O ÚLTIMO GUILHERME


Apresentação

          APRESENTAÇÃO: "O Último Guilherme", é uma peça teatral em 3 atos, escrita  por Luis Iglesias, por volta de 1938.  Conta a estória de um homem (personagem Guilherme), com ideias muito avançadas para a sua época. Curioso, esta peça apesar de muito antiga, traz um prognóstico de acontecimentos que estamos vivenciando neste século XXI.  Ao mesmo tempo, nos alerta para a falácia destas ideias demoníacas, caso abraçadas pelas pessoas em detrimento de uma sociedade familiar.  A estória também é pincelada com menção a fatos históricos antigos e lendas mitológicas, o que enriquece o seu conteúdo, e nos remete à memória destes estudos que muitos de nós aprendemos nos bancos escolares secundários.  Vale a pena refletir sobre realidades atuais, ao longo das peripécias que se desenrolam no decorrer das cenas dramáticas desta estória.

 (Guilherme Köhn)


Peça em 3 atos

O

ÚLTIMO

GUILHERME


F I G U R A N T E S

Guilherme

Carlos

Job

Diabo

Nilo

Domingos

Garçom

Salme

Elena

Cidinha

Laura

PRIMEIRO ATO
C E N A I
(Interior do escritório de GUILHERME, na sua própria residência. Uma estante, uma mesa, uma poltrona de alto espaldar, tudo estilo colonial. Grupo a um canto.  Sobre a mesa, papéis, pasta, tinteiro, etc. Quando levanta o pano (ou cortinas), sentada na poltrona, CIDINHA, filha de Guilherme, dezoito anos, em flor, lê um livro. Batem doze pancadas em um relógio próximo.  É meia noite.  Surge Guilherme ao fundo.  Vem rigorosamente trajado.  Quarenta e cinco anos. Os cabelos, começam a embranquecer).

GUILHERME  - Você, acordada a esta hora, minha filha?
CIDINHA (erguendo-se e indo ao seu encontro para abraça-lo) - Não quis ir deitar-me sem lhe dar um abraço, papai.  Ouvi a sua conferência pelo rádio.  O senhor esteve admirável!
GUILHERME  - Obrigado, Cidinha.  E sua mãe?

CIDINHA  - Mamãe estava emocionadíssima!  Quase chorou, ao ouvir os aplausos que o senhor recebeu. Esperou-o até às onze.  Foi deitar-se há pouco... Também o Nilo esteve aqui, o meu noivo. Disse-me que não supunha tanto talento no senhor.  Mostrou-se mesmo surpreso, como um funcionário público, sempre dedicado aos trabalhos da sua repartição, pôde de repente, manifestar-se um intelectual do seu gabarito.

GUILHERME  - É... causou surpresa a todos.  Eu, o Guilherme de Moraes, um oficial de gabinete, sempre às voltas com pilhas de processos... eu, fazer uma conferência  daquelas! (Erguendo a cabeça, num gesto de vaidade incontida).  Mas fiz!

CIDINHA  - E o tema?... Avançadíssimo! "O Homem do Século Vinte e um"  Ninguém poderia supor no senhor, um homem moderado, chefe de uma burguesística família, aquelas ideias!  Ah, papai!  Depois de ouvir sua conferência, eu me sinto outra!  Completamente outra!  (outro tom);  A sua voz, através do rádio, deve ter sido ouvida por todo o Brasil... talvez, por toda a América, não é mesmo?

GUILHERME (grave)  - Talvez por todo o universo!
CIDINHA (beijando-o alegremente)  - Oh! Que felicidade!  Ter um pai célebre! (outro tom).  Não se demore aqui no escritório, papai.  Mamãe deve estar ansiosa para vê-lo.
GUILHERME  - Está bem. Não me demorarei.  Vou reler alguns Símiles.

CIDINHA  - Até amanhã, papai... (Numa reverência toda infantil). O homem do século vinte e um.
GUILHERME  - Até amanhã (Cidinha sai.  Só, vai à estante, tira um livro.  Apaga a luz.  Acende um abajur sobre a mesa.  Penumbra no resto da cena.  Absolutamente dominado por um enlevo estranho).  A minha conferência!  O meu talento!  O Brasil ouviu!  A América ouviu! O mundo ouviu! ...

(Senta-se, em atitude de grande pensador.  Repousa a cabeça entre as mãos.  Grande pausa.  De repente, sem ruído, da parede que fica atrás da poltrona, surge o DIABO, um diabo moderno, de casaca.  Como está, nota-se perfeitamente, dois pequenos cornos surgindo da apuradíssima cabeleira.  Mal ele surge em cena, a parede volta ao lugar, sem ruído de espécie alguma.  Guilherme, mais por intuição do que por ter ouvido qualquer ruido, volta-se e levanta-se, como impelido por uma mola.  A cena enche-se de uma luz avermelhada).

GUILHERME  - Que é isto?... Como entrou aqui?... Quem é o senhor?
DIABO (sorrindo)  - Não se assuste.  Calma.  Não venho buscar a sua alma.
GUILHERME (estremecendo)  - Credo!  É o Diabo!
DIABO (sempre amável) - Estimo que tenha me reconhecido antes de lhe apresentar o meu cartão de visita.

GUILHERME (procurando, dificilmente controlar os nervos)  - Esses chifres não me enganam...
DIABO  - Que inocência!  Um par de chifres nem sempre prova a presença do legítimo diabo!
GUILHERME  - Confesso-me nervoso. (faz o sinal da cruz).
DIABO (rindo)  - Não se ridicularize.  Já foi tempo em que o Diabo fugia do sinal da cruz.  Hoje... eu mesmo me benzo algumas vezes ante certos espetáculos que a humanidade oferece.

