O ÚLTIMO GUILHERME III

PRÓLOGO - Terceiro e último Ato, da peça teatral "O Último Guilherme", escrita em 1943, por Luis Iglesias. Neste Epílogo, após dramas vividos na estória e debates havidos sobre ideias Marxistas do Personagem (Guilherme), contrapondo-se com as ideias da verdade cristã de outro personagem enigmático (Job), um fato insólito acontece: uma luz de cor azul ilumina os momentos finais da cena, como se fora um milagre da verdade que se sobrepõe ao mal, personificado pelo demônio dentro da estória.
O interessante desta peça teatral está no fato de que, embora antiga (escrita em 1943), retrata uma situação bem atual, deste século XXI, como se o escritor houvesse tido uma premonição deste século. Vale a pena acompanhar o raciocínio inteligente da estória desde o início, ou seja, do primeiro ao último ato.
TERCEIRO ATO
CENA V
(A mesma cena anterior. Tarde do dia seguinte. Salme, preparada para sair, mostra-se apreensiva. Laura, absolutamente calma, conta-lhe a novidade do quarteirão).
LAURA - O quarteirão está em festa. Mme. Lili é muito querida pela vizinhança. É uma das maiores admiradoras do seu Guilherme. (Rindo). Só a senhora vendo, quando ela seguiu, hoje de manhã, para a Casa de Saúde, a festa que lhe fizeram as moças do 34 e do 38. Debruçaram-se para dentro do automóvel e lhe disseram: - "Boa hora, dona Lili! Pegue-se com Nossa Senhora do Parto".
Umas, apostavam que o bebê seria menina... Outras, menino... Quando Mme. Lili me viu, disse-me: "Olhe Laura, avise sua patroa e o seu patrão que não me esqueci da promessa deles serem padrinhos do meu primeiro filho..." - E lá se foi o automóvel. (Outro tom). Deus dê um bom sucesso à Dona Lili... Sim, porque nós, as mulheres, na hora da maternidade, corremos um grande perigo, não é mesmo, Dona Salme?
SALME (nervosa) - Sei lá, Laura!
LAURA (com espanto) - Hein? Sabe lá? Pois, a senhora já passou por isso e não sabe?
SALME - Sim, sei. Mas não estou prestando atenção à tua lenga, lenga, criatura. Estou preocupada Tenho mais em que pensar... (vendo o relógio elétrico). Três e meia!
LAURA - A senhora vai sair?
SALME - Vou. Se o Guilherme, quando acordar, perguntar por mim, diga que sobre a sua secretária, no escritório, está uma carta para ele...
LAURA - Está bem, Dona Salme. Desculpe-me se lhe pergunto, as seu Guilherme ainda está dormindo?
SALME - Ainda. Ontem, saiu passava de meia noite... E só voltou às nove horas da manhã... Deitou-se e... até agora.
LAURA - Com certeza... uma grande conferência.
SALME - É. Uma grande conferência. (Outro tom). Preparou o despertador para desperta-lo às duas, mas eu o travei.
LAURA - Oh! Seu Guilherme, quando acordar, vai dar o estrilo...
SALME - Vá ali ao portão e chame o Domingos com o taxi. Depois vá ao meu quarto e leve para o carro uma maleta que lá está.
LAURA (com espanto) - A senhora vai viajar, Dona Salme?
SALME (seca) - Vou.
LAURA (estranhando) - Pode ser que eu pareça importuna, patroa, mas... o patrão sabe disso?
SALME - Vai saber quando acordar. Já lhe disse: Previna-o de que há uma carta para ele sobre a mesa do escritório.
LAURA (encaminha-se para a porta e pára) - Patroa...
CIDINHA (Entrando. Traz um envelope na mão) - Laura, coloque esta carta sobre a mesa, no escritório do papai...
LAURA (com espanto) - Mas... que diabo de correspondência interna é esta?
CIDINHA (rápida) - Vamos. Não admito perguntas.
LAURA - Desculpe-me, Dona Cidinha... (recebe a carta). É que me causa admiração uma filha escrever a seu pai que vive sob o mesmo teto, em vez de se entender pessoalmente com ele.
CIDINHA - Há assuntos que só mesmo por carta podem ser tratados. (Olhando o relógio). Meu Deus, esse relógio está certo?
LAURA - Se seu Guilherme ouvisse isso... Duvidar de um relógio elétrico?
CIDINHA - Vinte para as quatro! Não há tempo a perder... Adeus, Laura. Dê um beijo na mamãe, diga-lhe que fui eu que lhe mandei... (Sai correndo).
LAURA - Também esta? Crédo! Há casas em que o diabo entra..., e ninguém mais o tira de lá...(sai)
GUILHERME (de pijama, dando corda em um relógio pulseira. Assim que entra, consulta o relógio elétrico) - Dez para as quatro... É fantástico! No despertador, cinco horas; o meu relógio pulseira parado; no relógio elétrico, dez para as quatro; e o despertador travado. (Chamando) - Laura!
