FILHA DO MARINHEIRO II


Segundo Ato

Continuação do PRIMEIRO ATO - Peça teatral em 3 atos. Drama. Esta peça é ideal para grupos amadores de apresentações teatrais, por ser uma peça muito antiga, e de domínio público. O autor da peça é desconhecido, porque o manuscrito de onde foi resgatada, não trazia esta informação. Uma peça de breve duração, e não requer muitos atores. Veja maiores detalhes na postagem "A filha do Marinheiro" - Primeiro ato.

SEGUNDO ATO
(A mesma cena do primeiro ato)

CENA I
JORGE (só)

JORGE  - Que desejaria meu tio? Mandou me chamar com tanta instância, que estou deveras receoso de tenha descoberto meu segredo!  E eu sou tão vil, tão miserável, que não tenho coragem de dizer ao Almirante:  esta mulher é minha esposa, perante os homens e perante Deus!

CENA II
JORGE e o ALMIRANTE

ALMIRANTE  - Então?  Com mil raios!  Pensei que ainda não querias obedecer minhas ordens!
JORGE  - Assim que recebi a sua chamada saí imediatamente da prisão ...
ALMIRANTE (severo)  - Mas não veio imediatamente para aqui!  Entretanto, sabe que gosto de ser obedecido!
JORGE  - Meu tio ...

ALMIRANTE  - Ouça-me, eu estou em idade avançada;  julguei que podia viver descansado, e que a minha posição e os meus cabelos brancos me davam o direito de ser respeitado!  Tomei-o sob minha proteção e disse: é preciso que eu tenha um filho!  Farei por este o mesmo que faria pelo outro se existisse!
JORGE  - E já tem feito tanto, meu tio!

ALMIRANTE  - Silêncio!  Ainda não acabei.  Encarreguei-me da sua educação e tratei de assegurar o seu futuro, como nunca fiz por mim mesmo!  É que eu não sabia que o senhor era um ingrato!  Julguei que era um homem de bem, e que saberia avaliar o meu sacrifício!
JORGE  - Que quer dizer, meu tio?

ALMIRANTE  - Supunha-o incapaz de praticar uma baixeza!  E enganei-me!
JORGE  - Uma baixeza!  De que me acusa?
ALMIRANTE (com ímpeto)  - Ainda pergunta?  Por ventura quer negar que desceu a nivelar-se à filha de Jerônimo?  Um marinheiro?
JORGE  - Meu tio .,..

ALMIRANTE (com força)  - Sei tudo.  S. Excia.  Foi essa mulher sem nome e sem posição que me contou toda a verdade ...
JORGE  - Pois bem, não o nego.  É verdade!  Essa pobre moça é minha vítima, e é por isso que a considero minha esposa, perante a minha consciência!

ALMIRANTE  - O senhor esquece que eu posso obriga-lo a não desonrar o nome da sua família?
JORGE (com desespero)  - Ah!  Meu Deus!  Meu Deus!
ALMIRANTE  - Vamos, senhor.  Espero que em 24 horas parta para longe desta terra.  Amanhã segue um navio para a África, e o senhor irá nele.  (passa para o sofá)

JORGE (com resolução)  - Eu não partirei!
ALMIRANTE  - O que o senhor disse?
JORGE (com resolução)  - Não partirei.
ALMIRANTE  - Ah!  O senhor atreve-se a lutar comigo?  Pois bem.  Veremos quem vencerá. (sai)

CENA III
JORGE (só)

JORGE  - Partir!  Eu?  E Amélia?  Devo abandona-la?  Poderei riscar da memória a sua imagem, que me acompanha por toda parte?  Oh!  Não, não!  Antes mil vezes a morte!

CENA IV 
JORGE  e  JERÔNIMO

JERÔNIMO (à parte)  - Ele aqui?  Que novidade haverá por cá!
JORGE (à parte)  - Se meu tio for inflexível às súplicas de Amélia ... Se eu não puder resgatar a sua honra ... matar-me-ei!
JERÔNIMO (indo a ele)  - Matar-se?  Mas todo o seu sangue não bastaria para restituir a honra à minha filha!  Não sabe que seria um homem de menos e uma desgraça a mais?

JORGE  - Então, dize-me, que ei de fazer.
JERÔNIMO  - Eu é que lhe pergunto:  que quer que eu faça de minha filha?
JORGE  - Mas, meu tio, o Almirante, não quer ...
JERÔNIMO  - Então, ele por ser Almirante, é mais honrado do que eu?

JORGE  - Oh!  Eu enlouqueço!
JERÔNIMO  - Cuidado, senhor.  É preciso a todo custo que não diga que o sobrinho do Almirante Barão de Santa Cruz é um sedutor de mulheres honestas!
JORGE  - Tens razão!
JERÔNIMO  - Vem aí o Almirante, e eu desejo falar-lhe.
JORGE  - Eu me retiro. (sai)

CENA V
JERÔNIMO  e  o  ALMIRANTE

ALMIRANTE (sem ver Jerônimo)  - Este inferno há de acabar!  Pensem que a velhice não tem força de vontade?  Pois enganam-se.
JERÔNIMO (respeitoso)  - Meu Almirante?
ALMIRANTE (rude)  - Que temos?

