FILHA DO MARINHEIRO III

"A Filha do Marinheiro", é uma peça teatral em 3 atos. E esta, "Filha do Marinheiro III", é o terceiro e último ato desta peça. Trata-se de uma peça muito antiga, perdida na memória dos tempos, e que foi resgatada através de um manuscrito guardado há mais de 50 (cinquenta) anos, e que pertenceu a uma pessoa que gostava de teatro.
Trata-se também de um drama, que apesar de antigo, não perdeu sua validade emocional para os dias de hoje, pois a dramaturgia deste entretenimento não tem tempo nem idade. Não temos informação da autoria desta peça teatral, pois o manuscrito da qual foi resgatada, não trazia esta informação. E, finalmente, por se tratar de um documento muito antigo (mais de 50 anos), já é de domínio público, podendo ser encenado por qualquer grupo de teatro amador que se interessar por este trabalho. É de fácil entendimento, poucos figurantes e de curta duração. Divirtam-se.
TERCEIRO ATO
( a mesma cena do primeiro e segundo atos)
CENA I
ALMIRANTE (só)
ALMIRANTE - Que horrível situação a minha! Ninguém a meu lado para suavizar os meus sofrimentos! Que coisa dolorosa é a solidão! Serão remorsos? Não sei.. Depois que a deixei partir, depois que a fiz sair daqui aquele anjo de resignação ... sofro ainda mais! Não durmo ... não tenho um momento de sossego! E ela! Ingrata! Nem sequer se lembra do pobre velho que tanto a queria! E o maldito Jerônimo? Tenho ímpetos de o mandar prender no porão do meu navio! Ingratos!
CENA II
ALMIRANTE e JERÔNIMO
JERÔNIMO - V. Excia dá licença, meu Almirante?
ALMIRANTE (à parte) - Ele! Se me faltar ao respeito, mando-o prender por 15 dias (alto). Entre, diga o que deseja!
JERÔNIMO (à parte) - Se a trovoada não amainou, faço-me de vela pela escada abaixo!
ALMIRANTE - Vê lá! Quando quiseres ... eu estou aqui às turas ordens!
JERÔNIMO - Eu voltarei depois. V. Excia ainda está zangado, e eu desejo falar-lhe quando V.Excia estiver em calmaria!
ALMIRANTE (furioso) - Com mil raios! Apesar da liberdade que te tenho dado, olha que posso esquecer-me de que és um amigo, e só me lembrar de que és marinheiro, para te castigar com severidade que merece a tua culpa!
JERÔNIMO (humilde) - Almirante. V.Excia insultou-me! E se respondi brutalmente, é porque V. Excia expulsou minha filha como se fora uma mulher sem brio! Eu calei o insulto porque é meu almirante, senão ...
ALMIRANTE (colérico) - Senão o que? Que farias?
JERÔNIMO (com exaltação) - A V. Excia ... nada! Que posso eu fazer? V. Excia é rico e eu sou pobre! É Almirante! Eu sou um pobre marinheiro! /Seu sobrinho porque é seu sobrinho, pode desonrar as filhas dos pobres marinheiros ... como eu! E eles não têm direito de queixar-se ... porque V. Excia pode, sem escrúpulos mandá-los enforcar no lais da verga e nem ao menos sentirá remorsos na consciência!
ALMIRANTE (colérico) - Nem mais uma palavra! Saia! Saia imediatamente (cai na cadeira). Ainda me ofende! Em vez de procurar convencer-me com palavras de ternura!
JERÔNIMO - Adeus meu Almirante! Nunca esperei que V. Excia pagasse com ingratidão a amizade do velho marinheiro! V. Excia nada perde com isto, portanto ... (vai sair)
ALMIRANTE (chamando-o) - Jerônimo!
JERÔNIMO - Meu Almirante?
ALMIRANTE - Espera! Compreendo a tua dor ... desculpa, os meus sofrimentos tornam-me irascível! Não és um marinheiro, és um amigo, a quem devo tudo ... até as últimas de minha mulher! Estás satisfeito?
JERÔNIMO - Com seiscentos mil raios! Que estou! Se pudesse calcular a alegria que me vai cá por dentro juro-lhe que não duvidaria mais do seu velho marinheiro!