LAURA (entrando) - Pronto, patrão.
GUILHERME - Quem travou o meu despertador?
LAURA - Foi a patroa.
GUILHERME (meio exaltado) - Um abuso! Como é que se trava o despertador de um homem que tem as responsabilidades que eu tenho? (Acertando o relógio pulseira pelo relógio elétrico). Vá por no lixo o despertador que está no meu quarto...
LAURA - No lixo...? Patrão, por que essa guerra de morte aos pobres relógios da casa?
GUILHERME - Quero aqui dentro, tudo elétrico. E vou estudar a possibilidade de trazer uma pilha no bolso, para que este (mostra o relógio pulseira), também funcione com eletricidade. (Outro tom). Vá ao meu quarto e prepare a minha maleta com meia dúzia de peças de roupa branca.
LAURA (com espanto) - Hein? Também o senhor?
GUILHERME - Também o senhor, o que?
LAURA - É que... a patroa acaba de partir em viagem... e, se não me engano, Dona Cidinha também.
GUILHERME - Em viagem? Mas que viagem?
LAURA - Não sei não senhor. Dona Salme preparou uma maleta, mandou chamar o taxi do Domingos e lá se foi.
GUILHERME - Compreendo... Como tivemos ontem uma ligeira discussão, foi para algum hotel e espera que eu vá busca-la para fazer as pazes... E Cidinha foi com ela?
LAURA - Não senhor, Dona Cidinha foi sozinha.
GUILHERME - Disse quando voltava?
LAURA - Não senhor.
GUILHERME (depois de uma pausa) - Está bem. Vá preparar a minha maleta...
LAURA (ameaça sair, mas recorda-se de alguma coisa e volta) - Ah, ia me esquecendo... Ambas deixaram cartas para o senhor. Estão sobre a mesa do escritório.
GUILHERME (com espanto) - Cartas? Vá busca-las, Laura.
LAURA - E não preparo a maleta?
GUILHERME - Primeiro vá buscar as cartas. (Laura sai).
GUILHERME (monologando) - Cartas... Estas cartas estão fazendo confusão no meu cérebro...
J O B (da porta, vindo da rua) - Olá...
GUILHERME - Alô...
J O B - Acabo de ver sua esposa, Guilherme.
GUILHERME - Onde?
J O B - No Cais do Porto.
GUILHERME (com espanto crescente) - E o que fazia no Cais do Porto?
J O B - Ela... ou eu?
GUILHERME - Ela
J O B - Nada.
GUILHERME - E você?
J O B - Nada, também.
GUILHERME - Mas como é que se vai ao Cais do Porto para fazer nada?
J O B (sorrindo) - Esquisitices de velho.
GUILHERME - Salme no Cais do Porto... uma carta... já estou ficando nervoso! (Da porta, chmando Laura). Laura! Laura! Traga-me depressa essas cartas.
J O B - Vi, também sua filha.
GUILHERME - No Cais do Porto?
J O B - Na estação da Leopoldina.
GUILHERME - Mais cedo ou mais tarde?
J O B - À mesma hora.
GUILHERME - Não me venha dizer que você tem o dom da duplicidade...
J O B (sorrindo) - Houve apenas uns cinco minutos de diferença. O tempo exato para uma corrida de taxi entre o Cais do Porto e a estação da Leopoldina...
GUILHERME - E o que você foi fazer na Leopoldina? (Atalhando Job que não chega a falar). Já sei. Esquisitices de velho.
LAURA (entrando com as cartas) - Pronto, patrão.
GUILHERME (toma-as das mãos de Laura, abre, febrilmente a primeira e começa a ler) - Da Cidinha (Estremece). Job! Job! Ouça... (Lê alto) - "Papai... Depois que o ouvi externar-se sobre a teoria do casamento experimental, não mais pude convencer-me do ridículo casamento legal. O senhor tem razão. Unirem-se duas pessoas pelas leis nacionais, para toda a vida, sem probabilidades de uma separação legítima, só mesmo conhecendo intimamente a pessoa a quem nos vamos unir.
Por isso, parto com o Nilo, às quatro, para Petrópolis, casados experimentalmente. Se nos dermos bem, voltaremos para legalizar a união; se nos dermos mal, cada um voltará para sua casa e não se fala mais nisso. Cidinha". (Deixando-se cair numa poltrona). Minha filha! Minha filha!
LAURA - Virgem Maria!
J O B (muito calmo) - Boa aluna, Guilherme. Aprovada com distinção...
GUILHERME (erguendo-se) - Ah! Mas isto não fica assim... Vou telefonar para a policia... São quatro e cinco. Eles podem ser presos na Serra. (dirige-se para o telefone).
J O B - Calma Guilherme. Leia a outra carta.