JERÔNIMO  - Eu vinha falar a V. Excia ...
ALMIRANTE (rude)  - Então fala, e de uma vez por todas.
JERÔNIMO  - É que Amélia ...
ALMIRANTE (colérico)  - Vens falar de tua filha?

JERÔNIMO  - Sim e não, meu Almirante.
ALMIRANTE  - Explica lá isso?
JERÔNIMO  - Eu desejava ... que ...
ALMIRANTE (rápido)  - Deixa-te de meias palavras e diga logo o que quer!

JERÔNIMO  - Eu queria saber se V. Excia já mudou de resolução!
ALMIRANTE (colérico)  - Pois ainda te atreves ...
JERÔNIMO (respeitoso, mas enérgico)  - Desculpe, meu Almirante!  Mas eu sou um homem como outro qualquer!  Minha filha era uma moça honesta!  Tão honesta como a filha de qualquer fidalgo!

ALMIRANTE  - Não vês a distância que a separa de meu sobrinho?
JERÔNIMO (exaltando-se)  - A distância?  Não a mediu o herdeiro do seu nome, quando desceu até ela?  Não a mediu, quando arrancou a corôa de virgem a uma pobre moça inexperiente;  não se lembrou então que a honra não é privilégio só dos grandes e nobres, e que também as pobres filhas do povo a tem ... e talvez mais pura ainda do que os fidalgos!

ALMIRANTE (colérico)  - Jerônimo!
JERÔNIMO  - Amélia vai ser mãe!  Eu venho perguntar a V. Excia que nome devo dar ao filho de seu sobrinho!
ALMIRANTE (com raiva)  - O teu.
JERÔNIMO (com dor)  - O meu?  Ah!  Tem razão!  O meu nome honrará mais essa criança do que o nome de seu pai ... e talvez mesmo que o nome de V. Excia !

ALMIRANTE (indo a ele com cólera)  - Miserável!
JERÔNIMO (com explosão)  - Miserável?  Por quê?  Há meia hora que V. Excia insulta um pai que defende a honra de sua filha!
ALMIRANTE (com exaltação)  - Retire-se de minha presença.  Não me obrigues a lembrar de que sou teu superior!

JERÔNIMO  - Não é preciso, Almirante, eu saio.  Mas estou certo de que V. Excia honrado como é, não consentirá que o seu nome glorioso e ilustre por tantas vitórias na guerra seja manchado por uma infâmia de seu sobrinho.  E não esqueça também, Almirante, que um pai, quando vê manchada a honra de sua filha, que também é a sua, esquece tudo para só lembrar-se de esmagar o vil sedutor seja onde for, e quem for, e botar o seu nome, embora ilustre, ao desprezo público.  Adeus. (sai)

CENA VI
ALMIRANTE  (só)

ALMIRANTE  - Com mil raios!  Antes eu me visse no mar largo, lutando com os elementos do que eu ver-me em terra lutando como eu tenho lutado! (pausa)  Jerônimo tem razão!  Os diabos me levem se não o estimo, apesar de tudo, esse pobre honrado homem!  (pausa)  Mas, com a breca, o nome  do meu sobrinho não encobrirá a falta dessa mulher leviana!  Oh!  As mulheres!  As mulheres!

CENA VII
JORGE  e  ALMIRANTE

JORGE (à parte)  - É forçoso que eu lhe fale!  Vamos, coragem!  (alto)  Meu tio?
ALMIRANTE  - Oh!  Pensei que se tinha retirado sem minha ordem!  Não seria a primeira vez que o senhor me desobedecesse!
JORGE  - Por que me trata desse modo, meu tio?  O senhor, que me tem servido de pai?

ALMIRANTE  - Mancha a honra de uma rapariga desgraçada que só o poderá envergonhar ... causa-me os maiores desgostos ... quer enodoar o nome de sua família ... e pergunta-me por que o trato assim?
JORGE  - Mas essa desgraçada rapariga era honrada e virtuosa, e eu ...
ALMIRANTE  - E o senhor a desgraçou!  E ainda desce a confessar o seu procedimento?

JORGE  - Mas, se é verdade!
ALMIRANTE (com cólera)  - Mas é também uma infâmia!
JORGE  - Meu tio!
ALMIRANTE (com raiva)  - Oh!  Não me chame seu tio!  Envergonho-me de o ser!

JORGE  - Senhor!  (acalmando-se).  Um momento de loucura fez-me cometer este crime!  Desde então, jurei que sacrificaria tudo!  Tudo!  Para resgatar a minha dívida de honra!
ALMIRANTE  - E não compreende que ainda se tornará mais desprezível aos olhos da sociedade e aos meus próprios olhos?
JORGE  - E que me importa a sociedade, se cumpro o meu dever?