GUILHERME  - Mas... o que deseja?  O que quer de mim?
DIABO  - Pouca coisa.  Quase nada.  (Senta-se, naturalmente, e acende um longo cigarro que tirou de uma elegantíssima cigarreira).  Ouvi a sua conferência de hoje...
GUILHERME  - Meu Deus!  Até o Diabo!

DIABO  - O senhor estava magistral!  É raro encontrar no Brasil, criaturas que transmitam ideias tão avançadas.  Eu estava na China.  Dei um pulinho até aqui.
GUILHERME (já calmo)  - Muito obrigado.  Entretanto, confesso que a visita é um tanto importuna, não consigo suportá-la.

DIABO  - Não tanto quanto se, em vez de Diabo, eu fosse um homem.  Aprenda com Leopardi: "A coisa mais difícil do mundo é achar um homem suportável".
GUILHERME  - Acredito nesse tal Leopardi, mas não desejo, absolutamente, ter qualquer espécie de relação com o príncipe das trevas...

DIABO (sorrindo)  - Vê?  Não há epiteto mais ridículo.  Calúnias do catolicismo.  Príncipe das trevas, é o pobre diabo que não tem lume em casa para se alumiar.  A minha casa é perfeitamente iluminada!  Meu caro amigo, venho conversar contigo, porque, depois da tua conferência de hoje, o senhor se alistou espontaneamente,  nas fileiras dos meus adeptos.

O senhor fez a apologia das ideias avançadas.  Toda ideia avançada, sou eu quem a sugere.  Deus, o meu eterno rival, proíbe que o homem devasse os mistérios do infinito.  Eu sugestiono o homem, inspiro-lhe os mecanismos diabólicos e, lá se vai ele, cada vez se embrenhando mais no infinito, montado em pássaros de aço.  Na industria, nos sentimentos, na moral, lá estou eu, sempre metendo o nariz...

Deus destrói com um simples sopro o mais gigantesco dirigível.  Incito o homem... e ele constrói outro muito maior!  Deus irradia, através da Igreja, os mais práticos sentimentos.  Eu sirvo-me da política e conflagro o mundo.  Deus inspira o cérebro dos homens e eles escrevem lições de rígida moral.  De vez em quando, transvio um só que põe mais veneno num livro, que toda a moral de um milhão de livros.  Isso desde Aristophanes.

GUILHERME  - Muito interessante esse palavrório, mas, meu caro Lúcifer, lastimo que você depois de ser anjo, tenha caído do céu e, agora, a conspirar contra o Criador.  Eu não me presto a isso...
DIABO  - Não se presta?  Quem foi que disse?  E se viesse aqui um Luciferzinho nacional, desses caídos do céu governamental, e lhe propusesse uma revoluçãozinha, garantida, para tomar conta do tal céu cobiçado? Hein?  E se o senhor soubesse que, vencida a revoluçãozinha, passaria imediatamente, de oficial de gabinete a ministro?

GUILHERME  - Não sou revolucionário.
DIABO (rindo)  - Todos os homens são revolucionários.  O industrial só pensa em revolucionar o mercado com o seu produto.  O sábio sonha revolucionar a ciência com novas descobertas.  A modista revoluciona a moda com figurinos cada vez mais audaciosos.  E até um miserável carrinho de mão revoluciona o tráfego de uma avenida, quando o seu condutor é teimoso como um burro.

Lembre-se que o cristianismo foi a consequência de uma revolução.  Quem foi Jesus Cristo?  Um revolucionário.  Tanto conspirou contra o regime da época, que o condenaram a morrer na cruz. (outro tom). O senhor, hoje, revolucionou a sua família com aquelas ideias avançadas expedidas através do rádio.
GUILHERME (impaciente)  - Finalmente, diga logo o que quer de mim?

DIABO (levantando-se)  - Transforme as suas palavras em atos.  Pratique a sua teoria.  Avance.  Deixe a pele de pacato funcionário público e encarne-se nessa outra personalidade: o homem do século vinte e um!  E não se esqueça disto:  o seu nome é Guilherme.  O último Guilherme de uma hierarquia de heróis!  O senhor traz a predestinação do nome.

Todos os Guilhermes foram reis, imperadores e guerreiros!  Desde o Século oito.  Os Guilhermes começaram com São Guilherme,  Duque de Aquitânia, parente de Carlos Magno, que bateu os sarracenos, no ano 812.  Depois, três Guilhermes imperaram na Alemanha.  Outros quatro Guilhermes reinaram na Inglaterra.  Guilherme,  o Leão,m reinou na Escócia.  Dois Guilhermes foram senhores da Normandia.

Mais outros dois reinaram na Holanda.  Três Guilhermes tiveram a Sicília nas mãos.  Guilherme Tell libertou a Suíça do jugo da Áustria.. Ouviu?  Entendeu... E não será o senhor, o último Guilherme sobre a terra, quem há de envergonhar os seus xarás antepassados.  Porque um homem que se chama Guilherme, tem deveres a cumprir com a História!

GUILHERME (completamente enlevado pelas palavras do Diabo)  - Realmente... os Guilhermes, a História... (numa fraca reação).  Mas eu não quero pactos com o Diabo!  Não me seduz representar de Fausto!
DIABO  - Aí está Fausto!  O resultado de um pecado que praticamos ambos:  eu e o Criador.  Pois, não dizem que o jogo é um pecado?  E o que foi a história de Fausto, senão a consequência de uma aposta entre eu e o Criador?  E o que é uma aposta, senão um jogo?

GUILHERME  - Mas o Criador saiu vencedor.  Ficou com a alma do Fausto.
DIABO (rindo)  - A mim, nunca interessou a alma do Dr. João Fausto.  O que me interessava era manter o Criador num joguinho.  Deixei-o ganhar a primeira parada.  Uma espécie de pulo dos noivos... (outro tom). Com o senhor, o caso muda de figura:  ofereço-lhe a fama!   As suas conferências revolucionarão a época!  O senhor vai servir de exemplo aos seus ouvintes!  Der-lhe-ei as mais estranhas inspirações!  Pratique-as... (Diabólico).  Em troca, terá a prosperidade, a glória, mulheres!