GUILHERME (para. Abre a segunda carta. Lê. Cambaleia) - Job! Que desgraça! (Senta-se, completamente abatido). Leia. (Dá-lhe a carta).
J O B (lê, rapidamente. Vai bater nas costas de Guilherme) - Ainda desta vez foi você o culpado, Guilherme... Nunca se fere uma mulher no que ela tem de mais sensível: a vaidade!
Ouça com que explosão Salme lhe traçou esta carta: "Julga você, seu vaidoso, que me faltavam admiradores? Pois, saiba que vinha sendo cortejada pelo seu amigo Carlos, e hoje, às quatro, embarcarei com ele para a Europa, mesmo velha como você me julga. Agora, fuja com essa Elena, que a mim já pouco importa", (Fecha a carta).
GUILHERME (segurando Job pelas mãos) - Você a viu embarcar?
J O B - Não embarcou. Nem ela nem sua filha.
GUILHERME - Como assim?
J O B - Ambas perderam a hora.
GUILHERME (olhando o relógio) - Mas tinham de embarcar às quatro. E só agora são quatro e dez.
ELENA (surgindo ao fundo) - Com licença. (Mostra-se nervosa).
GUILHERME - Que é isso, Elena! Você na minha casa?
ELENA - Em que é superior a sua casa à minha?
GUILHERME (a Laura) - Retire-se, Laura. (Laura curva-se e sai).
ELENA - Podemos falar na frente deste senhor? (Indica Job).
GUILHERME - Não tenho segredos para ele.
ELENA - No fim das contas, Guilherme, por que não foi me buscar, conforme combinamos?
GUILHERME - Perdão. Combinamos às cinco. (Indicando o relógio). São quatro e quinze.
ELENA - O seu relógio está maluco... São cinco e quinze em todos os relógios da cidade...
GUILHERME - Como assim? Então, o relógio elétrico...
J O B (completando) - Atrasou-se uma hora.
GUILHERME - Não pode ser!
ELENA - O que não pode ser é eu ficar à sua espera, como uma idiota, enquanto você continua, calmamente de pijama, dentro da sua casa. Não há tempo a perder. Vá vestir-se.
GUILHERME - Não vou.
ELENA - Hein? Você enlouqueceu, Guilherme?
GUILHERME - Louco eu estava. Agora, começo a criar juízo.
ELENA - E a nossa fuga? Já me desfiz da casa. Entreguei as chaves ao senhorio. Mandei os móveis para um guardador.
GUILHERME - Fuja você sozinha...
ELENA - Guilherme. Não compreendo nada...
GUILHERME - Pois, eu compreendo tudo. Vocês armavam um complô dentro do meu lar. Enquanto você me seduzia, o seu amigo Carlos seduzia minha mulher. Com que intuito? Vamos, esclareça-me. Quais eram suas intenções desse mísero complô?
ELENA - Cale-se. Não sei a que se refere. E o que fez Carlos?
GUILHERME - Tentou fugir com minha mulher.
ELENA - Que lhe importa isso? Você não vai fugir comigo?
GUILHERME - Nunca! Vocês derrubaram o meu lar, esfacelaram a minha família... e eu, cegamente, fui consentindo em tudo, completamente absorvido pelas minhas próprias ideias!
ELENA - De homem avançado!
GUILHERME (numa explosão) - Quem foi que disse que eu era um homem avançado? Quem foi que disse?
ELENA - Guilherme, lembre-se da dinastia do seu nome... Você, um Guilherme! O último Guilherme!
GUILHERME - O último dos imbecis! Imbecil, sim! Porque enquanto eu avançava, espiritualmente no terreno das ideias, os outros avançavam, materialmente no que é meu... Um amigo avançou-se na esposa, o futuro genro avançou-me na filha e... até em mim você quis avançar!
ELENA - Mas... Guilherme! Você se esqueceu da sua Elenazinha, da sua espartana, da viagem para Troia dos nossos sonhos?
GUILHERME - Que Troia?
ELENA - E o cavalo dos gregos?
GUILHERME - Cavalo fui eu, em pensar em mitologia grega! Nada de mitos, minha senhora. Vamos à realidade.
ELENA - Então, você não foge comigo?
GUILHERME - Não.
ELENA - E tudo aquilo que me disse no Cassino?
GUILHERME - Ali, quem falou foi o champanhe.
ELENA (numa transformação) - Ah! Mas isto não fica assim! Então, seduz-se uma pobre mulher honesta, manda-se-lhe cartas apaixonadíssimas, vira-se-lhe a cabeça e... de repente, deixa-se a pobre criatura a ver navios, sem casa, com os móveis guardados e com um prejuízo? Não. Isto não fica assim... Vou daqui, imediatamente aos jornais contar como o queridíssimo cronista avançado da cidade me tapeou... sim, é o termo... tapeou miseravelmente uma pobre mulher indefesa como eu!