ALMIRANTE  - Dever!  E a que chama o senhor dever, além do respeito que deve aos seus antepassados?
JORGE  - Bem, meu tio.  Basta.  Sei o que me cumpre fazer.
ALMIRANTE - Também eu sei os meios que tenho a empregar. Retire-se para o seu quarto. (Jorge sai)
JORGE  - Obedeço! ...
ALMIRANTE  - Hei de mostrar a meu sobrinho quem sou.  (sai)

CENA VIII
AMÉLIA  e depois  JORGE

AMÉLIA  - Jorge deve estar aqui!  Disseram-me que o Almirante o mandara chamar!  Meu pai saiu, o coração pedia-me para vê-lo, e eu corri até aqui, mas ao subir a escada, vi o Almirante que desceu para o jardim, e senti então coragem para entrar.  Onde estará Jorge?
JORGE (vendo-a)  - Amélia!
AMÉLIA  - Oh!  Jorge!  (abraçam-se)

JORGE  - Para que vieste aqui?  Duvidas de mim, responde!
AMÉLIA  - Não, não duvidei de ti!  Mas queriam arrancar-te dos meus braços e para sempre!  Pedi, supliquei, não atenderam às minhas súplicas!  Então, não pude sofrer mais, e exigi, não como filha, não como protegida, mas na qualidade de mãe!
JORGE  - E já sabes a resposta do meu tio?

AMÉLIA  - Já!  O Almirante não quer consentir no nosso casamento.
JORGE  - E que queres que eu faça?
AMÉLIA  - Nada!  Não quero nada!  Peço-te unicamente que dês um nome ao nosso filho! (ajoelha)
JORGE  - Levanta-te, tu não és culpada e só os culpados é que nos devem ajoelhar diante do seu juiz. Sou o único culpado!  Mas descansa porque juro-te que darei meu nome ao nosso filho!

CENA IX
Os mesmos e o ALMIRANTE

ALMIRANTE (que já tem entrado)  -  Nunca!  Ouviram bem?  Nunca!
AMÉLIA  - Ele!
JORGE  - Ah!
ALMIRANTE  - Vamos, saia, senhora!  Não queira pela segunda vez, desonrar esta casa! Saia!
AMÉLIA (suplicante)  - Jorge!

JORGE (suplicante)  - Oh!  Meu tio!
ALMIRANTE  - Aqui mando eu!  E admiro a sua audácia (para Amélia) voltando a esta casa donde foi expulsa por indigna!
JORGE (exaltando-se)  - Senhor!

AMÉLIA  - Ah!  Meu Deus!  Meu Deus!
ALMIRANTE (a Jorge)  - Vá para o seu quarto, de onde só sairá para bordo do navio que o levará para a África!
AMÉLIA (com um grito)  - Oh!  Não, por piedade!
JORGE (com energia)  - Sinto ter de desobedecer-lhe senhor,  mas não partirei!

AMÉLIA (sustentando-se)  - Jorge!
ALMIRANTE (com furor)  - Não partirá?
JORGE (com energia)  - Já disse!
ALMIRANTE  - Desgraçado!

JORGE (com força)  - Basta, senhor.  Amélia será minha mulher!  E desafio-o que ma arranque dos braços!
AMÉLIA  - Meu Deus!
ALMIRANTE (com exaltação)  - Desgraçado!  Ousa insultar-me!  Não temes insultar a minha velhice!  Ah!  Mas com mil raios!  Juro-te que será a última vez!

JORGE  - E eu juro-lhe que Amélia não ficará abandonada!
ALMIRANTE (com furor)  - Oh ... desgraçado!  Ingrato!  (vendo Jerônimo que entra)  Ah! Jerônimo
leva daqui tua filha!  Retira-a da minha presença!
JERÔNIMO  - Almirante!  Eu não sabia que minha filha estava aqui!

ALMIRANTE  - Quem sabe se não foste tu mesmo que a aconselhaste a voltar para cá?
JERÔNIMO (com força)  - Quando disse que não sabia, é porque não sabia.  Eu não minto!
ALMIRANTE  - Então saiam!  E para sempre, ou faço-os sair à força!
JORGE  - Estou eu aqui, meu tio, para defende-la!

JERÔNIMO (a Jorge)  - O senhor não tem esse direito!  O senhor que lhe roubou a honra!  O Almirante expulsa-a de casa!  Porém eu que sou seu pai, sou o único que tenho direito a defende-la. Vamos, minha filha!  Vamos!  Passagem à filha do marinheiro que sai manchada da casa de um Almirante ... mas que encontrará abrigo nos braços de seus irmãos, os filhos do povo. Passagem!

FIM DO SEGUNDO ATO
(Continua no Terceiro e último Ato)
(SIGAM LENDO NA PRÓXIMA POSTAGEM / MENU)
(Filha do Marinheiro II)





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