GUILHERME (escandalizado)  - Mulheres!  Eu tenho a minha esposa...
DIABO  - Lá vem a burguesia... E o que tem sua esposa a ver com isso?  Esposa é uma coisa, mulheres...é outra coisa.  Um marido não precisa deixar de ser um bom marido, só porque conhece outras mulheres fora de casa.
GUILHERME (olhando-o desconfiado)  - O senhor também diz isso às esposas?

DIABO  - Naturalmente que, à sua não direi, se sairmos daqui combinados...
GUILHERME  - Mas, se não sairmos combinados?
DIABO  - Então... vou direitinho aos ouvidos de sua mulher, e sopro-lhe a mesma coisa.
GUILHERME (semi exaltado)  - Sr. Diabo!  Se não fosse uma redundância, chama-lo-ia de patife!

DIABO (sorrindo)  - Não me ofende.  Nada é mais agradável que ver um homem exaltado.
GUILHERME  - Ou uma esposa desencaminhada...
DIABO  - Egoísta!  Quer desencaminhar-se sozinho, hein?  Começo a colher frutos do meu trabalho. O senhor já está se tornando um diabinho bem regular... Firmamos o nosso pacto e fique descansado Sua esposa não fugiu ao padrão deixado por Schopenhauer.

Se eu não influir no seu instinto, ela será, apenas um ser passivo, destinado à obediência.  A honra, esse espantalho social, na mulher casada se baseia na fidelidade ao seu marido.  E o catolicismo se encarrega de incutir-lhe o pavor da desonra.  Cá pra nós, nesse ponto, o catolicismo é bem camarada dos homens, hein?  Aquela Madalena metida na história de Cristo, foi um anjo providencial para os homens casados.  E ninguém se lembrou de criar também, um Madaleno (ri).

GUILHERME  - A verdade é que os homens necessitam de várias mulheres...
DIABO (batendo palmas)  - Bravo!  Eu não te digo?  Estamos de acordo.
GUILHERME (num estranho debate interior)  - Mas... Sr. Diabo, porque este egoísmo repentino toma conta de mim?

DIABO  - o egoismo tem em cada homem raízes tão fundas, que os motivos egoístas são os únicos com que se podem contar com segurança para excitar a atividade de um ser individual.  (outro tom). Não se esqueça de tudo que lhe disse.  O senhor é um Guilherme!  Vou-me embora.
GUILHERME  - Tenha a bondade de não se evaporar na minha frente.  Deixar-me-ia arrepiado... e o gabinete cheirando a enxofre.

DIABO (sorrindo)  - Sossegue.  Um diabo moderno como eu, usa os mais refinados perfumes... E não me evaporo.  Saio pela porta, para não impressiona-lo.  Na rua, em frente à sua casa, deve estar um torpedo a minha espera, fabricado especialmente para mim, pelo Auto Union.
GUILHERME  - Vai a um cassino?

DIABO  - Vou à Russia.  Tenho uma entrevista marcada com Stalin. (notando certa apreensão em Guilherme).  Não se assuste.  Sei separar, perfeitamente os meus casos.  Depois, estou enjoado daquele camarada... Qualquer dia, largo-o de mão e o senhor verá que insípido burguês se esconde atrás do meu pupilo (sorri).
GUILHERME  - Se for possível, veja se não me aparece mais...

DIABO  - Obrigado.  Creio que não preciso aparecer... A semente está bem semeada.  (curvando-se). Até um dia, último Guilherme... (encaminhando-se para a porta.  Vendo que Guilherme se dispõe a segui-lo).  Oh! Não é preciso.  Fique onde está. Dali do corredor, pretendo dar um salto até o meu automóvel.  E os meus dotes acrobáticos poderiam amedrontá-lo.  A maior ciência do Diabo está em evitar que os homens lhe tenham medo... (sai).

GUILHERME (só, volta a sentar-se na poltrona diante da mesa)  - Que coisa fantástica!  O último Guilherme... reis... Guerreiros... eu... (repousa novamente a cabeça entre as mãos.  Nova grande pausa.  Cidinha e Salme, esta em plena floração de seus 35 anos, ambas de pijama, entram).
SALME  - Veja, minha filha... seu pai adormeceu.

CIDINHA  - Eu o preveni que não se demorasse no escritório.
SALME  -- Deve ser a prostração que sucede as grandes emoções...
CIDINHA (tocando meigamente no ombro de Guilherme)  - Papai... papai...
GUILHERME (erguendo-se, violentamente, com grande espanto de Salme e Cidinha, que recuam)  - Basta!  Não quero mais ouvi-lo, seu Diabo!  Ponha-se já pra fora!  Rua! Já!

SALME  - Que é isso, Guilherme?
GUILHERME (reparando nelas e olhando em redor) - Hein?  Eram vocês?
CIDINHA  - O senhor está nervoso... Vá deitar-se, papai...
GUILHERME  - Mas, eram vocês?... (Passa a mão sobre os olhos)

SALME  - Vamos dormir, meu querido.  Amanhã, quero-te com a memória bem fresca, o cérebro bem descansado, para entusiasmar, novamente os teus ouvintes.  (Vai levando-o abraçado, em direção à porta)
CIDINHA (sorrindo)  - A caminho, ilustre varão que avançou um século!
GUILHERME (com um certo orgulho)  - O último Guilherme!  Não se esqueça: o último Guilherme! (vão saindo os três)
peça teatral



(FECHA A CORTINA)

C E N A  II

(Sala de estar da casa de Guilherme.  Uma mesinha.  Sobre esta, um telefone e catálogo.  Móveis comuns.  Um rádio.  Oito e meia da noite seguinte  à CENA I  - Estão em cena: SALME, CIDINHA e NILO, rapaz de 25 anos, noivo de Cidinha.  Os três, em torno do aparelho de rádio, ouvem a voz de Guilherme, irradiando o final de uma nova conferência).