GUILHERME - Elena! Chega de escândalos!
ELENA (altiva) - Escolha! Ou o escândalo ou a indenização para cobrir o meu prejuízo...
GUILHERME - Quanto?
ELENA - Dez milhões.
GUILHERME - Elena...
ELENA - Eu também sou uma mulher avançada!...
GUILHERME - Sete...
ELENA - Oito...
GUILHERME - Sete e quinhentos e não se fala mais nisso...
ELENA - Vá lá... pelo muito que eu lhe quis, Guilherme... (Guilherme sai e volta, rapidamente, com um talão de cheques. Enche um e entrega-o a Elena).
GUILHERME - Pronto. Tenha a bondade de deixar esta casa, imediatamente.
ELENA (guardando o cheque) - Ruíram todos os meus sonhos! Agora, vejo que você não é o homem que eu sonhei. Passe bem e seja feliz. (Curva-se e sai).
GUILHERME - Miserável!
J O B (muito sério) - Ah, o amor!
GUILHERME (parando ante o relógio elétrico) - E o relógio eletrico que não falha? Como atrasou-se uma hora?
J O B - O circuito de ontem à noite, lembra-se? Durou justamente uma hora...
GUILHERME - É verdade... o Circuito... (Fitando Job). Meu bom velhinho.
Continuo a não me lembrar de você no meu passado, mas minha filha teve a seu respeito uma expressão muito certa, muito real; disse que sentia vontade de sentar-se a seus pés... e pedir-lhe que falasse, que lhe desse conselhos...E eu estou sentindo neste momento o mesmo desejo, velhinho. Fale. Diga-me o que devo fazer, velhinho? O que devo fazer?
JOB (sorrindo) - Antes de mais nada, meu filho, esperar.
LAURA - Se seu Guilherme ouvisse isso... Duvidar de um relógio elétrico?
CIDINHA - Vinte para as quatro! Não há tempo a perder... Adeus, Laura. Dê um beijo na mamãe, diga-lhe que fui eu que lhe mandei... (Sai correndo).
LAURA - Também esta? Crédo! Há casas em que o diabo entra..., e ninguém mais o tira de lá...(sai)
GUILHERME (de pijama, dando corda em um relógio pulseira. Assim que entra, consulta o relógio elétrico) - Dez para as quatro... É fantástico! No despertador, cinco horas; o meu relógio pulseira parado; no relógio elétrico, dez para as quatro; e o despertador travado. (Chamando) - Laura!
LAURA (entrando) - Pronto, patrão.
GUILHERME - Quem travou o meu despertador?
LAURA - Foi a patroa.
GUILHERME (meio exaltado) - Um abuso! Como é que se trava o despertador de um homem que tem as responsabilidades que eu tenho? (Acertando o relógio pulseira pelo relógio elétrico). Vá por no lixo o despertador que está no meu quarto...
LAURA - No lixo...? Patrão, por que essa guerra de morte aos pobres relógios da casa?
GUILHERME - Quero aqui dentro, tudo elétrico. E vou estudar a possibilidade de trazer uma pilha no bolso, para que este (mostra o relógio pulseira), também funcione com eletricidade. (Outro tom). Vá ao meu quarto e prepare a minha maleta com meia dúzia de peças de roupa branca.
LAURA (com espanto) - Hein? Também o senhor?
GUILHERME - Também o senhor, o que?
LAURA - É que... a patroa acaba de partir em viagem... e, se não me engano, Dona Cidinha também.
GUILHERME - Em viagem? Mas que viagem?
LAURA - Não sei não senhor. Dona Salme preparou uma maleta, mandou chamar o taxi do Domingos e lá se foi.
GUILHERME - Compreendo... Como tivemos ontem uma ligeira discussão, foi para algum hotel e espera que eu vá busca-la para fazer as pazes... E Cidinha foi com ela?
LAURA - Não senhor, Dona Cidinha foi sozinha.
GUILHERME - Disse quando voltava?
LAURA - Não senhor.
GUILHERME (depois de uma pausa) - Está bem. Vá preparar a minha maleta...
LAURA (ameaça sair, mas recorda-se de alguma coisa e volta) - Ah, ia me esquecendo... Ambas deixaram cartas para o senhor. Estão sobre a mesa do escritório.
GUILHERME (com espanto) - Cartas? Vá busca-las, Laura.
LAURA - E não preparo a maleta?
GUILHERME - Primeiro vá buscar as cartas. (Laura sai).
GUILHERME (monologando) - Cartas... Estas cartas estão fazendo confusão no meu cérebro...
J O B (da porta, vindo da rua) - Olá...
GUILHERME - Alô...
J O B - Acabo de ver sua esposa, Guilherme.
GUILHERME - Onde?
J O B - No Cais do Porto.
GUILHERME (com espanto crescente) - E o que fazia no Cais do Porto?