ALMIRANTE - Oh! Eu conheço-te bem, meu velho amigo! Sei quanto o teu caráter é honesto e bom o teu coração! Assim fosse tua filha!
JERÔNIMO - Perdão meu Almirante! Minha filha é uma mulher honesta, e ninguém teria nada a dizer-lhe se não fosse o seu sobrinho! Ela, sim ... ele é que foi um miserável! Porque em vez de se divertir com as filhas dos fidalgos, foi procurar uma pobre órfã, sem proteção ... enfim, a filha de um pobre marinheiro honrado!
ALMIRANTE - E ela? Por que se deixou enganar? Não sabia que ele era filho adotivo de um Almirante? Tua filha, sabes o que é? (com cólera) Uma doida ... uma desgraçada perdida!
JERÔNIMO (exaltando-se) - O que? O que é que V. Excia diz? Perdida ... quem? A milha filha?
ALMIRANTE (com força) - Sim!
JERÔNIMO - Eu não consinto, embora faça de mim o que quiser, eu não consinto que diga isso! Eu estou aqui para falar-lhe a seu respeito.
ALMIRANTE - Fala!
JERÔNIMO (severo) - Senhor Almirante, eu exijo que seu sobrinho case com minha filha!
ALMIRANTE - Esqueceste o que já te disse?
JERÔNIMO (perdendo a cabeça) - Esqueço tudo, com mil raios! Só para me lembrar que minha filha está desonrada, e que o infame que causou a sua desgraça há de resgatar a sua falta pelo casamento, ou eu o mato como a um cão!
ALMIRANTE - Esqueces que sou Almirante?
JERÔNIMO - Aqui não há Almirante nem marinheiro: Há dois homens iguais; um pela sua posição, outro pela sua desgraça!
ALMIRANTE - Não consentirei nunca um casamento que me envergonha!
JERÔNIMO - Em que?
ALMIRANTE - Que diria a sociedade? Que diria o mundo? Ficarei desonrado aos olhos dessa mesma sociedade!
JERÔNIMO - E que dirá de mim? Que não hesitei em trazer no peito as honras que V. Excia pediu para recompensar os meus serviços, e na cara a vergonha de ver minha filha desonrada por seu sobrinho! Não, não dirá ela isto de mim? Pois bem, senhor. Ficarei com minha filha desgraçada ... mas não quero trazer ao peito estas medalhas ... porque podem parecer o preço da sua desonra! (atira-as no chão).
ALMIRANTE (terrível) - Desgraçado, tu ousas ...
JERÔNIMO (calmo e triste) - Perdoe-me, Almirante, mas eu já disse que aqui estavam apenas dois homens iguais em posição.
ALMIRANTE (com pesar) - Não devias abusar da minha estima por ti, mas ... falaste-me ao coração, no fim de tudo! Vai buscar meu sobrinho! O que aconteceu à tua filha ... (triste) poderia acontecer à minha! Que ele venha e consinto no seu casamento!
JERÔNIMO (com alegria) - Obrigado ... obrigado, meu Almirante. V. Excia é um homem honrado! Eu já volto, vou cumprir as suas ordens (sai contente).
ALMIRANTE (só) - Como ficou contente! Também eu o estou comigo mesmo! Ela não tem nome... o meu chegará para os dois! (sai)
CENA III
AMÉLIA (só)
AMÉLIA - Disseram-me que meu pai estava aqui. Que terá passado? Se o Almirante ainda teima em não querer consentir meu casamento com Jorge... Mas como demoram ... onde estará meu pai?
CENA IV
AMÉLIA e JERÔNIMO
JERÔNIMO (à parte) - Ora, até que enfim! Onde te meteste?
AMÉLIA - Não pude resistir ao desejo de saber o que há; trata-se de mim ... e da minha felicidade ... ou da minha desgraça! Pode falar, meu pai! Eu sou corajosa!
JERÔNIMO - Eu te digo! ...
AMÉLIA - Se ele não consentir, também não irei contra a sua vontade!
JERÔNIMO (espantado) - O que? Que é que tu dizes?