A VOZ DE GUILHERME (através do rádio)
Meus caros ouvintes.  A minha conferência de hoje estendeu-se demasiadamente e, vou finaliza-la, fazendo um apelo a todos vós que me ouvis:  - Velhos!  Por mais velhos que sejais, aproveitai os poucos dias que vos faltam para encerrar a vossa trajetória pela vida e...avançai!  Sempre para frente!  A mocidade é o toque do clarim ordenando o avanço na batalha da vida!

Crianças! Prestai bem atenção a um único verbo da vossa gramática, o verbo que é a síntese  da vida moderna, o verbo que, sozinho, encerra todos os verbos, o verbo avançar!... Lembrai-vos do indicativo desse verbo:  Eu avanço, tu avanças, eles avançam... Avançai!  Porque se vós não avançais, eles avançam... E tenho dito. 

SALME (desligando o aparelho)  - Mais uma vez, meu marido esteve brilhante!
CIDINHA  - Papai é um colosso!  Esta série de conferências vai imortaliza-lo...
NILO  - Que noções esclarecidas do modernismo tem o meu futuro sogro. 
CIDINHA  - Papai é um velho diferente dos outros velhos, não é mesmo, Nilo?

SALME  - Que é isso, Cidinha?  Seu pai não é um velho.  Pode chamar-se de velho, um homem com quarenta e poucos anos?
CIDINHA (rindo)  - Olha a mamãe defendendo o pedaço dela!...
NILO  - Tem razão, Dona Salme.  Um homem com essa idade é, apenas, um jovem maduro.  Dizem até que a vida começa aos quarenta. 

CIDINHA  - Pois olhe, Nilo:  você, apesar de meu noivo, tem licença para começar a sua vida desde já, se é que ainda não começou.  Aos quarenta, quero-o bem sossegadinho e cansado de todas as loucuras, ouviu? 
SALME (sorrindo)  - Esse receio não tenho eu.  O Guilherme é um homem pacato, amigoi do lar, metódico... quase um homem antigo.

NILO  - Que graça!  O reverso das ideias incendiarias que transmite pelo rádio.  Aliás, não me espanta.  Dizem que Albino Forjaz de Sampaio é o mais exemplar chefe de família que existe em Lisboa.
CIDINHA  - E o Berilo Neves?  Não acaba de casar-se? ,,,
SALME  - Daí se conclui: nem tudo que os homens escrevem ou dizem, deve se levar a sério.

NILO (rindo)  - Já dizia Frei Tomaz:  "Faze o que eu digo e não o que eu faço".  Pois eu lhe afianço, D. Salme, que a cidade inteira, ouvindo as conferências do seu marido, há de julga-lo um espírito liberto de todos os preconceitos de uma atividade dinâmica.  Um homem capaz de fundar, em sua casa, uma colônia nudista e se ficar provado que o nú ao ar livre beneficia a saúde!

SALME  - Credo!  O Guilherme apologista do nú?  Ele que não admite um decote um pouco mais cavado em mim ou na filha!  Olhe, Nilo... o Guilherme é um homem escrupuloso que nunca me levou a um desses casinos cariocas...
NILO  - Pois, são ambientes puramente familiares...

SALME  - É para você ver...
CIDINHA  - Não há dúvida.  Papai é um Catão (de princípios severos)
SALME  - Meu pobre marido!  Um santo, a passar por demônio... (Entram: GUILHERME, CARLOS E ELENA, os três em traje de gala.  Carlos, 30 anos, Elena 25 anos).

GUILHERME (do fundo)  - Salve!  Folgo em ver toda a família reunida.
CIDINHA (indo a ele)  - Boa noite, papai.
SALME (aproximando-se de Guilherme, que lhe deposita um beijo na testa)  - Boa noite, querido...
NILO  - Meus parabéns, Sr. Guilherme.  A conferência de hoje suplantou a de ontem.

GUILHERME  - Obrigado.  Quero apresentar-lhe dois amigos meus:  Mme. Elena de Toledo e o Dr. Carlos Verona, cronista social e político da estação de rádio onde estou fazendo as minhas conferências... Duas criaturas modernas e admiráveis.  (a Carlos e Elena).  Minha esposa, minha filha e meu futuro genro.  Como veem toda a sagrada família!  (Risos. Cumprimentos de costume).

ELENA (a Salme)  - Oh, minha senhora!  Como invejo a sua felicidade!  Seu esposo é um homem brilhante! Um homem que põe poesia nas coisas mais materiais deste mundo.
SALME  - Agora é que a senhora disse tudo.  Guilherme sempre foi um poeta.
GUILHERME (escandalizado)  - Poeta, eu?...

SALME  - Sim, você! (aos presentes).  Quando o conheci, tinha publicado um livrinho de versos que se chamava... chamava... Esperem... Ah! Recordo-me agora: "Escrínio da divina amargura"!
CARLOS  - Poeta, hein?  Poeta e não dizia nada... Mais uma faceta desse talento multiforme.
ELENA  - Posso ler o livro?

GUILHERME  - Não existe dele, nem o original.  Queimei tudo!  Deus me livre, saberem que fui poeta!  Seria a ruína das minhas teorias.  Eu, o homem avançado, o homem que só olha para frente, ex-fabricante de versinhos piegas!
SALME  - Guilherme!  A poesia enobrece.

GUILHERME  - Não no Brasil.  Aqui, a poesia desmoraliza.  Não há pior recomendação para um homem que a de ser poeta.  É um vocábulo pejorativo.  Quando se encontra na rua um malandro qualquer, desses que nos tomam um dinheirinho para o almoço, o cumprimento é sempre este: "Olá, poeta"  (Risos).