J O B - Ela... ou eu?
GUILHERME - Ela
J O B - Nada.
GUILHERME - E você?
J O B - Nada, também.
GUILHERME - Mas como é que se vai ao Cais do Porto para fazer nada?
J O B (sorrindo) - Esquisitices de velho.
GUILHERME - Salme no Cais do Porto... uma carta... já estou ficando nervoso! (Da porta, chmando Laura). Laura! Laura! Traga-me depressa essas cartas.
J O B - Vi, também sua filha.
GUILHERME - No Cais do Porto?
J O B - Na estação da Leopoldina.
GUILHERME - Mais cedo ou mais tarde?
J O B - À mesma hora.
GUILHERME - Não me venha dizer que você tem o dom da duplicidade...
J O B (sorrindo) - Houve apenas uns cinco minutos de diferença. O tempo exato para uma corrida de taxi entre o Cais do Porto e a estação da Leopoldina...
GUILHERME - E o que você foi fazer na Leopoldina? (Atalhando Job que não chega a falar). Já sei. Esquisitices de velho.
LAURA (entrando com as cartas) - Pronto, patrão.
GUILHERME (toma-as das mãos de Laura, abre, febrilmente a primeira e começa a ler) - Da Cidinha (Estremece). Job! Job! Ouça... (Lê alto) - "Papai... Depois que o ouvi externar-se sobre a teoria do casamento experimental, não mais pude convencer-me do ridículo casamento legal. O senhor tem razão. Unirem-se duas pessoas pelas leis nacionais, para toda a vida, sem probabilidades de uma separação legítima, só mesmo conhecendo intimamente a pessoa a quem nos vamos unir.
Por isso, parto com o Nilo, às quatro, para Petrópolis, casados experimentalmente. Se nos dermos bem, voltaremos para legalizar a união; se nos dermos mal, cada um voltará para sua casa e não se fala mais nisso. Cidinha". (Deixando-se cair numa poltrona). Minha filha! Minha filha!
LAURA - Virgem Maria!
J O B (muito calmo) - Boa aluna, Guilherme. Aprovada com distinção...
GUILHERME (erguendo-se) - Ah! Mas isto não fica assim... Vou telefonar para a policia... São quatro e cinco. Eles podem ser presos na Serra. (dirige-se para o telefone).
J O B - Calma Guilherme. Leia a outra carta.
GUILHERME (para. Abre a segunda carta. Lê. Cambaleia) - Job! Que desgraça! (Senta-se, completamente abatido). Leia. (Dá-lhe a carta).
J O B (lê, rapidamente. Vai bater nas costas de Guilherme) - Ainda desta vez foi você o culpado, Guilherme... Nunca se fere uma mulher no que ela tem de mais sensível: a vaidade!
Ouça com que explosão Salme lhe traçou esta carta: "Julga você, seu vaidoso, que me faltavam admiradores? Pois, saiba que vinha sendo cortejada pelo seu amigo Carlos, e hoje, às quatro, embarcarei com ele para a Europa, mesmo velha como você me julga. Agora, fuja com essa Elena, que a mim já pouco importa", (Fecha a carta).
GUILHERME (segurando Job pelas mãos) - Você a viu embarcar?
J O B - Não embarcou. Nem ela nem sua filha.
GUILHERME - Como assim?
J O B - Ambas perderam a hora.
GUILHERME (olhando o relógio) - Mas tinham de embarcar às quatro. E só agora são quatro e dez.
ELENA (surgindo ao fundo) - Com licença. (Mostra-se nervosa).
GUILHERME - Que é isso, Elena! Você na minha casa?
ELENA - Em que é superior a sua casa à minha?
GUILHERME (a Laura) - Retire-se, Laura. (Laura curva-se e sai).
ELENA - Podemos falar na frente deste senhor? (Indica Job).
GUILHERME - Não tenho segredos para ele.
ELENA - No fim das contas, Guilherme, por que não foi me buscar, conforme combinamos?
GUILHERME - Perdão. Combinamos às cinco. (Indicando o relógio). São quatro e quinze.
ELENA - O seu relógio está maluco... São cinco e quinze em todos os relógios da cidade...
GUILHERME - Como assim? Então, o relógio elétrico...
J O B (completando) - Atrasou-se uma hora.
GUILHERME - Não pode ser!
ELENA - O que não pode ser é eu ficar à sua espera, como uma idiota, enquanto você continua, calmamente de pijama, dentro da sua casa. Não há tempo a perder. Vá vestir-se.
GUILHERME - Não vou.
ELENA - Hein? Você enlouqueceu, Guilherme?
GUILHERME - Louco eu estava. Agora, começo a criar juízo.
ELENA - E a nossa fuga? Já me desfiz da casa. Entreguei as chaves ao senhorio. Mandei os móveis para um guardador.
