, ou tua esposa!

GUILHERME (Idem)  - Oh! As mulheres! (Saem os dois)
CIDINHA (só, dirige-se ao telefone e disca)  - Quem fala?  É você, Nilo?  Estou muito nervosa.  Hoje, depois de ter a maior desilusão do matrimônio com o que se passou entre papai e mamãe, a minha ideia se tornou em resolução inabalável.  Estás disposto ao que combinávamos?  (Pausa). Amanhã, às quatro?  Resolvido. Às quatro.

Encontrar-nos- emos na estação.  Levarei o menos possível (Pausa).  Sim, Nilo.  Às quatro, sem falta. Até amanhã, querido.  (Desliga.  Fica com a mão no fone durante algum tempo, completamente absorvida pelos seus estranhos pensamentos).

SALME (entrando)  - Pronto.  O velhinho tem todo o conforto que pudemos arranjar de repente.  (Reparando Cidinha).  Que tens minha filha?
CIDINHA  - Nada mamãe .  Apenas uma dorzinha de cabeça.
SALME (passando-lhe a mão pelos cabelos)  - Minha filha, faça de conta que nada ouviste ainda agora, sim?

CIDINHA  - Oh, mamãe... Não posso esquecer-me.  Como os homens são injustos, mamãe.
SALME (sorrindo)  - Não importa, minha querida.  Eles se julgam fortes e julgam-nos fracas.  Entretanto, a nossa maior força está nessa fraqueza.  E com todo o poderio dos homens, eles são tão insignificantes que cabem inteirinhos no nosso ventre.

CIDINHA  - Mas eu não perdoo papai por considera-la velha!  Velha, com 36 anos!  Porque a senhora é linda, mamãe.
SALME  - São os teus olhos, minha filha... (beija-a na testa).
CIDINHA  - E o velhinho?  Posso ir vê-lo lá em cima?  Tenho tanta vontade de ouvi-lo falar...
SALME  - Vai.

CIDINHA  - Quer vir comigo?
SALME  - Sim.  Irei dentro de dois minutos. (Cidinha sai.  Salme procura uma revista.  Encontra-a.  Vai sair também quando entra Carlos)
CARLOS  - Salme!
SALME (num espanto)  - Você?

CARLOS  - Não se espante.  Vim buscar seu marido.  (Avançando).  E dizer-lhe também que parto amanhã, às quatro horas para a Europa, pelo Magestic.
SALME  - Boa viagem, Carlos.
CARLOS  - Você irá comigo.
SALME  - Enlouqueceu?

CARLOS  - Quem enlouqueceu foi você, permitindo que a sua vida se esstiole (enfraqueça) nas mãos de um miserável como Guilherme!
SALME (com dignidade)  - Carlos!  Não se exceda!  Veja que fala do meu marido...
CARLOS  - Algoz, apenas.  Não se importa em troca-la, miseravalmente, por uma aventureira qualquer.  E, se você não o deixar, ele a deixará...

SALME (estremecendo)  - Isso não é verdade, Carlos!
CARLOS  - E se eu lhe apresentar provas?  Você fugirá comigo?
SALME  - Guilherme não faria isso!  Seria a última das vilanias!
CARLOS  - Responda.  Se eu lhe apresentar provas...

SALME  - Pois bem.  Se você me provar essa miséria, deixarei Guilherme.
CARLOS  - E fugirá comigo, amanhã?
SALME  - Prometo.
CARLOS (tira um envelope do bolso)  - Aqui está.  Conhece a letra do seu marido, não é verdade? Pois veja: uma carta endereçada a Elena.

SALME  - Deixe-me Lê-la.  (Tenta arrancar a carta da mão de Carlos)
CARLOS (evitando)  - Não. (Abre o envelope e desdobra a carta).  Ouça apenas, este período final: (): "Aceito, minha querida Elena, a ideia da fuga.  Amanhã, às cinco, passarei por tua casa no meu carro.  E partiremos imediatamente para São Paulo de automóvel.  De São Paulo a Santos e de Santos para Buenos Aires, num transatlântico qualquer.

Até amanhã, às cinco, e até lá fica pensando nas loucuras que o nosso amor nos proporcionará.  Teu para o resto da vida, Guilherme".  (Dobra a carta e mete-a novamente no envelope guardando-a).
SALME (deixando-se cair numa poltrona)  - Você não devia ter lido, Carlos... Você não devia ter lido. (Esconde o rosto entre as mãos).

CARLOS (muito junto dela)  - Por que não?  É preciso que você reaja contra essa traição.  Você é digna de ser amada como mulher em plena floração da vida!  Eu serei capaz de proporcionar-lhe toda a felicidade que lhe falta nesta casa.  Venha comigo.  Novas terras.  Novas emoções.  Novo amor.  E a vida lhe parecerá nova ao calor dos meus beijos.  (Curva-se.  Vai beijá-la).