CARLOS (consultando o relógio)  - Meu caro Guilherme, já passam das dez.  Convém que te apresses para podermos assistir ao programa do Casino.
GUILHERME  - Ah, é verdade. (à Cidinha e à Salme).  Vocês querem vir conosco?
CIDINHA  - Aonde, papai?

GUILHERME  - Ao Cassino.  Estreia esta noite uma bailarina que baila completamente nua.
SALME  - Oh!
NILO (à Salme)  - A senhora ouviu bem?
SALME  - Guilherme.  Queres levar-nos a... a esse lugar?

GUILHERME  - Naturalmente.  O que tem isso?
CIDINHA (alegremente)  - Eu vou.  Posso ir vestir-me, papai?
SALME  - Consulte também o seu noivo...
NILO (indeciso)  - Eu... eu... (à Salme, baixo). D. Salme, estou surpreso.

CIDINHA  - Deixe, sim Nilinho?  Deixe!
GUILHERME  - Vá vestir-se.  Seu noivo é um rapaz moderno.
CIDINHA  - Vou... em um minuto! (sai correndo).
NILO (à Guilherme)  - Mas... será próprio para uma moça o programa do Cassino?

ELENA  - Pode ficar descansado, meu caro senhor.  É um programa artístico.
SALME  - Com uma mulher nua?
CARLOS  - O nú, nem sempre é imoral, Mme. Salme.  Pode, também, ser uma manifestação de arte.

GUILHERME (à Salme)  - Deixemos dessas ridículas convenções passadistas, minha querida.  Por que todo esse escrúpulo por causa de uma bailarina que dança nua?  Adão e Eva andavam nus e eram o símbolo da pureza.  Só depois do pecado original é que se cobriram.  Cobriram-se para que?  Para fazer do nú uma tentação sempre nova... Cobriram-se por vício!  E os homens depois, fizeram desse vício uma industria. Porque razão não é imoral andarem nus, na nossa frente, os cães, os cavalos, os bois? Por que?

SALME  - São animais irracionais.  Não têm noção do pudor.
GUILHERME  - Que pudor!  O que eles não têm é alfaiates e modistas.  Quando um animal qualquer lembrar-se de fabricar um terno de roupa ou um vestido, lá se vai a inocência dos animais por água abaixo! Todos ficarão crentes de que o nú é imoral.

CARLOS  - Muito bem.  Isso é que é falar.  A verdade é que, nós todos, no íntimo, pensamos assim.  Só nos falta a coragem de confessar os nossos pensamentos.
NILO  - Naturalmente.  Por princípios de educação.
GUILHERME  - Por princípios de fraqueza, diga você.  A educação, em certas ocasiões, é uma fraqueza!  O homem que não diz o que pensa é um fraco.

CARLOS (sorrindo)  - A maioria não diz o que pensa por uma questão de preguiça, porque não pensa em nada...
GUILHERME  - Por preguiça de pensar, é que, em nossa terra, uma dezena de cérebros pensa por quarenta milhões de cabeças.  E sabem do que mais?  Viva o nú!

SALME (pondo-lhe a mão na testa)  - Meu querido... Você tem certeza de que não está com febre?
NILO (baixo à Salme)  - Só lhe digo uma coisa, D. Salme: era uma vez um Catão.
LAURA (criada)  - Patrão, está lá fora o Domingos, o motorista.  Diz que o senhor telefonou para ele pedindo que viesse cá às dez horas.

GUILHERME  - Ah, é verdade: Manda-o entrar.  (Laura sai.  À Salme) - Minha boa Salme, aconselho-te receberes esta surpresa... sentada.
SALME  - Surpresa?  (para Nilo).  Chego a estranhar o meu marido.
NILO  - Para mim, depois daquela estória do nú, tudo o mais é possível.

LAURA (da porta)  - Pode entrar.  (entra Domingos, tipo modesto, aparentando 50 anos.  Traz um boné de motorista na mão)
DOMINGOS  - Com licença... Boa noite. (à Guilherme).  Eu estava no meu carro ali, na esquina, quando recebi o seu recado.

GUILHERME (a Elena e Carlos)  - O Domingos é o motorista mais competente aqui do bairro.  Sirvo-me do seu carro todos os dias para ir à repartição.  Isto é, servia-me.
SALME  - Como assim?
GUILHERME  - Já não me servirei dentro de alguns dias.  Comprei um Cadilac.  Vão me entregar amanhã.

SALME (no auge do assombro)  - Você? ...
ELENA  - E que lindo carro!  Acabamos de vê-lo na vitrine da agência.
CARLOS  - Isso não podia deixar de acontecer... Um homem moderno sem automóvel é como um brilhante fora do encaixe: difícil de se admira-lo!

DOMINGOS  - E foi para ouvir essa triste notícia que o senhor me chamou?
GUILHERME  - Triste notícia?
DOMINGOS  - Naturalmente.  Acabo de perder o melhor freguês do bairro.
GUILHERME (sorrindo)  - Mas terá uma compensação.  Diga-me Domingos, acha possível ensinar-me, em poucos dias, a dirigir o meu carro?

DOMINGOS  - Como não, Sr. Guilherme?  Podemos começar amanhã, se o senhor quiser.  Em poucos dias, estará pronto.  Primeiro, aprenderá a dar saída no carro.  Depois, as mudanças das marchas: primeira, segunda... Depois, segurança no volante, respeito aos sinais, e por fim, a marcha a ré.  E pronto.

GUILHERME  - Marcha a ré não me interessa.  O que eu quero é andar, sempre para frente e o mais veloz possível.
DOMINGOS (rindo)  - Saber dar marcha a ré, é tão importante como saber avançar.
GUILHERME  - Recuar, não faz parte do meu programa.  Na minha vida, nunca recuei.  Avançar!  Eis o meu lema.