GUILHERME - Fuja você sozinha...
ELENA - Guilherme. Não compreendo nada...
GUILHERME - Pois, eu compreendo tudo. Vocês armavam um complô dentro do meu lar. Enquanto você me seduzia, o seu amigo Carlos seduzia minha mulher. Com que intuito? Vamos, esclareça-me. Quais eram suas intenções desse mísero complô?
ELENA - Cale-se. Não sei a que se refere. E o que fez Carlos?
GUILHERME - Tentou fugir com minha mulher.
ELENA - Que lhe importa isso? Você não vai fugir comigo?
GUILHERME - Nunca! Vocês derrubaram o meu lar, esfacelaram a minha família... e eu, cegamente, fui consentindo em tudo, completamente absorvido pelas minhas próprias ideias!
ELENA - De homem avançado!
GUILHERME (numa explosão) - Quem foi que disse que eu era um homem avançado? Quem foi que disse?
ELENA - Guilherme, lembre-se da dinastia do seu nome... Você, um Guilherme! O último Guilherme!
GUILHERME - O último dos imbecis! Imbecil, sim! Porque enquanto eu avançava, espiritualmente no terreno das ideias, os outros avançavam, materialmente no que é meu... Um amigo avançou-se na esposa, o futuro genro avançou-me na filha e... até em mim você quis avançar!
ELENA - Mas... Guilherme! Você se esqueceu da sua Elenazinha, da sua espartana, da viagem para Troia dos nossos sonhos?
GUILHERME - Que Troia?
ELENA - E o cavalo dos gregos?
GUILHERME - Cavalo fui eu, em pensar em mitologia grega! Nada de mitos, minha senhora. Vamos à realidade.
ELENA - Então, você não foge comigo?
GUILHERME - Não.
ELENA - E tudo aquilo que me disse no Cassino?
GUILHERME - Ali, quem falou foi o champanhe.
ELENA (numa transformação) - Ah! Mas isto não fica assim! Então, seduz-se uma pobre mulher honesta, manda-se-lhe cartas apaixonadíssimas, vira-se-lhe a cabeça e... de repente, deixa-se a pobre criatura a ver navios, sem casa, com os móveis guardados e com um prejuízo? Não. Isto não fica assim... Vou daqui, imediatamente aos jornais contar como o queridíssimo cronista avançado da cidade me tapeou... sim, é o termo... tapeou miseravelmente uma pobre mulher indefesa como eu!
GUILHERME - Elena! Chega de escândalos!
ELENA (altiva) - Escolha! Ou o escândalo ou a indenização para cobrir o meu prejuízo...
GUILHERME - Quanto?
ELENA - Dez milhões.
GUILHERME - Elena...
ELENA - Eu também sou uma mulher avançada!...
GUILHERME - Sete...
ELENA - Oito...
GUILHERME - Sete e quinhentos e não se fala mais nisso...
ELENA - Vá lá... pelo muito que eu lhe quis, Guilherme... (Guilherme sai e volta, rapidamente, com um talão de cheques. Enche um e entrega-o a Elena).
GUILHERME - Pronto. Tenha a bondade de deixar esta casa, imediatamente.
ELENA (guardando o cheque) - Ruíram todos os meus sonhos! Agora, vejo que você não é o homem que eu sonhei. Passe bem e seja feliz. (Curva-se e sai).
GUILHERME - Miserável!
J O B (muito sério) - Ah, o amor!
GUILHERME (parando ante o relógio elétrico) - E o relógio eletrico que não falha? Como atrasou-se uma hora?
J O B - O circuito de ontem à noite, lembra-se? Durou justamente uma hora...
GUILHERME - É verdade... o Circuito... (Fitando Job). Meu bom velhinho.
Continuo a não me lembrar de você no meu passado, mas minha filha teve a seu respeito uma expressão muito certa, muito real; disse que sentia vontade de sentar-se a seus pés... e pedir-lhe que falasse, que lhe desse conselhos...E eu estou sentindo neste momento o mesmo desejo, velhinho. Fale. Diga-me o que devo fazer, velhinho? O que devo fazer?
JOB (sorrindo) - Antes de mais nada, meu filho, esperar.
FECHAM-SE AS CORTINAS
CENA VI

(O mesmo cenário da Cena nº 1. Escritório do Guilherme. Uma hora depois da Cena 5. Cena vazia. Depois de um instante, entra Guilherme, com as duas cartas. Coloca-as sobre a mesa e vai sentar-se numa poltrona).
LAURA (entrando) - Aí vem a patroa...
GUILHERME - Psiu! Diga-lhe que continuo dormindo... (Sai. Pausa).
SALME (aparecendo ao fundo) - Laura...
LAURA (muito calma) - Voltou, patroa? Já sei. Contou até vinte...
SALME - Guilherme já partiu?
LAURA - Ele ainda não se levantou. Continua dormindo como um justo.