J O B (surgindo repentinamente. Traz o lampião aceso)  - Desculpem-me... (Salme ergue-se).
CARLOS (disfarçando)  - Sente-se melhor, madame?
J O B (pousando o lampião sobre a mesinha)  - Não reparem ter trazido o lampião.  É que a escada estava escura.  Vim busca-la, Salme.  Sua filha e eu, estamos há tanto tempo à sua espera... Cidinha quis vir busca-la.  Mas eu me adiantei... (sorrindo).  Que diabo!  Apesar das cãibras, ainda tenho boas pernas para subir estas escadas... (a Carlos).  Não repare.  Esquisitices de velho...

SALME (apresentando Job a Carlos)  - O Sr. Job... um amigo antigo da família de Guilherme  (a Job);  Este é o Carlos, íntimo amigo de meu marido.
J O B (estendendo-lhe a mão)  - Muito prazer.  Amigo de Guilherme, não?  Oh!  O Guilherme é uma criatura encantadora!  Cheguei hoje, depois de quase trinta anos sem vê-lo... e, ao fim de poucas palavras, abriu-me o seu lar.  Sempre fui um desprevenido.

CARLOS  - Mas ele não podia ter precauções contigo...
J O B  - Ora, meu caro... Nunca se sabe o que se mete dentro de casa. (Sorri)
CARLOS (pigarreia)  - Job!  Que nome tão interessante!  Job!  Faz lembrar o da Bíblia, o pobre, o resignado...

J O B  - Job, o da Bíblia, com aquela resignação, já não existe!  Perdeu filhos, perdeu bens, caiu na mais horrorosa miséria e apenas balbuciou:  "Deus me deu, Deus me tirou, seja o seu nome bendito"! - Os amigos zombaram dele na desgraça.  E ele nunca se revoltou!  Pobre Bíblia!  Como os teus exemplos foram inúteis...  Hoje, o homem se revolta contra tudo e contra todos.  Revolta-se contra o mais rico.  Revolta-se contra o mais feliz.  Revolta-se até contra o amigo quando lhe descobre tesouros de amor dentro do lar...

CARLOS (sorrindo)  - Quando o vi entrar, nunca pensei em Job.  Pareceu-me, antes, um novo Diógenes, com aquele lampião!  Só lhe faltava o tonel...
J O B  - E, julgou que eu estivesse à procura de um homem dentro desta casa, não é mesmo? (sorri). Adivinhou.  Eu procurava um homem.  Ah!  Não se ria... Ele se perdeu.  Mas me dispus a encontra-lo.  Nesse dia quebrarei o tonel e apagarei a lanterna...

CARLOS (visivelmente incomodado)  - Mas o meu amigo já é Job.  Não pode ser Diógenes, ao mesmo tempo.
J O B  - Quem sabe lá o que eu sou?  Quem sabe até se eu sou Papai Noel?
CARLOS (seco)  - Faltam aqui crianças para aprecia-lo.
J O B  - Que ingenuidade, meu amigo!  Quanta gente grande precisa de um Papai Noel que lhe traga um pouco de felicidade...  (Afaga novamente os cabelos de Salme).

SALME (com doçura)  - Meu bom velhinho!
CARLOS (a Salme)  - Peço licença para retirar-me, Madame.  (Toma-lhe a mão que leva aos lábios.  (Entre dentes).  Amanhã às quatro.
SALME  - Até amanhã, Carlos.
CARLOS (a Job)  - Imenso prazer, meu senhor (Curva-se).

J O B  - Até a vista, meu caro... (Carlos sai.  A Salme).  Você me perdoa, se vim interromper a palestra com... o amigo de Guilherme.
SALME (sorrindo)  - Perdoa-lo, por que?
CIDINHA (entrando)  - Que é isso velhinho?  Deixa-me lá em cima, no escuro, um tempo enorme... e vem conversar com mamãe?

SALME  - Íamos subir agora mesmo.
GUILHERME (entrando)  - Olá... Ainda acordado o nosso amigo velho?  (Salme, ao ver Guilherme entrar, retira-se pelo fundo.  Guilherme olhando para o relógio elétrico)  Quase meia noite... (A Job).  As pessoas da sua idade devem deitar cedo.

J O B  - O relógio talvez esteja adiantado...
GUILHERME  - Este?  Não.  Este regula com a precisão das coisas modernas.  É um relógio elétrico.  Não atrasa, nem adianta.
J O B  - Vejo que utiliza as mais avançadas criações para gozar de um magnífico conforto.

GUILHERME  - Tudo o que há de mais avançado.  Sinto que deveria nascer daqui a cem anos...  porque minhas ideias e a minha imaginação, avançam um século!  Não compreendo a vida sem o radio, sem a eletricidade, o automóvel, o cinema sonoro, os arranha céus, o avião...  Tudo quanto há de ultra moderno e veloz.
J O B  - Não se esqueça também da privação dos sentidos...