DOMINGOS  - Pois, fique sabendo que não há nada mais importante que uma marcha a ré a tempo.
GUILHERME (rindo)  - Está bem, Domingos... Começaremos amanhã, não é?
DOMINGOS  - Como o senhor quiser.  Amanhã de manhã?
GUILHERME  - Combinado.
DOMINGOS  - Então, até amanhã.

GUILHERME  - Até amanhã (Domingos sai).
NILO (a Guilherme)  - Então, está mesmo resolvido a se transformar num temível volante?
GUILHERME  - Primeiro, o automóvel.  Depois, o avião.
SALME  - Que? ... O avião também?

GUILHERME  - Tudo quanto houver de mais avançado!
CIDINHA (entra com uma mimosa soirée)  - Pronto.  Podemos ir.  Mas... (Reparando em Salme).  Mamãe não vai conosco?
SALME  - Não.  Estou muito cansada... Seu noivo irá com você.

GUILHERME  - Na ida, passaremos pela casa do Nilo, e ele trocará de roupa.
NILO  - Obrigado.  Não se incomodem comigo.
CARLOS (sorrindo) - Pode viajar na barata de Mme. Elena, sem susto. Ela é uma perfeita volante.
ELENA  - O meu Chevrolet não comporta a todos.
NILO  - Já disse que não se incomodem comigo.

CIDINHA (a Nilo)  - Faço questão que venhas conosco.
CARLOS (a Nilo) - Pode ir no carro com Mme. Elena.  Eu tomarei um táxi, e irei diretamente para o cassino.
GUILHERME (consultando o relógio)  - Para que o Nilo mude de roupa, não percamos tempo.  às onze começa o show.  (beijando Salme).  Até logo, Salme.

SALME  - Até logo.
CIDINHA (beijando Salme)  - Boa noite, mamãe.
SALME  - Juizo, hein?  (cumprimentos de despedida, Vão todos saindo.  Salme, só, senta-se pensativa)
LAURA (aparecendo)  - Deseja mais alguma coisa, minha senhora?

SALME  - Não, Laura.  Feche bem a porta do jardim e pode ir deitar-se.
LAURA  - Boa noite.
SALME  - Boa noite.  (Laura sai.  Salme, só, toma uma revista e começa a folhea-la displicente).
LAURA (da porta)  - Madame...

SALME (assustando-se)  - Credo!  Assustaste-me.  Que deseja?
LAURA  - Aquele senhor voltou...
SALME  - Quem?
CARLOS (surgindo)  - Sou eu, Madame Salme.  (Salme levanta-se).  Não se incomode.  Esqueci a cigarreira. (Laura sai).

SALME  - E... os outros?
CARLOS  - Já partiram.  Quando ia tomar um taxi, quis fumar um cigarro e vi que tinha esquecido a minha cigarreira aqui.
SALME  - Onde teria ficado?  (Começa a procurar).
CARLOS (olhando-a firme)  - Parece incrível!

SALME (que continua procurando)  - É verdade.  às vezes os objetos estão na frente dos nossos olhos e ninguém os vê...
CARLOS (parado, examinando-a de alto a baixo)  - Tem toda a razão.  Isso, em geral também acontece com os maridos... Teem lindas esposas na frente dos olhos e não lhes dão importância.  (Salme pára, surpreendida, olha-o como a estudar-lhe a fisionomia e continua a procurar nervosamente a cigarreira). O Guilherme, por exemplo...

SALME (abreviando)  - O senhor tem certeza de que deixou a cigarreira aqui?
CARLOS  - Tenho a certeza de que deixei aqui alguma coisa.
SALME (parando e olhando-o com altivez)  - Queira explicar-se, meu caro senhor.
CARLOS  - Mas, ainda não compreendeu?  Leia nos meus olhos.

SALME  - Estou convencida de que deixou a cigarreira em outro lugar.  Vou chamar a criada para acompanha-lo. (Dirige-se à porta).
CARLOS (interpondo-se entre Salme e a porta)  - Não antes de ouvir-me (inflamado).  A cigarreira foi um pretexto... Eu precisava falar-lhe a sós...

E essa necessidade assaltou-me desde o primeiro momento em que entrei nesta casa!  Eu a conheço há muito tempo!  Eu a venho seguindo na rua não sei há quantos meses...Eu a tenho devorado com os olhos, de longe, cada vez mais faminto deste amor que me mata... (Dá um passo para ela).
SALME (recuando)  - O senhor enlouqueceu!

CARLOS  - Enlouqueci, sim de amor!  Aproximar-me de Guilherme, foi um pretexto para aproximar-me de ti!
SALME  - A sua traição é tão abjeta que eu deveria esbofeteá-lo.
CARLOS (mais inflamado)  - Não importa.  No amor, como na guerra.

SALME  - Tivesse, ao menos o escrúpulo de esconder o seu amor!
CARLOS  - O amor é livre.  Não se deve esconder o mais belo e o melhor da vida.  O instinto reflete a sua alegria, mostra a sua pujança em plena luz.
SALME  - O senhor se esqueceu de que sou uma mulher casada e honesta.  Não percebo o que poderia esperar de mim...

CARLOS  - Tudo!
SALME  - Não traio meu esposo.
CARLOS  - A mulher tem absoluto direito de trair o marido ou o amante. É um direito indiscutível.  A mulher ama o amor.  E o amor não se chama Roberto, Henrique, Alfredo... chama-se amor!  (Avança para ela).  Diga-me... diga-me que posso ter uma pequena esperança...

SALME (recuando)  - Basta!  Contarei tudo a meu marido.  E ele há de ver que canalha se infiltrou em nosso lar!
CARLOS (altivo)  - Conte!  Eu estou disposto a tudo porque te amo!
SALME (indo à porta e chamando)  - Laura!