SALME - Você sabe que o tal relógio elétrico está atrasado uma hora?
LAURA - Eu não, patroa.
SALME - Vá ao portão e pegue com o Domingos a minha maleta. Leve-a para o meu quarto. E, quando o Guilherme despertar, nem uma palavra sobre o assunto, entendeu?
LAURA - Nem é preciso recomendar. Se a senhora soubesse como estou contente por ter voltado... Não ei! Tinha tão mau pressentimento dessa viagem... Mas graças a Deus, a senhora voltou.
SALME (entre os dentes) - Graças a Deus, o relógio atrasou. (Laura sai. Salme vai à mesa, pega a sua carta e rasga-a. Depois, pega na outra carta). Que é isto? (Abre-a e começa a ler). Meu Deus! Cidinha!
CIDINHA (surgindo na porta, acompanhada de Nilo) - Mamãe... não leia essa carta. (Corre a ela e arrebata a carta de suas mãos, rasgando-a). Perdoa, mamãe... Mas não deve ler essa carta.
SALME - Eu li...
CIDINHA - Oh, mamãe! Foi uma loucura que não chegamos a praticar.
NILO - Perdemos o trem. Tivemos tempo de refletir... e voltamos.
CIDINHA - Perdoa, mamãe?
SALME - Eu nada tenho que te perdoar, Cidinha. (Abraça-a).
CIDINHA - Papai não chegou a lê-la?
SALME - Não. Mas eu preciso ter um entendimento sério com teu pai. Ele é responsável por tudo. Não fosse essa força misteriosa que nos guiou os passos nestes últimos momentos, e agora estaria desfeito o nosso lar!
NILO - Tem razão, Dona Salme. Por causa das teorias absurdas do seu Guilherme é que Cidinha e eu íamos cometendo uma loucura. Eu também quero falar com ele.
SALME - Vou desperta-lo... e mostrar-lhe a desgraça que pendia sobre esta casa. (Encaminha-se para a porta).
GUILHERME (ao fundo, bocejando, calmamente) - Oh! Vocês estão aqui? Imaginem! Que vergonha! Dormi até agora...
SALME - Sabe que horas são?
GUILHERME - Quase seis horas...
SALME - E você não tinha que sair às cinco?
GUILHERME (com grande espanto) - Eu? Não, minha querida. O dia, hoje, me pertence. Quero passa-lo, todo ele, aqui dentro do meu lar. (Espanto geral).
SALME - Guilherme... preciso dizer-lhe que... (Hesita).
NILO - Com licença, Mme. Salme. Falo eu. Sr. Guilherme, devo esclarecer-lhe que...
GUILHERME (interrompendo-o) - Já sei, já sei. Ainda não pode casar no próximo mês. Paciência, meu rapaz. Roma não se fez num dia. E construir um lar sobre bases sólidas, é tão difícil quanto construir Roma. A Cidinha pode esperar mais um mês ou dois... Vocês se amam, verdadeiramente. E quando duas criaturas se amam, não há felicidade maior para elas que o suntuoso dia das bodas, com o cumprimento de todas as leis dos homens, seguido da bênção de Deus ante o sacerdote. (Espanto maior).
Dizem que as leis do casamento em nossa terra são absurdas porque aprisionam para toda a vida duas criaturas. Mentira! (Abraçando Salme). Veja, Nilo! Há 20 anos que eu me uni a Salme... e cada vez a quero mais, com a mesma impetuosidade dos nossos primeiros meses de casados. Aproveito o momento, Salme, para pedir-lhe perdão daquelas palavras de ontem... (Ligeiramente comovido).
Eu fui injusto, Salme... Você é bela, você é jovem e será jovem e bela eternamente, porque a sua maior juventude e beleza estão na alma que é pura e que será para mim, como sempre foi, o verdadeiro estímulo da minha vida!
SALME (com a voz embargada) - Guilherme! (Abraça-o).
CIDINHA (idem) - Papai! (Abraça-o do outro lado).
LAURA (entrando a correr) - Dona Salme! Dona Salme! ...
SALME (enxugando rapidamente os olhos) - Que aconteceu, Laura?
LAURA - Telefonaram agora mesmo da Casa de Saúde. Lili acaba de ter um bebê.
CIDINHA - Menino ou menina?
LAURA - Homenzinho. E Mme. Lili manda dizer ao patrão que, em homenagem ao seu padrinho, o guri vai chamar-se Guilherme.
TODOS - Guilherme?
GUILHERME - Veem? Já não serei eu o último Guilherme!
SALME (sorrindo) - Nem o pior dos maridos. (Neste momento, isoladamente, uma luz azul fortíssima se projeta sobre Guilherme, verticalmente).
VOZ DE JOB (do interior, mas de tão perto que parece estar em cena) - O último e o pior não existem sobre a face da terra. Vem sempre depois de nós e há sempre alguém abaixo de nós...