AMÉLIA - A pobreza também teu o seu orgulho! Eu não fui a culpada da minha desgraça! Agora sou mãe! É o que eu serei. E tanto se é mão de um rei como de um bastardo! De um homem honesto, como de um ladrão! Se o Almirante não me achar digna de ser esposa de seu sobrinho ... que Deus me perdoe, mas entrego-lhe meu filho e mato-me!
JERÔNIMO (com terror) - Com mil raios! Que dizes tu? Morrer? Não consinto! E ele também! Ele não é tão mau como pensas! E queres morrer!... (abraça-a)
AMÉLIA - Então, ele consente? ...
JERÔNIMO (contente) - Sim, minha querida filha ... e para já ... ele diz que é negócio resolvido!
AMÉLIA - Oh! Não me engane, meu pai, não me engane, peço-lhe ...
JERÔNIMO (abraçando-o) - Não te engano, serás feliz!
AMÉLIA - E então, verdade? Meu filho terá um nome? Oh! Bendito sejas, senhor Deus! Oh! Meu pai, meu pai ... deixe-me beijar-lhe as mãos ... (segura-lhe na mão).
JERÔNIMO (fugindo com a mão e enleado) - Perdão!
AMÉLIA - Como? Não quer que eu lhe beije a mão?
JERÔNIMO (à parte) - Que situação esta, pai da minha alma!
AMÉLIA - Não me responde? Não compreende que me aflige com o seu silêncio?
JERÔNIMO (atrapalhado) - É que ... sim ... é que ...
AMÉLIA - Mas que significa isso? Que tem? Porque está triste? Ah! Compreendo! Enganou-me meu pai! O meu casamento é impossível!
JERÔNIMO (triste, mas rápido) - Não, não é isso. Juro-te pela alma de tua mãe, que era uma santa, e que vê lá do céu o motivo por que estou assim aflito!
AMÉLIA - e por que não me diz? Peço-lhe de joelhos que me diga! (quer ajoelhar)
JERÔNIMO (aflito) - Pelo amor de Deus! Levante-se! Eu ... (à parte) Nunca pensei que me custasse tanto perde-la!
AMÉLIA (em lágrimas) - Mas pelo amor de Deus, meu pai, diga-me o que significa tudo isso!
JERÔNIMO (à parte) - Se não me contenho ... já vai tudo por água abaixo!
AMÉLIA - Então, meu pai? Não me responde?
JERÔNIMO (fingindo alegria) - Não faças caso filha! É a alegria! Eu já venho ... não te aflijas ... isto é a alegria! Eu já venho! (sai, enxugando os olhos).
CENA V
AMÉLIA (só)
AMÉLIA - Mas, meu pai! ... (desce). Será realmente a alegria de me ver feliz? Sim, deve ser isso ... preciso acreditar que é a alegria que o faz assim tão triste e comovido! Ah! Vem o Almirante! Vou pedir-lhe que me perdoe tudo que lhe disse num momento de desespero!
CENA VI
AMÉLIA e o ALMIRANTE
ALMIRANTE (vendo-a, para, depois estende-lhe os braços) - Amélia (abraçando-a) Por que não foste logo ver-me? Já sabes que consinto.
AMÉLIA - Oh! Sim! E eu lhe agradeço de todo o coração ter-me salvado da vergonha! É de joelhos que lhe peço que me perdoe tudo quanto lhe disse e que parecia uma ingratidão da minha parte para consigo, que é e tem sido sempre tão bom para mim!
ALMIRANTE - Levanta-te, nada tens que me agradecer como eu nada tenho a perdoar-te!
AMÉLIA - Oh! Meu padrinho!
ALMIRANTE - Se fui eu quem te ofendeu! O meu dever era obrigar meu sobrinho a casar contigo! E que fiz eu? Recusei que ele cumprisse o seu dever, e insultei a tua desgraça! Perdoa-me, filha? Perdoa a este pobre velho que tem sido bem desgraçado?
AMÉLIA - Oh! Meu padrinho! O céu há de abençoa-lo e faze-lo ainda bem feliz. Falta-lhe a sua verdadeira filha? Aqui tem uma! Hei de ama-lo tanto, que acabará por acreditar que nunca teve outra!