CARLOS  - Não se esqueça.  Eu a amo!  E nada me fará esquece-la...
LAURA  - às ordens, minha senhora.
SALME  - Acompanhe o Sr Carlos até o portão.  E feche bem a porta do jardim.
LAURA  - Sim, minha senhora. (Carlos curva-se.  Salme volta-lhe as costas.  Sai Carlos, acompanhado de Laura)

SALME (só, presa de uma visível agitação, torce as mãos em desespero.  De repente, vai à mesinha onde está o telefone e começa a folhear, nervosamente, o catálogo.  Encontra o número, pega no fone e disca, sempre presa de enorme agitação).  - Quem fala?  É da casa do Sr. Nilo?  Graças a Deus!.  Quem fala é Salme... Meu marido está aí?  Por favor, chame-o ao aparelho.  Sim.  Por favor!  (Pequena pausa).

Guilherme... eu (nova pausa pequena).  Eu estou nervosa!  Eu preciso de ti... Hein?  São os meus nervos?...  Não podes deixar de ir ao Cassino?  Está bem... Não... Não há de ser nada.  Tens razão.  São os meus nervos.  Já passou.  Obrigada, querido.  Até logo.  (Desliga.  Pausa.  E, logo, deixa-se cair sobre a mesinha, num pranto convulso)
FIM  DA  CENA  II

Guilherme

CENA III
(Abre-se a cortina um metro e meio de cada lado, mais ou menos, deixando ver ao centro, o ângulo de um grill-room.  Uma mesa quadrada, Champanhe, taças.  Estão sentados em torno da mesa:  Guilherme, Cidinha, Elena, Nilo e Carlos.  Um abajur).

GUILHERME (ligeiramente embriagado)  - Garçom!  (Surge o garçom). Mais champanhe!
CIDINHA  - Papai!  Quatro garrafas?
GUILHERME  - Não tem importância.  (Ao garçom).  E bem gelada  (Garçom sai).
ELENA  - A bailarina nua foi um fracasso...

GUILHERME  - Ora!  Ela não estava nua...  Estava toda pintada de ouro...
CIDINHA  - Estava nua sim, papai.  Eu reparei.
GUILHERME  - Nua estaria, sem a tinta... (à Cidinha).  Esquecia-me de te avisar, minha filha.  Enquanto estávamos em casa do Nilo, tua mãe me telefonou...

CARLOS (estremecendo)  - Aconteceu alguma coisa à madame?
GUILHERME  - Nada... Contou-me...
CARLOS (apreensivo)  - Contou-lhe...
GUILHERME  - Contou-me que tinha sido acometida de um acesso de nervos.  Nada de importante.

ELENA (num suspiro)  - Ah!  O matrimônio!  O matrimônio!
NILO  - Talvez não tenha sido muito prudente deixarmos a Mme. Salme sozinha...
GUILHERME (rindo)  - Ora, meu rapaz!  Salme não é nenhuma donzelinha casta e pudica que necessita de sentinelas à vista para defende-la contra raptores do Século Dezoito ...

CARLOS  - Sabe-se lá...  Os homens são audaciosos!  (Surge o garçom com uma garrafa de champanhe).  Serve a todos e sai novamente).
CIDINHA  - Papai... seria melhor o senhor não beber mais...
GUILHERME (bebe o conteúdo da taça)  - Com este calor, a champanhe gelada é um néctar dos deuses!  (A Carlos).  Por falar em deuses, meu Caro Carlos, em matéria de mulher, fico com as leis de Manú!

CIDINHA  - Quem é esse Manú?
GUILHERME  - Manú?  É um semideus dos brâmanes.  Como essas leis seriam bem-vindas agora... Deveres da mulher: rir, se o marido ri;  se ele está triste, ela estará triste;  se ele chora, ela chorará;  se o marido se encoleriza, ameaçando-a, dirigindo-lhe injúrias grosseiras, chegando-lhe a bater injustamente, ela não lhe responderá senão com doçura, tomar-lhe-á as mãos, beija-las-á, pedir-lhe-á perdão, em vez de bradar aos céus e fugir de casa.

ELENA  - Que lindo!
GUILHERME  - Pelas leis de Manú, um homem poderá adquirir nova esposa, se a primeira é estéril ao cabo de oito anos;  se lhe morreu todos os filhos, ao cabo de dez;  ou só tendo filhas, ao cabo de onze anos!  Mas aquela que se mostrar geniosa e rebelde, será rebaixada à categoria de esposa reserva... e adquirir-se-á outra.  (Risos.  Bebe outra taça).

CIDINHA  - Pois, comigo é que um marido não aplicava semelhantes leis...
CARLOS (sorrindo)  - Quando uma jovem casa, não sabe nunca se, atrás da máscara do noivo, existe um santo ou um Manú.
ELENA  - Há noivos encantadores antes do casamento, mas que se mostram insuportáveis a partir do momento em que os laços se tornam legais e sólidos.

GUILHERME  - Por isso é que eu vou lançar a ideia do casamento experimental.  Uma adaptação das ideias de Leon Blum, que defende a liberdade amorosa das jovens.  O casamento experimental será uma união completa de dois seres.  Seis meses de convívio.  No fim de seis meses, ou casam, ou volta cada um para sua casa, a espera de nova experiencia.
NILO  - E... o senhor admite isso?

GUILHERME  - Naturalmente.  Quando uma jovem se casasse, nada já teria que aprender.  Também não se comprometeria às cegas, e não mais faria promessas... sem saber em que consiste o objeto dessas promessas!
ELENA  - Bravo!  As suas teorias empolgam!
CIDINHA  - Essa estória do casamento experimental não é nada má.  Só me parece que atenta contra a moral.

GUILHERME  - Que moral!  Cada qual que crie uma moral a seu gosto, porque a moral é uma questão de hábito.  Anatole France explicou: "Chamamos bons costumes aos costumes habituais, maus costumes aqueles aos quais não se está acostumado".  Acostumando-se alguém com estes, inverte-se a ordem dos mesmos e continua tudo dentro da mais sólida moral.