GUILHERME (voltando-se para a porta) - És tu? (Não vendo ninguém) Quem falou?
SALME - Falou o que, meu querido?
GUILHERME - Vocês não ouviram? Não ouviram esta voz?
SALME - Não. Eu não ouvi nada. (À Cidinha, à Nilo). Vocês ouviram alguma coisa?
CIDINHA - Eu não.
NILO - Eu também não.
LAURA - Nem eu.
VOZ DE JOB - Não te espantes, Guilherme. Só tu ouvirás. (Guilherme fica imóvel, enquanto Cidinha, Salme e Nilo, olham espantados para ele) Há sempre um Deus e um Diabo ao lado de cada criatura humana... O Diabo segreda-lhe ao ouvido, Deus, toca-lhe o coração. E, nesse dualismo, o lhomem atravessa a vida disputado por Deus e pelo Demônio.
Felizes daqueles que se deixam guiar pela voz do coração... pobres daqueles que se deixam dominar pela voz do cérebro. (Neste momento, a luz que ilumina Guilherme passa de azul a vermelha).
VOZ DO DIABO (como a de Job) - Cantigas... (Gargalhada). Cantigas que cheiram a incenso!
GUILHERME (estremecendo) - Meu Deus! É a voz do Diabo!
TODOS - Hein?
GUILHERME - Vocês não ouvem?
SALME - Nada.
LAURA - Estou toda arrepiada. Para mim, o patrão precisa levar uns passes numa sessão espírita.
VOZ DO DIABO - Fica sabendo, meu caro antagonista, que só me surrupiaste esse miserável (Estremecimento indignado de Guilherme), porque tenho estado ocupadissimo com vitórias importantes! Fica lá com esse pobre coitado. Eu estou em vésperas de ganhar milhares de homens... E se és mesmo poderoso, vê se consegue evitar que estoure uma guerra na Europa...
Vê se consegue deter a marcha da morte, da peste e da fome, que formam o cortejo da guerra! Desde Goethe que não nos encontrávamos, meu caro antagonista. As coisas mudaram muito. Hoje, não passas de um inofensivo anjinho familiar que só impõe respeito às crianças. As massas, as multidões riem-se de ti... Querem sangue, massacres, destruição!...
Queres um conselho para salvar a tua decadência? Dize à humanidade: "Meus filhos. Enviei-vos o filho de Deus para salvar-vos do pecado. E que fizestes com ele? Vós os pregastes numa cruz! Que pode mais fazer por vós um homem que tem os braços presos a uma cruz?" (Gargalhada. Muda-se a luz de vermelha para azul).
VOZ DE JOB - Tudo! A sua maior força está nessa prisão perpétua! Os mesmos homens que, em massa, se erguem contra as bocas dos canhões, sozinhos, curvam-se ante a cruz de Cristo! Os que receiam a baioneta do inimigo, tremem quando o espaço se incendeia com faíscas e a terra treme com os trovões! Podem mudar os regimes, podem cair os reinados da terra, podem desaparecer as nações... os homens são sempre os mesmos. E, dentro deles, por mais recalcado que viva, um dia, há de domina-los o temor a Deus! ...
VOZ DO DIABO - Conversa fiada! Loroteiro!
VOZ DE JOB (exaltado) - Espantalho!
GUILHERME (conciliador) - Que é isso? Isto aqui é casa de família! (Aos outros, com grande espanto destes que nada entendem). Estes dois nunca se entenderam...
VOZ DE JOB - Adeus Guilherme! Seja feliz! (Apaga-se a luz).
CIDINHA (baixo, a Nilo) - Para mim, papai está sofrendo alucinações...
GUILHERME (de repente, excitado) - Laura! Laura! Depressa! Corre ao quarto do velhinho. Quero vê-lo... Quero ouvi-lo...
LAURA - Sim, patrão. (Sai correndo).
NILO - O senhor está excitado... Sossegue, Sr. Guilherme ...
CIDINHA - O senhor precisa consultar um médico.
SALME - Tem os nervos abalados.
LAURA (entra correndo) - Patrão! O velhinho... Foi-se embora! Não deixou nem um lenço.
SALME - Nem um bilhete?
LAURA - Nada.
GUILHERME - Foi-se... como veio! (Deixa-se cair sobre uma poltrona). Só agora compreendo tudo! E só agora me recordo dele, nitidamente, no meu passado!
CIDINHA - Ora vejam... partir asim...
SALME (sorrindo) - Esquisitices de velho!
DOMINGOS (ao fundo) - Desculpe-me, patrão, se venho entrando... mas quero lembrar-lhe a lição de amanhã. E preste atenção. Começaremos pela marcha a ré, porque não há nada eficaz como uma marcha a ré em tempo... (Risos).
FECHAM-SE AS CORTINAS

FINAL DA PEÇA
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