ALMIRANTE (triste) - Se tu soubesses como me foi penosa a tua ausência!
AMÉLIA - Mas aqui estou outra vez e agora para sempre!
ALMIRANTE - E teu pai? Onde está?
AMÉLIA - Vem já, pouco se demora!
ALMIRANTE - Que me espere e vá preparando os papéis que dizem respeito à minha filha. Pouco me demoro (vê Jerônimo). Ah! Falava de ti.
CENA VII
Os mesmos e JERÔNIMO
JERÔNIMO - Pronto, Almirante. O rapaz não tarda aí.
ALMIRANTE - Os papéis que te pedi?
JERÔNIMO - Ei-los aqui (dá os papéis)
ALMIRANTE (depois de ler) - Sim, é esta a sua letra! Que vejo! Maria! O nome de minha filha! Maria!
AMÉLIA - Maria! (a Jerônimo) Como? Não me disse ...
ALMIRANTE (lendo) - Tem um sinal na face esquerda e uma cicatriz no ombro!
AMÉLIA - Uma cicatriz ... um sinal!
ALMIRANTE (olhando Amélia) - Não me engano ... Não será ilusão dos meus olhos ... Meu Deus!
AMÉLIA (ansiosa) - Meu padrinho! Diga-me de quem é esta carta!
ALMIRANTE - Da minha mulher!
ALMIRANTE - Jerônimo! Onde está minha filha? Ontem completaram 20 anos, eu exijo que me entregues minha filha!
JERÔNIMO (comovido) - Sua filha!
ALMIRANTE - Quero-a! Onde está minha filha?
JERÔNIMO (comovido) - Sua filha, sua filha ... é aquela!
AMÉLIA - Eu? !
ALMIRANTE - Amélia!
JERÔNIMO (apontando Amélia) - Sim, ei-la!
ALMIRANTE (abrindo os braços) - Amélia, minha filha!
AMÉLIA (abraçando-o) - Oh! Meu pai! Meu pai!
ALMIRANTE (louco de alegria) - Tu és a minha filha! Ph! Abraça-me ... abraça-me por tantos anos de saudades!
AMÉLIA - Meu pai! Meu querido pai!
JERÔNIMO (à parte, triste) - Ei-los felizes! Parece que me rebenta o coração.
ALMIRANTE (abraçando Jerônimo) - Obrigado Jerônimo! Obrigado meu velho e leal amigo! É a minha filha! (abraçando Amélia) É a minha filha!
AMÉLIA (abraçando-o) - Sim, meu pai, amo-o de todo coração! A ti, meu velho amigo, a ti também te quero muito! Abraça-me! Serei sempre a tua filha adotiva! (abraçando-o). Perdoe, meu pai! Ao senhor só o conheço de hoje, a ele conheço-o desde criança! Amo-os ambos. Mas não posso esquecer que fui durante 20 anos a filha deste velho marinheiro (abraça-o).
JERÔNIMO (chorando e rindo ao mesmo tempo) - Ah! Com mil raios! Isto consola o coração da gente! Parece-me que até cresci mais! Tenho o coração a dar pinotes cá dentro, como uma galeota (barco) no alto mar em dia de tempestade! (Abraça Amélia).
JORGE (entrando) - Aqui estou meu tio.
ALMIRANTE - Vem Jorge! Aqui a tens, é tua esposa! Agora faça-a feliz!
JORGE - Ah! Meu tio! Quanto lhe agradeço!
AMÉLIA - Ah! Meu querido pai, como eu o amo!
JERÔNIMO - Até que enfim está tudo acabado! A menina é feliz. O Almirante está contente! Viva Deus! Deixa correr o barco que o vento é de feição! ... Com mil raios! ... É justo que depois do temporal Deus mande o bom tempo!
JORGE - Ah! Meu tio! Quanto lhe agradeço!
AMÉLIA - Ah! Meu querido pai, como eu o amo!
JERÔNIMO - Até que enfim está tudo acabado! A menina é feliz. O Almirante está contente! Viva Deus! Deixa correr o barco que o vento é de feição! ... Com mil raios! ... É justo que depois do temporal Deus mande o bom tempo!
FIM DO TERCEIRO E ÚLTIMO ATO
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