GUILHERME (seco)  - Não compreendo...
CIDINHA  - O nosso amigo tem razão.  Quando nos lançamos na vertigem da velocidade, assalta-nos um estado semi-inconsciente, como se estivéssemos privados dos sentidos...
GUILHERME  - Filosofia barata.  O homem avança.

J O B  - Só o cérebro... O coração fica.
GUILHERME  - E o que importa o coração?  Não foi pelo coração que Julio Verne se imortalizou.
J O B (sorrindo)  - Não foi o cérebro que Jesus Cristo cativou multidões e implantou o cristianismo. As grandes forças que dominam a humanidade, como a fé, a piedade, o amor, nasceram do coração...

GUILHERME  - E quem lhe disse que esses sentimentos são virtudes?  Balelas do cristianismo!
CIDINHA  - Papai!
GUILHERME  - Balelas!  A piedade, por exemplo, foi a arma que se serviu o cristianismo para enfraquecer a humanidade contra si.  Porque aquele que se compadece, perde a força.  Mas nem mesmo a piedade pôde evitar que o cérebro humano funcionasse, e a mentira do cristianismo aparecesse à tona da lógica.

J O B  - Mentira que protege, mentira que encoraja, mentira que salva...  Se o cristianismo é uma mentira, deve ser divina para se firmar através do século dos séculos!
GUILHERME  - E por que os seus ministros contradizem a Deus?  Deus disse:  Crescei e multiplicai-vos.  Os sacerdotes cristãos não se multiplicam... Deus disse: Não matarás.  E os sacerdotes benziam as espadas assassinas e os crucifixos que, à frente dos exércitos, caminhavam para a carnificina das cruzadas!

Deus disse:  Santificai o dia de sábado.  Lá estava nas tábuas que Moisés recebeu no Monte Sinai;  - E os sacerdotes mandam que se santifiquem o domingo.  Deus disse;  Não farás para ti imagem nem figura do que existe no alto dos céus.  E os sacerdotes fizeram imagens de um milhão de santos.  E, não contentes em fazerem-nas para si, ainda as vendem a todo o mundo!  - Deus mandou que os sacerdotes absolvessem os moribundos para a salvação dos seus espíritos.

Então, é porque existe algo além da matéria.  - E por que os sacerdotes cristãos combatem o espiritismo?  O sacerdote cristão é um profissional da mentira.  Profissão cômoda e rendosa.
CIDINHA  - Papai!  Tremo ao ouvi-lo falar assim!
J O B (muito calmo)  - E por que não te fizeste sacerdote, meu filho?
GUILHERME  - Porque prefiro a verdade.

J O B  - Mentira.  Não te fizeste sacerdote, porque não tens força bastante para renunciar aos prazeres mundanos que te cercam.  E a batina que veste o sacerdote é a muralha intransponível que o separa de todos os prazeres em que tu vives!  Que importa que o cristianismo seja para ti uma mentira?  Será o manto diáfano da fantasia sobre a nudez crua da verdade!  Porque mentira é a vida!  Mentira é o mundo!  A multidão que palpita nas avenidas e nas praias, nos campos e nos salões, é a mentira.

A verdade está gemendo nas salas dos hospitais.  A área enorme de uma cidade inteira é a mentira.  A verdade está resumida na pequnina área dos cemitérios!  O progresso é a mentira!  Porque seduz o homem a dirigir pássaros de aço afrontando a amplidão de um simples sopro da verdade fá-lo-á cair à terra, carbonizado entre frangalhos!  Ai daqueles, meu filho, que tentarem viver sem o bálsamo de uma religião!

Esses, serão como doentes operados a sangue frio.  Porque a religião é a anestesia do espírito.  Não te esqueças:  quem vive, deseja.  Quem deseja, sofre.  A vida é a dor.
GUILHERME  - Bonito discurso para quem se acomoda nas águas furtadas de uma vivenda moderna e acha bastante a luz, mentirosa, de um lampião.  Já lhe disse que o meu cérebro avançou.

Fico com a eletricidade que impulsiona as máquinas, transmite os sons e ilumina as trevas da noite.  A grande verdade do século é, inegavelmente, a eletricidade!  (Neste momento apagam-se todas as luzes.  Resta, apenas, a fraca luz do lampião).  Que é isto?
CIDINHA  - Um curto circuito, com certeza.

LAURA (surgindo na porta)  - Está tudo escuro nesta rua.  Faltou a energia elétrica em todo o quarteirão.
GUILHERME  - Velas... velas...  Precisamos de velas... (Vendo Job que tomou o lampião e dirige-se para a porta).  Que é isso, meu velho?  Para onde vai?
J O B (do limiar da porta, deixando que a luz fraca do lampião lhe ilumine o rosto, num sorriso irônico)  - Vou para o meu quarto, com esta pequena mentira...  (indica o lampião).

FIM DO SEGUNDO ATO

(Continua no Terceiro e último Ato)





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