 Imbecis são os que tomam a sério a moral, como algo absoluto, imóvel, fora de discussão, intangível e inviolável. Pelo contrário, a moral há de ser discutida e há de se desenvolver-se conforme as necessidades da felicidade humana.  Viva Pitigrilli, quando afirma que a moral é como o binóculo de teatro:  se alonga, se encurta, se reduz, se aumenta, amplia ou estreita o campo de visão, obedecendo ao parafuso que há entre os dois oculares.  (Enche a taça e bebe de um só trago).

NILO ( à Carlos)  - Aí está.  Nesse caso do casamento experimental, parece-me que ele tem razão, não é?
CARLOS  - O Guilherme tem sempre razão! É um espírito esclarecido. (Ouve-se a orquestra que começa a executar um fox)

NILO (à Cidinha)  - Vamos dançar, Cidinha?
CIDINHA  - Vamos.  (Levantam-se os dois e saem de cena)
CARLOS  - Com licença.  (Ergue-se)  Vou dançar com uma garota com quem estou flertando desde que chegamos... (sai).

GUILHERME  - Quer dançar, Elena?
ELENA (segurando-o por um braço)  - Não.  Deixe-me ficar contigo a sós, por alguns minutos.
GUILHERME (bebe outra taça de champanhe)  - Também para mim, é muito agradável.
ELENA  - Se soubesse como me impressionaram aquelas leis de Manú!  Sinto que seria capaz de obedece-las, cegamente...

GUILHERME (visivelmente embriagado)  - Não diga...
ELENA  - Principalmente, se meu Senhor fosse um homem adorável como você, Guilherme!  Um homem com o seu talento, um homem com os cabelos grisalhos... e um espírito ardentemente moço como o seu!  Que felicidade, Guilherme, poder ama-lo!
GUILHERME (fitando-a com dificuldade)  - Elena! Você sabe que nasceu de um ovo?

ELENA  - Que diz?
GUILHERME  - Nasceu de um ovo sim, senhora.  Um ovo chocado por Lêda.  Como vão seus irmãos Castor e Pollux?
ELENA  - Mas, eu não tenho irmãos!
GUILHERME  - Psiu!  É muito feio renegar a família.  Como vai Menelau, um dos seus maridos?

ELENA  - Que Menelau?  (Outro tom)  Ouça-me Guilherme.  Eu desejo falar-lhe de meu amor... Quero aproveitar estes poucos minutos para dizer-lhe que não me importaria de ser sua, mesmo que isso me arruinasse perante a sociedade...
GUILHERME  - Quer que fujamos?  Nunca!  Eu não sou Paris, rainha de Esparta!  Para que?  Para me mandarem um cavalo recheado de gregos?  Não tenho jeito para herói da Ilíada, nem a minha custa Homero há de criar maior fama!

ELENA  - Oh, cale-se, Guilherme!  Você está bêbado... E eu preciso tanto que você compreendesse a minha sinceridade!
GUILHERME (olhando-a)  - Elena!  Quando você morrer, vai transformar-se numa estrela!  Eu já lhe disse que deixei de ser poeta há muitos anos... Não posso mais perder tempo conversando com as estrelas...

ELENA (passando-lhe os braços pelo pescoço)  - Venha comigo... assim... tonto de champanhe.  Eu lhe realizarei um milhão de cuidados e de carinhos, Guilherme!  Você será rei e senhor do pequenino reino de sonho que é a minha alcova!  (Surge o Garçom e fica observando).

GUILHERME  - Poderemos vestir túnicas gregas?  Que bom!  Com este calor, andar de camisolinha. (outro tom).  A ideia me seduz, mulher... (Em tom oratório, erguendo-se).  Oh, velha llion!  Não serão as tuas muralhas construídas por Apollo e Netuno, os obstáculos que hão de impedir a minha entrada triunfal em teus domínios!  Invocarás em vão a proteção de Minerva!  Virgílio!  Ergue-te do túmulo!

Novas inspirações para tua Eneida vão proporcionar-te a última encarnação de Elena e seus amores com Guilherme, o último!  Que se reunam todas as tribos helênicas e que venham arrancar esta espartana dos meus braços!  Achiles!  Junta os teus exércitos!  Manda-me o povo da Itaca!  Eu sou um só, mas um Guilherme!  E verão como esmago a todos, num só golpe!  (Teatral, a Elena). Sim, Elena!  Iremos para Troia!

GARÇOM (meio impressionado com a eloquência de Guilherme)  - Quer a conta, doutor?
GUILHERME  - Não.  Quero papel e tinta... (Garçom lhe entrega uma folha de papel e a caneta. Guilherme traça, rapidamente algumas palavras e entrega o papel ao garçom)  - Entregue isto ao Agamenon.
GARÇOM  - Ao de Pernambuco?

GUILHERME  - Ao da Grécia, seu idiota!  (Abraça Elena).  Partamos, espartana!  (Saem os dois. Garçom só, aparvalhado, começa a fazer a conta rapidamente).
GARÇOM  - Pois sim!  Comigo, não adianta bancar o maluco para não pagar a conta!  (Quando se dispõe a correr atrás de Guilherme, entram Cidinha, Nilo e Carlos).

CIDINHA  - Que é isto?  Onde foi papai?
NILO  - Vi-o sair com Mme. Elena, apressadamente...
CARLOS (ao Garçom)  - O que aconteceu ao senhor e à senhora que estavam nesta mesa?
GARÇOM (muito calmo e gentil)  - Sairam.  Ele disse que o senhor pagaria a conta.  E deixou-lhe este bilhete. (Entrega-lhe o bilhete).

CARLOS  - Que é isto? (Lendo): "Agamenon.  Levo Elena. Não adianta mandar cavalo.  Não recebo. E não vale balas dum-dum",
CIDINHA (apavorada)  - Nilo! Papai... enlouqueceu!

FECHAM-SE AS CORTINAS  - FINAL DO PRIMEIRO ATO







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